Grupo Teatro Sim… Por Que Não?!!! faz temporada no Teatro Álvaro de Carvalho

ísEm 1992, o diretor de teatro Luís Arthur Nunes, neste momento à frente do Núcleo Carioca de Teatro, concebeu e dirigiu o espetáculo A vida como ela é. A dramaturgia para este trabalho foi composta a partir de alguns contos que Nelson Rodrigues escreveu, nos anos de 1950, para o jornal carioca Última Hora. Em 2010, Nunes é convidado pela companhia Teatro Sim… Por Que Não?!!!, de Florianópolis, para repetir o empreendimento. Ele aceitou e o que temos, em temporada no Teatro Álvaro de Carvalho, é um espetáculo contagiante, com um elenco que parece estar brincando no palco, tamanha é a leveza, alegria e técnica que apresentam para teatralizar as temáticas obsessivas de Nelson Rodrigues. Sexo, amor, traição, hipocrisia e poder. É a mulher que tem o desejo de trair o marido; é a moça que se mata porque vê sua irmã casar com o seu amado; é o pai machão que quer imprimir uma virilidade inexistente em seu filho; é a mulher que confessa trair, mas jura que ama mesmo traindo; é o homem traído que perdoa sua esposa. Dentro destes pequenos universos, Nelson Rodrigues escancara as neuroses, as hipocrisias e as perversidades que permeiam nossa sociedade. A trupe Teatro Sim… Por Que Não?!!!, que tem em seu repertório os brilhantes trabalhos Livres e Iguais e O Pupilo quer ser Tutor, apresenta, a cada novo espetáculo, uma opção estética distinta. Agora, em A vida como ela é, são utilizadas inúmeras formas teatrais dentro de uma única encenação: dublagem, manipulação de atores, máscaras, quadros vivos, dois atores interpretando um mesmo personagem e técnicas do teatro de bonecos. O cenário é limpo, criativo, funcional e todo construído de recortes de jornais, que dialogam diretamente com o texto e as ações dos personagens. A iluminação, assinada por Luís Carlos Nem, é exata e de intensa poética visual. O diretor Luís Arthur Nunes, um especialista em Nelson Rodrigues, foi assessorado por José Ronaldo Faleiro e, juntos, construíram um espetáculo de dramaturgia perfeita. A trilha sonora transita pelo clássico, pelo jazz e pela raiz da música popular brasileira. Em A vida como ela é, o aspecto trágico, que impera nas  narrativas, é acompanhado de um refinado espírito cômico. Em cena, Ana Paula Possapp, Berna Sant´Anna, Leon De Paula, Mariana Cândido, Nazareno Pereira, Sérgio P. Cândido e Valdir Silva lembram o que disse Tórtsov a Stanislavski e a Paulo Chustov, em Quanto atuar é uma arte: “Nossa experiência levou-nos a crer firmemente que só o nosso tipo de arte, embebido que é nas experiências vivas dos seres humanos, pode reproduzir artisticamente as impalpáveis nuanças e profundezas da vida. Só uma arte assim pode absorver inteiramente o espectador, fazendo-o, a um só tempo, entender e experimentar intimamente os acontecimentos do palco, enriquecendo a sua vida interior e deixando impressões que não se desvanecerão com o tempo”. É impossível esquecer o jogo cênico travado por Sérgio P. Cândido e Berna Sant´Anna já no início do espetáculo. Valdir Silva (como Alipinho) está numa de suas melhores atuações. No livro Queimar a casa, Eugenio Barba fala da harmonização da dramaturgia do ator, do espaço, do público e de uma dramaturgia narrativa. O grupo Teatro Sim… Por Que Não?!!! é uma das companhias teatrais mais importantes de Santa Catarina. Oferece-nos um teatro refinado e esteticamente impecável, porque soube fazer boas escolhas, considerando a existência dos vários eixos dramatúrgicos, desde a disposição dos textos de Nelson Rodrigues, preparação dos atores, concepção cênica, concepção do figurino, iluminação, trilha sonora, as caracterizações das passagens feitas de um texto/espetáculo a outro, o equilíbrio nas atuações, o tom jocoso para falar de nossas pequenas tragédias, o cenário/personagem, o uso de inúmeras técnicas teatrais e a direção do espetáculo. Tudo isso culmina num teatro vivo de teatro. Podemos festejar, pois temos um espetáculo de altíssima qualidade capaz de iluminar o mais exigente dos espectadores e o mais pomposo dos palcos brasileiros. Bárbara Heliodora vive afirmando que o papel do crítico é verificar se o resultado de um espetáculo está condizente com o que foi proposto.  A vida como ela é tem o grau extremado de coerência entre o que foi pensado e o que é praticado no palco.

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