QUARTO 101 – vazio da memória e o nosso admirável mundo novo


Começamos a temporada de 2011. E iniciamos bem. O Teatro Álvaro de Carvalho abriga, até final fevereiro, a peça A vida Como Ela É… com direção de Luis Artur Nunes. Uma produção imperdível da trupe Teatro Sim…Por Que Não?!!!. Já o Teatro da UBRO começa sua temporada com o espetáculo Quarto 101 – vazio da memória que é baseado no romance 1984. Clássico do escritor britânico George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair 1903-1950), que também escreveu A revolução dos bichos e se notabilizou mundialmente, principalmente, pela produção destas duas obras, foi publicado em 1949 e projeta o futuro do mundo depois das duas grandes guerras. A história de Winston Smith é a história da humanidade. Ele é uma espécie de herdeiro de Joseph K., personagem do livro O processo (publicado em 1925) de Franz Kafka e primo-irmão de Berenger, da peça O rinoceronte (1960), de Ionesco. Esses três personagens, cada qual a sua maneira, compõem a tríade da resistência política, existencial e social. O livro já ganhou o mundo sendo traduzido para mais de 100 países e recebeu duas versões para o cinema. A primeira é de 1956, com direção de Michael Anderson e a segunda, com John Hurt fazendo uma brilhante interpretação de Winston Smith, é assinada pelo diretor Michael Redford. O protagonista do romance é um funcionário do partido. Trabalha no Ministério da Verdade. Sua função é apagar verdades e produzir mentiras que serão verdades. Um palimpsesto político. Ele vive entre o passado e o futuro. Não há presente propriamente dito. Não há memória. Tudo é produzido pelo partido, tudo é artificial. 1984 é um manifesto contra o cinismo dos discursos governamentais, a intolerância, a arbitrariedade, a ausência da liberdade, o estado policialesco, a morte do Eros, enfim, contra a pasteurizição e a coisificação do homem.  O diretor e ator do espetáculo João Rodrigo Mendes está diante de um clássico. E diante deles a prudência e a pesquisa são sempre necessárias. João Rodrigo Mendes acumula múltiplas funções em  Quarto 101 – vazio da memória (diretor, ator, cenário, figurino, desenho de luz e edição imagens). Até que ele se saiu bem, já que só um gênio seria capaz de executar tudo isso com irretocável perfeição. Ainda chegaremos num tempo em que um ator entenderá que ser um bom ator já é bastante. O cenário do espetáculo é funcional composto por uma cadeira e uma “teletela”.  O figurino, as expressões faciais e os movimentos fazem referências ao butô (Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno) e ao Teatro Nô. Já a sonoplastia vem do Oriente Médio com as inserções da música eletrônica do afegão Mirwais Ahmadzaï. O espetáculo consegue harmonizar os aspectos dessas culturas e nos oferece uma poética visual de altíssima qualidade e uma atuação firme de Mendes. Ocorre que ele não alcança o drama físico/existencial de Winston Smith. O recorte do livro fica centrado na questão do partido e deixa de abordar as múltiplas questões oferecidas por Orwell. Há um equívoco na leitura das entrelinhas do que Winston Smith significa para os mundos apresentados. É claro que João Rodrigo Mendes alcança o caráter de resistente de Smith, mas ao final do espetáculo, ele o apresenta pouco perturbado e rendido, quando, na verdade, temos um personagem sacrificado psíquica e fisicamente e levado ao esgotamento. Por isso não há veneração nem amor ao Grande Irmão nem ao partido, muito menos entrega resignada. Faltou ao espetáculo trazer à cena toda a dialética do personagem de George Orwell. Outro aspecto do espetáculo não explorado é o diálogo com a plateia. Da maneira como foi pensado, ela tem que assumir papéis que podem variar de membros do partido interno, membros do partido externo, membros da prole ou, em uma concepção mais radical, ser mesmo o Grande Irmão. Faltou aquilo que Eugenio Barba chama de dramaturgia do espaço. O trabalho de Aline Maya na assistência de direção do Quarto 101 – vazio da memória, tem efeito curativo e assegura a existência de uma dramaturgia do ator (uma vez mais Barba). É um espetáculo que merece e deve ser visto, apesar dos problemas na dramaturgia narrativa. Não são poucos os espetáculos que têm bons atores, direções seguras, iluminações e sonoplastias excelentes e que apresentam algum problema na dramaturgia narrativa, o que, por conseqüência, resulta num laqueamento da teatralidade. Simulacro de uma solidão e A galinha degolada (Jefferson Bittencourt), A menina boba (Bárbara Biscaro) e Lili inventa o mundo (Max Reinert) são exemplos aos quais Quarto 101 – vazio da memória vem fazer coro porque obtêm bons resultados estéticos nos aspectos citados, mas tremem na construção de uma dramaturgia narrativa.  Quarto 101 é o trabalho de um ator jovem que domina a linguagem de sua arte. Depois do espetáculo, fica impossível não pensar no Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley, nas tenebrosas bombas nucleares, nos nossos “desaparecidos políticos” e nos cinismos de nossa sociedade. É um espetáculo que entra no espectador pela temática e pela poética visual. É preciso dizer que ambos os espetáculos que abrem a temporada foram premiados com o Edital Elisabete Anderle promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina e, ainda, registrar a importante iniciativa da Fundação Cultural Franklin Cascaes de Florianópolis que comprou algumas sessões. Começamos a temporada de 2011 com dignidade! Um bom programa para as férias: visitar o Teatro Álvaro Carvalho, o Teatro da UBRO e ler o Leviatã de Hobbes e 1984 de George Orwell e fazer a pergunta de Eugenio Barba “que casa queimaram, dentro de vocês?”.


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