A mais forte, de August Strindberg, no Teatro da UBRO

 

Três problemas centrais dominam o espetáculo A mais forte: a má leitura de August Strindberg [1849-1912], a pressa em dizer um texto que tem como base o silêncio e a ausência de uma direção condizente com os mundos criados pelo dramaturgo sueco. Numa montagem teatral o primeiro foco de luz, a primeira aparição, a primeira palavra, o primeiro olhar de um ator e o primeiro silêncio são indícios de como tudo caminhará e quais signos serão explorados pelos atores.  A mais forte não consiste apenas na disputa de duas mulheres por um homem porque passa do triângulo amoroso a sugestões homossexuais. E vai além, pois os personagens de Strindberg nos dizem: ganhar é perder, portanto perdemos sempre. Estamos diante     de um texto que diz sobre o som e o silêncio, sobre o ruído e eco mudo deste ruído. Estamos no mundo: o que fazer com tantos mundos que nos devoram, que nos habitam? A escritura tem aparência simples, contudo é complexa e não admite leituras superficiais. Porém é na superfície que Gilca Rogotti (que tem boa interpretação em Pequeno monólogo de Julieta) e Carla Santos ficam ao construírem suas personagens. Ficam nas bordas por puro e simples apressamento na leitura do texto e por claro equívoco de interpretação. A perturbação psíquica que irradia as entrelinhas de A mais forte não foi explorada. Cai-se numa ironia rasa e numa disputa física incompreensíveis. Faltou às atrizes aquilo que Deleuze chama de Percepto. A teatralidade de A mais forte não está na disputa de um falo, não está na luta corporal representada pela tortura física de uma boneca e, muito menos, reside na histeria cênica. A teatralidade de Strindberg está nos silêncios das presenças, nas ausências, nas duplicidades e nas disputas triangulares. É noite de natal, em 1880, e Mrs. X bombardeia Amélie (Miss Y), que se encontra só numa casa de chá. É preciso mergulhar no universo de Amélie e mergulhar no que significa aquela solidão, aquele momento, aquele dia e aquele período histórico em que seu silêncio se expande. É preciso pensar no que é aquele encontro. O encontro de Amélie com Mrs. X é o encontro da sua própria falibilidade. Seu amado e seu sonho de ser atriz foram amputados pela presença de Mrs. X. Há, também, Eros nesta luta-desejo, há rejeição-afeto. Somente depois de pensar nisso tudo se pode fazer a passagem do drama para o século XXI. As personagens que vimos no palco do Teatro da UBRO caem na histeria, na ausência da duplicidade [duplicidade tão comum em personagens de Strindberg basta pensar em Laura de O pai e Júlia de Srta. Júlia], na hiper-representação televisiva e num cômico muito distante das corrosivas ironias de Strindberg. Diz Artaud em A evolução do cenário: “Dirigir teatro é saber dedicar-se ilimitadamente a um texto, até conseguir extrair dele imagens nuas, naturais, excessivas e inaugurais, estas sim capazes de estabelecer com o espectador uma ponte corporal, espécie de relação física necessária à sua efetiva participação na ação cênica.” A montagem catarinense de A mais forte fica na superfície e leva o leitor a uma leitura equívoca de Strindberg, que em nenhum momento é citado pelo grupo. Nem no programa do espetáculo consta o nome do dramaturgo. Tanto melhor para Strindberg. As atrizes, infelizmente, não conseguem ultrapassar e atravessar o público, elas não perpassam o espectador. Evidente que estas jovens atrizes foram mal conduzidas pelo diretor Alê Gandolfi, que também é muito jovem, e, seguramente terá tempo para avaliar seus erros e seus acertos. O excesso de trabalho também deve ter contribuído para o insucesso da montagem. Alê Gandolfi começa a temporada de 2011 assinando a direção de quatro espetáculos: Baú de histórias infantis, O pato pateta, Trans.Veadas e A mais forte. A pressa, no teatro, é sinônimo de superfície e desencontro com o espectador. Não há construção poética, trabalho de ator e uma concepção de direção em A mais forte. O figurino e ambientação cênica nos conduzem para um universo vulgar e vazio. Toda explosiva dramaturgia de Strindberg, que parece ter construído seus personagens para o conterrâneo Ingmar Bergman, desaparece numa série equívoca de jogo pueril. Stella Adler e Robert Brustein são bons começos para se entender Strindberg. E ler Strindberg é fundamental para entender Strindberg: construtor de solidões e desesperos íntimos.  

 

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4 respostas para “A mais forte, de August Strindberg, no Teatro da UBRO

  • Max Reinert

    Olá Marcos…
    Não assisti ao espetáculo porque já tinha visto “Trans-Veadas” anteriormente e tive a mesma percepção que você teve sobre esta.
    É uma pena que, as vezes, a ânsia pela construção de um trabalho resulte na pressa por chegar a um resultado.
    A leitura (ou re-leitura) de um clássico sempre nos traz uma grande responsabilidade (eu que o diga com minha Medéia!)e, por isso mesmo, uma cobrança, principalmente porque existe um material de referência para nos orientar a percepção.
    Espero que o grupo tenha paciência para ler suas palavras e entendê-las como uma provocação para a melhora do trabalho (como eu tenho certeza que realmente o é!) e não como um ataque rasteiro. Afinal, lutamos todos por um crescimento no teatro catarinense.

  • Sandro Borgonovo

    Caro Marcus, gostei muito da peça em questão. Ri muito com seu humor inteligente e afiado. Além do mais, creio que tratar um texto clássico como algo sagrado, intocável e irretocável não condiz com a natureza da criação artística, e não estou falando em iconoclastia. Trata-se de uma livre adaptação de um texto clássico. E a palavra-chave sendo “livre”.

    Portanto, não se poderia esperar algo fiel, uma transposição completamente reverente do autor sueco, já que a proposta da encenação de A Mais Forte foca na graça da situação e no absurdo do texto de Strindberg.

    Os duplos e o ganhar é perder estão lá, pois as atrizes são bem expressivas e não considero a idade delas e do diretor um fator que impeça para que o grupo encare uma peça desse nível. Sei que eles têm pelo menos 10 anos de experiência e suas outras montagens teatrais sempre foram bem sucedidas.

    Abraços e até mais!
    Sandro

    • Marco Vasques

      Meu caro Sandro, respeito sua opinião, mas não posso concordar com sua análise. Não sei porque os grupos insistem em “livres adaptações” se podem fazer o que quiserem no seu teatro, na sua pesquisa e na sua estética. O fato é que o riso que provém do espetáculo é sem profundidade e televisivo. Penso que há que se ter respeito com os clássicos. E concordo com Deuleze que vivemos numa época que nos envergonha. Deleuze falava isso em relação a Literatura. Eu amplio para as Artes Plásticas e para o Teatro. Quanto a idade das atrizes? São novas e existem papeis que exigem sim maturidade e vivência teatral. Não adianta insistir. Em nenhum momento, na análise, sugiro a fidelidade absoluta ao texto de Strindberg, seria mesmo impossível. Quanto a experiência que você cita, se ela existe ela não veio para o palco. E se você riu muito é bom refletir mais sobre que tipo de riso Strindberg quis e pode provocar. Reafirmo: ler mais Strindberg é um caminho para entendê-lo melhor. Você já viu Fanny e Alexander do Bergman? Aí você entenderá como se traduzir Shekespeare e Strindberg para o momento e a estética do artista que traduz. De resto até mais e espero que possamos nos encontrar pelos teatros do Estado. Reafirmo que respeito suas colocações, apenas discordo das mesmas.

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