DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA EM CARTAZ NO SESC JLLE

 

Dois perdidos numa noite suja e os mundos exasperados de Plínio Marcos

O que é teatralidade? É teatro menos o texto, é uma densidade de signos e de sensações que se constroi em cena a partir do argumento escrito. (Roland Barthes in Ensaios críticos)

Não são poucos os críticos de teatro [Sábato Magaldi, Bárbara Heliodora, Décio de Almeida Prado, Jefferson Del Rios] que se renderam à arquitetura da dramaturgia de Plínio Marcos. Barrela [1958], sua primeira peça, surge de um fato verídico ocorrido numa cadeia em Santos. Dois Perdidos Numa Noite Suja [1966], obra de predileção de Décio de Almeida Prado, foi inspirada no conto “O terror de Roma” do escritor italiano Alberto Moravia [1907-1990]. Alguns historiadores têm dúvida se Plínio Marcos tinha conhecimento de Zoo Story de Edward Albee ao escrever Dois Perdidos Numa Noite Suja. É bem provável que sim já que Os fantoches é uma nítida reconstrução do Esperando Godot de Beckett. Quando Plínio surge Nelson Rodrigues já tinha escrito A mulher sem pecado, Vestido de noiva, Álbum de família, Anjo negro, Senhora dos afogados, Dorotéia, Valsa n°6, A falecida, Perdoa-me por me traíres e Viúva, porém honesta e Oswald de Andrade, que morreu em 1954, nos deixara Rei da vela, A morta e O homem e o cavalo. É neste contexto que nasce este antropófago delirante chamado Plínio Marcos que vai buscar no caótico submundo urbano, na literatura e nas cenas do dia-a-dia as pobres-almas que transitam por suas peças. Paco e Tonho são os dois pobres-diabos de Dois Perdidos Numa Noite Suja que acaba de ganhar mais uma montagem das companhias La Trama Cia Teatral e Cia Rústico Teatral de Joinville. Tonho vem do interior de Minas tentar a vida na metrópole. Paco é um sujeito sem origem. Tal qual no conto de Moravia o personagem Tonho precisa comprar um pisante [sapato] para ajeitar sua existência e Paco necessita de um pífaro [flauta] para voltar a tocar e se reerguer financeiramente/socialmente. É a ascensão social que Paco e Tonho almejam. É a fuga do subsolo à aceitação social que está em jogo no primeiro plano do texto. É a busca de um lugar ao sol que movem Paco e Tonho.  Se conseguissem o pisante e a flauta eles sairiam dos bicos que fazem descarregando caminhões em um mercado e não mais precisariam dividir um quarto de pensão. Tonho e Paco, na verdade, sabem que nunca sairão de seus mundos, assim como a prostituta Dilma, de Abajur Lilás, sabe que jamais deixará as ruas. Há entre Paco e Tonho, para usar as palavras de Décio, uma “afeição subterrânea”. A sexualidade é expressa pela violência, pelo toque bruto. Existe um desejo expresso pela agressão. É em torno do poder, da sexualidade e da luta de classes que giram as raivas, esperanças e desesperanças de Paco e Tonho.  Paco extorque piscologicamente Tonho que durante todo o tempo insiste em visualizar um futuro melhor porque estudou. Os atores Samuel Kuhn [Paco] e Cristóvão Petry [Tonho] não dão conta da dialética dos personagens. O mais sensível, o mais forte e mais inteligente [Tonho] é ao mesmo tempo o mais desamparado para o mundo. O mais prático e acomodado ao submundo [Paco] se revela frágil e carente. Faz necessário ressaltar que Samuel Kuhn tem atuação mais elaborada que Cristóvão Petry e dá indícios de que será um ator que marcará sua passagem [com a construção de uma poética do corpo] pelos tablados de nosso estado.   Já Cristóvão Petry tem se revelado um ator de repertório limitado na construção de seus personagens. Os últimos espetáculos que protagonizou [A lição, Pela janela e Dois perdidos numa noite suja] revelam um ator limitado e com extremada dificuldade de adentrar nos mundos que leva à cena. A opção da direção de Amarildo de Almeida foi a de não entrar nas entrelinhas, no subtexto de Plínio Marcos. A direção opta pela crueza da disputa de dois párias que culminará no assassinato. Dois perdidos na noite suja, na montagem joinvilense, não leva em consideração as várias camadas de poderes [Michel Foucault] que existem neste texto que foi comparado, por Décio de Almeida Prado, ao Esperando Godot de Beckett. A comparação se dá pela complexidade das relações de Tonho-Paco associadas às de Pozzo-Lucky. Falta, à montagem catarinense, o mergulho ao universo exasperado e complexo que Plínio Marcos desenhou na carne e na alma de Paco e Tonho. O espaço cênico em que a ação ocorre precisa ser repensado, porque a peça quando apresentada no palco italiano atenua o impacto dos personagens e o público perde o contato com algumas cenas. Se a direção opta por uma construção dramatúrgica intimista não pode fazer concessões sob pena de expor seu trabalho e seus atores. É evidente a ausência de uma escritura cênica em Dois perdidos numa noite suja. A dicção dos atores e o ritmo/tempo do espetáculo precisam ser redimensionados. As cenas de luta corporal estão destituídas da violência psíquica/física [violência presente em toda obra do Plínio Marcos] e necessitam pulsar da quarta parede para atingir o espectador.  Outras questões como a não sugestão [ainda que metaforicamente] do desejo sexual existente entre Paco e Tonho; a não associação a uma ação política do trabalho [pois vale lembrar que o texto foi escrito e encenado durante a ditadura militar]; a falta de criatividade para solucionar a passagem de um quadro para outro são alguns aspectos que, se observados pelo diretor, poderiam resultar na melhoria da teatralidade do espetáculo. A sensação que se tem ao sair do teatro é que Dois perdidos numa noite suja é muito mais uma leitura dramática em velocidade exagerada que a construção de uma poética teatral capaz de revelar os tomentos e as exasperações de Paco e Tonho. Falta teatralidade em Dois perdidos numa noite suja. Falta ousadia na direção que segue passo a passo todas as rubricas [cenário, figurino e luz] de Plínio Marcos. Falta uma antropofagia cênica aos moldes do delirante antropófago Plínio Marcos que só concluiu o primário, foi estivador, jogador de futebol, vendedor de rua e palhaço de circo. Conheceu a dramaturgia internacional na voz de Patrícia Galvão, a Pagu. E a Cacilda Becker, quando leu Dois perdidos numa noite suja, comentou: “Incrível! Você conhece dez palavras e dez palavrões, e escreveu uma peça genial”. Faltou vida no espetáculo. O que para Peter Brook equivale a dizer que faltou teatro no teatro.

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