Teatro brasileiro sob as lentes de Sábato Magaldi

 

Ele é uma das mais importantes figuras do teatro brasileiro. Afirma, sempre que nos encontramos: “nunca fui complacente com a mediocridade.” Sábato Magaldi e sua trajetória se irmanam à evolução, ao surgimento e ao amadurecimento do teatro e da dramaturgia brasileiros. Foi o “padrinho” número 1 do Teatro Arena. Atuou na imprensa nacional como crítico de teatro por mais de cinco décadas. É autor de Moderna dramaturgia brasileira (Perspectiva), Teatro em foco (Perspectiva), Depois do espetáculo (Perspectiva), O texto no teatro (Perspectiva), Panorama do teatro brasileiro (Global) e Teatro de ruptura: Oswald de Andrade (Global) entre outros.  Sábato é professor, conselheiro, amigo e companheiro de inúmeras gerações de atores, diretores, críticos e dramaturgos. Quando, muito jovem, procurei por ele com alguns livros sob os braços fui recebido com sorriso e vinho. Muitos vinhos tomados, muitos livros trocados e algumas fitas gravadas. Aqui dividimos parte de nossas conversas sobre a vida e o teatro brasileiro.

MARCO VASQUES – A figura do dramaturgo quase sempre esteve ligada a uma companhia teatral. De que maneira as companhias teatrais brasileiras, do Teatro Brasileiro de Comédia em diante, influenciaram no surgimento de nossa literatura teatral? Esta dramaturgia deve muito às companhias? 

SÁBATO MAGALDI – Eu penso que não só a dramaturgia, mas todo o teatro. Não podemos esquecer que primeiro havia só o teatro no Rio de Janeiro. Um teatro importante e que exportava para São Paulo e para as outras cidades do Brasil, para as outras capitais, principalmente. Aí houve grupos amadores em São Paulo que queriam renovar as características daquele teatro que estava muito decadente, um teatro do primeiro ator. Sem nenhuma preocupação com o conjunto. Sem uma verdadeira direção. E depois dos comediantes no Rio de Janeiro houve uma preocupação séria em melhorar todo este aparato teatral. E um empresário italiano, que gostava muito de teatro e que havia ganho muito dinheiro com o vinhedo, resolveu criar o Teatro Brasileiro de Comédia. O TBC foi realmente o núcleo fundador do teatro profissional e sério em São Paulo. Não só ele aproveitou os melhores atores que trabalhavam no Rio de Janeiro e que estavam dispostos a participar junto com a equipe verdadeira, como ele acabou se desdobrando em outras companhias.

VASQUES – Este desdobramento tem a ver com a mudança na construção de um espetáculo que não fosse o espetáculo do primeiro ator, certo?

 SÁBATO – Sim, porque havia um momento em que um ator de enorme prestígio ficava fora de espetáculos. E se um espetáculo fizesse bastante sucesso e aquele ator não estivesse nele ele ficava fora de cartaz. A Cacilda Becker, por exemplo, chegou a ficar mais de um ano sem atuar, porque o espetáculo anterior do TBC havia feito muito sucesso e ela não estava nele. Isto foi levando ao desdobramento das companhias. Aí foram criados o Teatro Lígia-Luís-Sérgio Cardoso, o Teatro Maria Della Costa que também havia passado pelo TBC, a Companhia Tônia-Celli- Autran que se estabeleceu no Rio de Janeiro. E a partir daí havia um teatro de gosto europeu e do bom gosto estabelecido tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro. E aí surgiu uma nova geração ligada a Escola de Arte Dramática de São Paulo com preocupações nacionalistas e isto levou a fundação do Teatro de Arena que era uma nova forma diferente, foi o crítico Décio de Almeida Prado que havia lido sobre o Teatro de Arena nos Estados Unidos, havia visto este modelo de teatro e levou a Escola de Arte Dramática a fazer uma experiência. Foi o José Renato que fez esta experiência na Escola de Arte Dramática. Todo mundo achou interessante porque era barato e excluía cenário… E acabou se fazendo o Teatro de Arena que no começo era apenas um TBC um pouco mais pobre.  Até que houve um momento que apareceram novos elementos que vieram do Teatro Paulista do Estudante como Oduvaldo Vianna Filho, o Geanfrancesco Guarnieri, depois veio do Rio de Janeiro, até por indicação minha, o Augusto Boal e José Renato que colaborava no Teatro de Arena. E o Teatro de Arena resolveu fazer uma plataforma de teatro brasileiro. A partir da estreia de Eles não usam black-tie, em 1958, mudou o corpo da dramaturgia brasileira. Isto mudou completamente a fisionomia do teatro e valorizou muito o autor brasileiro novo. E as outras companhias que se desdobraram do TBC acabaram incorporando os novos dramaturgos. A Cacilda, por exemplo, montou o Ariano Suassuna e fez grande sucesso.

 VASQUES – De que maneira você vê a obra de Qorpo Santo? Não acha muito arriscado as comparações comumente feitas entre ele o teatro de Arrabal, Ionesco e Beckett?

 SÁBATO – Sim, penso que a relação é indevida. O que ocorre é que como já se tem uma etiqueta do teatro do absurdo. E o teatro de Qorpo Santo não se comportava pelas regras normais do teatro. Então se passou a chamar a obra dele absurda e ele ficou o nosso autor do teatro do absurdo. Mas é muito diferente o absurdo do Qorpo Santo do absurdo do Beckett e Ionesco. Tudo é uma questão de rótulo. No entanto é inegável a presença de elementos de vanguarda em sua obra.

 VASQUES – Por falar em vanguarda seu trabalho sobre Oswald de Andrade foi publicado quase sem você saber, certo?

SÁBATO – Na Universidade de São Paulo houve um momento em que você tinha prazo para fazer um doutoramente direto. No meu caso, este prazo se fecharia em dois meses, e eu não teria paciência de me tornar aluno novamente. Não dava mais, então, como já havia estudado profundamente a obra do Oswald de Andrade, eu acabei fazendo a tese de doutorado nestes dois meses. Aliás, fiz em quarenta dias para defendê-la. Depois deixei guarda na esperança de mexer nela. Certo dia Edla, minha esposa, achou um absurdo estar com este material em casa, sem comungar com ninguém, e levou para a Global, sem que eu soubesse, quando fui saber o livro já estava sendo publicado.

VASQUES – Neste trabalho você evidência a ruptura que ele provocou no teatro brasileiro, antes dele não existiu nenhuma ruptura semelhante?

SÁBATO – Oswald de Andrade foi um marginal. Importante lembra que ele já na década de 10 escreveu várias peças dele em francês. O caso é que apareceu a peça Vestido de noiva, do Nelson Rodrigues, que foi um grande êxito em 1943 e o teatro de ficou de lado. Até que o José Celso Martinez Correia, por insistência do Renato Borghi, que gostava muito da peça, acabou lendo O rei e a vela e deu um estalo. Ele fez um espetáculo importantíssimo e que lançou o Oswald como o grande autor moderno. As possíveis rupturas anteriores, no teatro brasileiro, não têm igualdade com o que fez Oswald pela nossa dramaturgia. Vou revelar a você uma coisa, eu era muito amigo do Nelson Rodrigues e sempre apontei semelhanças entre a obra dele e a Oswald de Andrade. O Nelson sempre negou que tenha lido Oswald. É possível que sejam coincidências de um clima de época.

VASQUES – Estas peças  iara o Brasil, o Adolfo Cile sas sobre o teatro brasileiro. ravadas. arecebido com sorriso e vinho.que o Oswald escreveu em francês tiveram a participação do poeta Guilherme de Almeida, certo?

SÁBATO – Sim, eles escreveram muitas peças juntos, enquanto foram amigos, porque depois o Oswald se distanciou muito do Guilherme, por discordar de muitas de suas posturas.

VASQUES – No livro Panorama do teatro brasileiro você diz que o Brasil tem um fator positivo em sua dramaturgia, que é a não influência do teatro europeu. Isso resultou numa dramaturgia totalmente arraigada a nossas culturas, você poderia falar um pouco sobre as principais características de nossa dramaturgia?

SÁBATO – Houve inicialmente uma marcada influência europeia o Ziembinski era um diretor polonês. Foi tão marcante a sua forma polonesa de dirigir um ator que até se brincava dizendo aquele é uma ator o Ziembinski. Que o copia. Há também um fator interessante, pois, com a derrota da Itália na guerra, muita gente teve que sair da Itália. O Rogério Jacob veio para o Brasil, o Adolfo Celli, o Luciano Salti…  enfim uma turma de diretores italianos jovens que não tinham oportunidade na Itália. E vieram para o Brasil e aqui trabalharam, sobretudo no TBC. Houve esta influência, porém depois sugiram os brasileiros, por exemplo, o José Renato é produto da Escola de Arte Dramática. O Boal estudou nos Estados Unidos e se juntou ao Arena. A partir daí sim começam a aparecer muitos dramaturgos de valor que refletem sobre este mosaico cultural que é o Brasil. Então a influência europeia ficou muito mais em cima das montagens que dos textos, por isso afirmo que a moderna dramaturgia brasileira não bebeu nos textos europeus. Embora, que fique claro, seja possível encontrar semelhanças entre um dramaturgo brasileiro e um europeu.

VASQUES – Você sempre diz que um dos grandes dramaturgos brasileiros, Jorge Andrade, anda esquecido, a que você atribui este esquecimento?

SÁBATO – O problema é que houve um momento em que bateu uma mania geral de criação coletiva, então o grupo se reunia e a partir de uma idéia lançada começavam a produzir o próprio texto para o espetáculo. Acontece que sem um bom autor, ou sem alguém que saiba escrever bem este tipo de criação coletiva acaba dispersando e não atraindo o público. Porém aí nos temos um problema de outra natureza. É que o teatro, no mundo inteiro, ele tem o subsídio do governo ou subsídios, como nos Estados Unidos, de outras comunidades que não as estatais. Aqui no Brasil, o Neoliberalismo, esta coisa horrorosa que aconteceu no país acabou com o subsídio cultural e aí tudo ficou muito difícil. E acredito que isto tenha prejudicado demais o teatro brasileiro. Não há sobrevivência possível, pois, ou vem dinheiro do Governo ou de outras entidades que podem perfeitamente ajudar o teatro brasileiro.

VASQUES – Esse problema tem raiz na ditadura? 

 SÁBATO – Não tenha dúvida, porém, e felizmente, mesmo no tempo da ditadura, o Serviço Social de Teatro foi entregue a pessoas honestas e decentes. E que não prejudicaram o teatro e ajudava na medida das possibilidades. Então o teatro não era alguma coisa que pudesse assustar muito a ditadura. As pessoas que sustentam esta postura ou não viveram na época o acontecido, ou estão equivocadas no seu pensar. As pessoas continuaram a fazer teatro durante a ditadura militar, claro que com algumas restrições, mas nada muito assustador. Houve um caso de um espetáculo que elogiava a ditadura, um espetáculo lamentável, porém ficou apenas um dia em cartaz. Agora é inegável a força de contestação que o teatro tem, acredito que a redemocratização tenha ocorrido com ajuda da sempre liberdade expressa pelo teatro.

VASQUES – Por falar em opressão o que você pensa sobre o Teatro do Oprimido do Augusto Boal?

SÁBATO – O que o Boal criou tem uma importância sem tamanho, porque era uma maneira de o teatro dar uma voz ativa aos oprimidos. Tanto tem importância que repercutiu em outros países. O que Boal fez tem também um valor simbólico muito grande, pois por muito tempo se pensou o teatro como coisa dos poderosos, da classe dominante. Ainda hoje esta é a única teoria de teatro feita por um brasileiro que tem repercussão internacional.

 VASQUES – Quem é o grande dramaturgo hoje no Brasil?

 SÁBATO – Maria Adelaide do Amaral é um deles.

 VASQUES – De que maneira você começou a atuar na crítica teatral?

SÁBATO – Eu trabalhava no Diário Carioca cujo diretor era um excelente crítico teatral que era o Pompeu de Sousa, um jornalista cearense. E neste jornal quem fazia crítica de teatro era o Paulo Mendes Campos, mas ele não gostava de fazer. Fazia porque ganhava um pouco mais de dinheiro com aquilo. Para ele sair da mesa de um bar para ir assistir a uma peça de teatro às 21h para ele era um sacrifício enorme. Como ele sabia que eu gostava muito de ver teatro e que eu ia a quase todos os espetáculos ele perguntou se eu queria ficar no lugar dele. Eu falei que adoraria, então ele me levou ao Pompeu de Sousa foi ali que comecei.

 VASQUES – E a vida Sábato, o que mais o encanta nela?

SÁBATO – Viver! Viver é ótimo.

VASQUES – O que mais o impressionou no teatro durante todos estes anos de atuação?

SÁBATO – O que me impressionou e me deixou muito feliz foi o fato de eu testemunhar o surgimento de um bom teatro brasileiro. No momento em que começavam a aparecer bons autores brasileiros, bons diretores brasileiros e um elenco homogêneo, este foi um momento de grande satisfação e alegria. Este momento me impressionou muito.

VASQUES – Voltaremos a ter uma nova geração de brilhantes atores e diretores?

SÁBATO – Claro. Mas as condições hoje não estão muito favoráveis. O Neoliberalismo acabou não só com o teatro, mas com o país. Sou contra as Leis de Incentivo à Cultura, por exemplo, nos modelos atuais, pois estas leis visão tirar do Estado a responsabilidade sobre a cultura. Na literatura, por exemplo, acho deplorável que um autor tenha que ir buscar dinheiro para publicação de suas obras, esta não é a função dele. Se o governo está disposto a investir determinada quantia, ele deve por esta quantia no orçamento e dá diretamente aos artistas, claro que obedecendo alguns critérios.

VASQUES – E a coleção de Melhor Teatro que você coordena na editora Global?

SÁBATO – É um trabalho em conjunto, geralmente escolho um autor e entrego o trabalho de seleção e apresentação a uma pessoa capacitada. Foi assim com o Plínio Marcos. A Ilka Marinho Zanotto fez a seleção e a apresentação, contudo estou sempre trocando idéias com as pessoas responsáveis pelos autores escolhidos.

 VASQUES – Sábato, você convive com diversas personalidades no meio literário e teatral. Existe algo que o incomoda ou incomodou neste convívio?

SÁBATO – Nada me incomoda. Tive a sorte de ter bons relacionamentos com grande parte dos intelectuais que conheci. Mesmo com aqueles que não tive um relacionamento mais próximo, sempre fui tranquilo. Aceitar a diversidade e respeitar o trabalho do outro, talvez, tenha me feito caminhar neste mundo sem muitos atritos. Porém que  fique claro, nunca fui complacente com a mediocridade.  

 

 

FOTO 1: Sábato Magaldi entrevistando  Jean-Paul Sartre.

FOTO 2: Jéfferson Del Rios, Sábato Magaldi e eu numa discussão saborosa sobre o nosso teatro.

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