AS TRÊS IRMÃS – Um antídoto à arte anestésica

                         AS TRÊS IRMÃS – Um antídoto à arte anestésica

 “Imaginem que estou começando a esquecer o seu rosto. E será assim que seremos esquecidos, nós também, um dia.”

                                                                        (Macha in Três Irmãs via Tchekhov)

 A arte teatral é reverberação. Uma peça de teatro é poesia que atravessa o outro. O poeta, o pintor, o escultor e o músico possuem meios de gravar e perpetuar uma parte de suas poéticas. O ator carrega no corpo a morte de seus inúmeros poemas, seus múltiplos silêncios. O milagre da perturbação carnal e a alegria de podermos burlar a falência da percepção podem acontecer em qualquer arte, mas é no teatro que a carne é a própria arte. O ator: uma vela: em iluminar se consome. Aristóteles já nos alerta que “a pintura, a escultura, a música e a dança também são formas poéticas, tal como a tragédia e a épica” é Octávio Paz quem acentua a afirmação no seu livro O arco e a lira. Só concebo a arte que tenha como bússola a poesia: as harmonias infernais das poéticas. A matéria essencial do teatro é o ator e seu corpo: portanto: carnação do ato poético. O corpo é a escritura do ator. Quando um ator morre leva consigo uma multidão. Quando um ator nasce: catedrais e teatros modem os próprios corações. Ao sair do Teatro da UFSC, após assisti ao espetáculo As três irmãs, meu coração carregava orquestras inteiras e um coro de mil vozes tocando Bach. Uma das maiores alegrias é sair do teatro em estado de abismo absoluto. Ver essas meninas no palco é como dançar dentro do barril de Diógenes e reencontrar-se com o teatro. Tchekhov aprovaria cada linha adaptada, cada acréscimo feito. O espetáculo concebido por Marianne Consentino prioriza o conflito das três irmãs a partir do ser e seu estar-aí. É o tempo que escoa para o irrefutável. É a saudade de um lugar: um não-lugar. São as frustrações diárias e a busca cinzenta de olhar a luz. É a sensação de apenas estar-aí. Todos temas buscados da peça de Tchekhov, portanto, a adaptação é fiel ao conflito principal da peça original que consiste na investigação e na afirmação da indagação: este é o nosso mundo, esta é a nossa vida, estas são nossas crueldades, e agora? Que senda urdir? As três irmãs consiste num hino fúnebre à imobilidade da vida (tão semovente e escorregadia). É uma investigação profunda da existência e seu sentido, seu não-sentido. É a busca de uma luz e um caminho para a orientação dos sentidos dentro do tempo. As atrizes Paula Bittencourt (Irina), Débora Matos (Olga) e Greice Junqueira (Maria: Macha no texto original) se utilizam da linguagem do clown para nos iluminar com o humor negro e ácido que nos leva ao riso-desespero. E o que é feito da outra multidão de personagens de Tchekhov? Eles estão nas falas das três irmãs e sua carnação é transferida aos espectadores. Todos somos personagens do espetáculo. Todos somos esse ir e vir em direção ao nada. Somos essa espécie de sonâmbulos morando na fantasia de uma justificativa para o estar-aí. Todos somos esses rostos tão reais e tão anônimos, que aguardam solenes o esquecimento. As três irmãs é um espetáculo de fronteira e fratura que une beleza, sutileza, coerência estética e apuro técnico poucos vistos nas montagens que pululam pelos nossos palcos. Tem uma concepção musical irretocável. Se alguns personagens de Tchekhov, no texto original, tocam piano, acordeão e violoncelo, na resignificada montagem de Marianne Consentino a flauta, o violão e as vozes dos músicos Cassiano Verdana, Mariella Murgia e Gabriel Junqueira reafirmam a intensidade poética e a coerência interna do espetáculo. No entanto, o espaço escolhido pelo grupo para a nova temporada, o Teatro da UFSC, foi o único vacilo do grupo porque quebra a atmosfera intimista tão necessária para que o espetáculo aconteça plenamente. Mesmo assim As três irmãs, da Traço Cia de Teatro, é como aqueles poemas que ficam, para sempre, aderidos ao corpo de quem leu. Se a arte teatral não tem o livro, a tela ou outro suporte para assegurar sua permanência e apreciação, tem o corpo alheio para garantir a sua incrustação. Tem a memória do corpo como partitura. O espetáculo As três irmãs nos faz encontrar resposta à pergunta da poeta Hilda Hilst: “Enquanto tu caminhas pelas ruas, te pergunto: e a entranha?”. O grupo entrou na entranha do autor de Ivanov, A gaivota, Tio Vânia, O cerejal e Três irmãs. Buscaram a entranha para imantação de outras entranhas. “Me joga, me joga fora!”: pássaro e fogo a interpretação dessas meninas. Pássaro e fogo a queimar e cantar nas entranhas. Flecha migratória: reverberação. Antídoto à arte anestésica que pululam sobre nossos palcos.

 

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4 respostas para “AS TRÊS IRMÃS – Um antídoto à arte anestésica

  • Luiza Lorenz

    Oi Marco,
    Teu texto está ótimo e apaixonado: Faz com que nos emocionemos novamente com esse ‘abismo’ que é a montagem das meninas.
    Bjinho,
    Luiza.

    • Marco Vasques

      Obrigado Luiza, estou reunindo aqui todos os textos que escrevi em 2010, estou publicando aos poucos. Sempre um inédito com um já publicado em jornais, revistas ou outros blogs. E vocês, quando apresentarão algo novo! Quero ir e quero escrever sobre. Bejinho para você também.
      Marco

      • Luiza Lorenz

        Marquito,
        estou passando uma temporada intensiva aqui em Buenos Aires, entre outras coisas, criando um trabalho através da Imensa poesia de nosso Cruz e Sousa. Setembro eu volto e apresento por ai. “Nem prosa, nem verso. Outro drama, outra magia, outro movimento” (dele).

      • Marco Vasques

        Maravilha, volte que eu quero assistir e escrever. Beijo. Tais aí deves estar sabendo que o David Viñas morreu esta semana. Abração.

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