Women’s white shirts – uma década de palco

 

                                                           Women’s white shirts

A faxineira de um necrotério mistura memória e sentido. Disseca-se. Faz uma espécie de auto-autópsia. Possui a clausura da própria carne. Adair morde a memória líquida, flutuante. Memória escorregadia, amálgama de plasma. Ela consome uns flashes de suas experiências para tentar uma composição de si. Ela mesma um fragmento. Tão fragmentada quanto o mundo à sua volta, volátil. Tem a morte concreta à sua frente e a vida premente. A personagem do dramaturgo argentino Daniel Veronese tem uma correspondente na dramaturgia brasileira: a Sônia do Nelson Rodrigues. Suas composições psíquicas são similares e os seus conflitos provêm da memória/sentido, da conturbada relação familiar, da sexualidade, do crime e da morte. Sônia e Adair: sinfonias de desesperos. O universo de Adair é constituído de um carrossel de escombros impalpáveis, de pequenos tsumanis diários. Women’s white shirts é a nova versão do diretor André Carreira para o texto Women’s white long sleeve sport shirts de Daniel Veronese. O espetáculo tem início com Adair e um cadáver (seu alterego?) a espera de uma autópsia. O jogo cênico e a tensão dramática partem do duplo vida/morte. O cenário é composto por uma parede branca e uma marcação, igualmente branca, que delimita o espaço onde as cenas se darão. A atriz Ana Luíza Fortes, que interpreta Adair, nos oferece uma atuação contundente que varia entre o expressionismo e o minimalismo. Uma carnação poética a aparição de Adair. Lara Mattos, interpreta um corpo que espera uma necropsia, surpreende ao colocar seu corpo/objeto às mãos de Adair. Somente uma atriz que ame profundamente a arte teatral é capaz de encarar os riscos que Lara Mattos encara. As ações são partituras poéticas, são quadros que variam de Malevich a Munch. As atuações das atrizes estão muito próximas daquilo que Stanislavski chama, em A preparação do ator, de “potência artística”. O espetáculo segue as experimentações estéticas anteriores do grupo (E)xperiência Subterrânea, isto é, uma poética que esteja na fronteira, na zona máxima de tensão/risco psíquica e física. Tenho acompanhado a poética singular do grupo desde a polêmica montagem de A destruição de Numância, de 1998. E Women’s white shirts mantém a busca da poética/fronteira. Chega a ela levando o público do grotesco ao belo, do erótico à agressão, do gótico ao real, do riso ao choro, do trágico ao cômico e da angustia à ironia. Se tivéssemos que achar uma definição para o jogo cênico e a poética do risco existentes em Women’s white shirts teríamos que recorrer a Artaud: “essa famosa poesia, que o público menospreza, não sabendo o que ela é, e que ainda é a única coisa que o toca sem que possa dizer como isso acontece, essa poesia está na base de toda ação dramática”. Sim, todo jogo cênico do espetáculo é a poesia, que toca, arrebata, entra e fica na memória, para sempre. André Carreira é um diretor que pensa as dimensões, os espaços de suas montagens e monta seus espetáculos como Munch ou Magritte compunham seus quadros. Ele parece desenhar visualmente seus trabalhos e, depois, ambientar o ator no universo criado. Espetáculos anteriores assinados por ele [O líquido tátil, A casa tomada] deixam evidentes a estética que Carreira procura como encenador. Nascido em Juiz de Fora, André Carreira é um dos melhores encenadores e preparador de atores do teatro feito em Santa Catarina. A única restrição à apresentação feita no Teatro da UFSC, durante o Festival Internacional de Formas Animadas, é a escolha do espaço. Perde-se muito da poética do ator quando o espetáculo se distancia do público. Já que o trabalho foi concebido com nítida proposta intimista. Women’s white shirts, ainda assim { ao lado de As três irmãs, A vida como ela é…,Pequeno inventário de impropriedades, Livres e iguais, Entre e O pupilo quer ser tutor} é uma das montagens mais importantes dos últimos dez anos do teatro catarinense. E há quem tenha a cara-de-pau de menosprezar as estéticas aqui experimentadas. Pensar nesta nova versão de Women’s white shirts [acompanhei três trocas de atores no espetáculo] nos leva a algumas imagens e pensamentos de Alain Robbe-Grillet e Sergio Caballero.

 

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