Cia. Razões Inversas, de São Paulo, circula o Brasil com os espetáculos Agreste e Anatomia Frozen

 O SILÊNCIO, UM METÓDO DE FALA

 Teatro é ato único. Teatro é devir. O teatro apresenta sempre um resultado único [Artaud]. Por isso Peter Brook afirma que teatro é vida. A vida é devir; constante transformação. Ainda que tentemos pasteurizar os dias. Ainda que tentemos coisificar o mundo, elaborar nossas crueldades mais e mais e embrutecer os sentidos. Sempre haverá uma fratura, um fragmento ou um deslocamento para provocar a reabertura do sentido.  Ainda que haja uma tentativa cruel de mumificar os homens numa soma de iguais, o teatro pode mostrar uma via contrária. O espetáculo Agreste da companhia Cia. Razões Inversas de São Paulo é exemplo da possibilidade de trilhar outras sendas, múltiplos caminhos. Trata-se de um trabalho que usa o silêncio como método de fala, como ato de agressão. Fique claro que o termo agressão aqui é usado como sinônimo de fogueira no sentido, espanto [Aristóteles] e a abertura de uma clareira [Heidegger] no meio de cada espectador. Agreste nos traz história de um casal que foge à procura de uma morada. Abrigam-se no árido, isto é, numa comunidade onde impera a seca [geográfica e humana]. Após 30 anos de casamento o inexorável, o inevitável acontece: a morte leva Etevaldo. Sua esposa a partir daí sofrerá uma série de abusos cometidos por uma sociedade intolerante, hipócrita e brutal. Etevaldo, seu esposo, é uma mulher [Diadorim às avessas]. Mais Agreste é muito mais. Agreste é carnação da palavra. Um poema orquestrado pela epiderme. Uma elegia moderna. Sal na saliva. Sol na retina. Teatralidade-vida. Agreste, escrito por Newton Moreno, é o mundo. Dialoga com Guimarães Rosa [Grande Sertão: Veredas], Graciliano Ramos [Vidas Secas] e João Cabral de Melo Neto [Morte e Vida Severina e Cão sem plumas]. Dialoga, também, com o dia-a-dia dos centros urbanos. Mas é preciso dizer que o atravessamento é feito pela via da originalidade, pela construção autônoma de forte pulsão poética. O espetáculo tem poesia na palavra, no movimento, na luz, na música, nas interpretações dos atores e no silêncio. É um trabalho que arrebata. Interpretado por João Carlos Andreazza e Paulo Marcelo e com direção de Marcio Aurélio o espetáculo nos diz que agreste é a existência, o sal de estar em si sendo outro. O trabalho está contextualizado num ambiente de seca, mas é de todas as securas, de todas as arrogâncias, de todas as intolerâncias e todo o cinismo de nossa sinistra civilização que ele fala. É neste ambiente de seca [criado pelo cenário e pela iluminação] que aparece a metáfora do esvaziamento da cor. É universal na sua regionalidade [Tostoi]. Agreste é uma bofetada nos amorfos de sentido, nos atrofiados e nos que insistem em erigir um mundo de atrofias e preconceitos. Sobretudo quando os atores saem da narração, do apresentar a fábula, do prólogo inicial para a ação dramática propriamente dita. É aí que a teatralidade aparece por inteira com seu tempo e ritmo próprios. Heidegger disse que o homem mora na linguagem. Agreste é pura linguagem. Partitura poética urdida pela arte teatral. Espetáculo que alegra a minha arte de ser espectador.  Se em Anatomia Frozen [texto da dramaturga inglesa Bryony Lavery], outro trabalho da Cia. Razões Inversas, o diretor Marcio Aurélio comete alguns equívocos, sobretudo na preparação dos atores, em Agreste ele formulou a medida certa de todas as dramaturgias [ator, público, texto, cenário e ambiente] exigidas e criadas por Eugenio Barba.  Então, fiquem de olho, se Agreste passar pela sua cidade, molhem-se no fogo e encontre a suas próprias moradas.  E se tiverem coragem: queimem suas casas e criem residência no silêncio das cinzas. É com o silêncio que Agreste agride. Ao sair do espetáculo fiquei relembrando a leitura do livro Queimar a casa, do Eugenio Barba, que tem como proposição primeira um espetáculo-incinerado/teatro-incendiado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: