Entrevista com o ator, diretor e dramaturgo Marcello Airoldi

O ator, diretor e dramaturgo Marcello Airoldi apresentou dois monólogos e ministrou oficina em Florianópolis.

O público de Florianópolis teve a oportunidade de assistir a dois espetáculos do grupo Teatro de Perto comandado pelo ator, dramaturgo e diretor Marcello Airoldi. O evento ocorreu no Teatro Álvaro de Carvalho, que teve todos os assentos ocupados. Foram apresentados dois monólogos: Café com torradas (texto de Gero Camilo) e Um segundo e meio (texto do próprio Airoldi). Mas não foi apenas isto, pois o ator deu uma oficina para 30 pessoas no dia 10, domingo, na sede da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes, que trouxe o ator e seu teatro intimista para a Capital. Toda a programação foi gratuita, pois tanto a Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes quanto a catarinense Priscila Prade, que fez a produção local do evento, afirmaram se tratar de um presente para a cidade que fez aniversário recentemente. O setor cultural agradece.  Agora no blog de teatro da revista OSÍRIS  republicamos a entrevista feita exclusivamente para o DC Cultura – Diário Catarinense 09/04/2011.  Boa leitura!

Marcello, você virá à Florianópolis apresentar os espetáculos Café com torradas (concebido em 2006) e Um segundo e meio (2008).  O primeiro fala sobre a dificuldade das relações contemporâneas, o segundo nos traz a história de um homem que viaja três mil quilômetros para assassinar outro homem. Na verdade o que está em questão, em ambos os trabalhos, é o homem e sua existência, sua essência. Além, é claro, da pesquisa do ator e seu ofício. Pode falar um pouco sobre esses trabalhos?

Marcelo Airoldi – Antonio Januzelli, diretor do espetáculo Um segundo e meio, meu professor na Escola de Arte Dramática (EAD/USP), me fez uma pergunta no início de nosso processo de ensaios: “Qual a distância entre o ator e o homem?” Esse questionamento tem a ver com o principio do Teatro de Perto, vasculhar o que há de mais íntimo no homem, relembrar o que se perdeu na mecanicidade de um cotidiano mal administrado, percorrer interiores distantes da existência. A ideia é a de um teatro de olhos nos olhos, não só entre ator e plateia, mas de provocar que ambos olhem para os próprios olhos. Os dois textos, pela limpeza cênica e temas abordados, nos aproximam desse universo.

A concepção do Teatro de Perto é a do espetáculo experimental e intimista. Vivemos numa época em que a megalomania tomou conta de nosso mundo. Como o Teatro de Perto chega a essa estética? Seria essa opção uma vontade de se distanciar da estética explorada pela televisão?

Marcelo Airoldi – Nossa matéria prima é o ator. O essencial pra nós é sua presença e verbo. Essa tem sido nossa estética. Em Um segundo e meio o protagonista caminha três mil quilômetros, mas o ator não dá um passo. As imagens e andanças estão nas imagens que o texto traz. Num dos debates com o público, uma garota disse ter visto o cenário descrito, no entanto, há apenas o atorem cena. Para a televisão quanto mais natural e linear melhor. Pelo menos na maioria das produções é o que vemos. Isso não nos interessa como base do trabalho. Nas peças há uma espécie de desconstrução do tempo, sua cronologia é rompida e isso se estabelece como linguagem, como estrutura dramatúrgica.

Você se formou na Escola de Arte Dramática (EAD/USP), e estudou teatro físico, mímica e interpretação no Birkbeck College – University of London e Cit Lit of London. Parece-nos que o Teatro de Perto caminha para o teatro físico.

 Marcelo Airoldi – Não tenho a mesma ideia sobre o corpo do ator que tinha quando fui estudarem Londres. Teatro é sempre físico, psicofísico. O ideal é um corpo que seja expressivo, preparado para informar, que possa atender às demandas de movimento e comunicação que a peça exigir. A voz também está ligada a isso, é presençaem cena. O ator tem de estar inflamado pra atuar, ampliado, assim, mesmo que ele não saia do lugar, sua presença já tem de ser interessante à plateia.

 O espetáculo A Casa do Gaspar, ou Kaspar Hauser, o órfão da Europa, de 2007, tem sua assinatura na direção. Gostaria que falasse mais sobre estas múltiplas funções: professor, ator, diretor, dramaturgo e o trabalho na televisão.

 Marcelo Airoldi – Pra mim, é muito rico transitar entre essas atividades e cada uma delas atua de um jeito diferenteem mim. Assim aumentam as possibilidades de aprendizado e realização. Pra mim, o teatro parece um universo de fractais infinitos, que nunca se encerram, e nunca se repetem. São imagens, impulsos, sentimentos, pensamentos, filosofias que podem ser exploradas como poucas outras áreas da expressão humana. Quanto mais amplo o leque de atividades, melhor.

 Na circulação que o Teatro de Perto tem feito pelo país, além das apresentações de dois monólogos, você tem ministrado uma oficina. A quem é dirigida a oficina e o que ela apresenta aos participantes?

Marcelo Airoldi – Em cada região que aportamos, a oficina atendeu um público diferente. No Piauí, alunos bem iniciantes no teatro; no Acre, iniciados, alguns até com grupo de teatro constituído; Espírito Santo teve a maior mistura, atores e não atores; finalmente, na Universidade de Maringá (UEM), a maioria eram atores e tinham até professores de teatro no meio. Disse isso tudo pra apontar que o conteúdo da oficina, apesar da diferença de público, variava muito pouco. O resultado é que mudava a partir do envolvimento e experiência do frequentador. Antonio Januzelli e eu trabalhamos sempre motivações e impulsos para o trabalho do ator, o contato físico e a presença cênica.

Como tem sido a experiência de circular com esse tipo de trabalho, já que há uma tendência a relacionar sua atuação à televisão? 

Marcelo Airoldi – Muita gente vai aos espetáculos porque acha que vai encontrar “o cara daquela novela”, mas logo de cara percebe que o trabalho é outro. Isso é muito interessante, porque a relação entre mim e o público fica mais rica após as apresentações.

E sua experiência no grupo Ventoforte? Parece ser outra característica sua a de experimentar e trabalhar com estéticas distintas?

Marcelo Airoldi – O Ventoforte é um grupo ímpar. O trabalho artístico é inigualável. O Ilo Krugli é um furacão que aos 80 ainda cria mais de uma peça por ano. Além disso, é um exemplo de resistência e luta, de defesa de princípios. Depois do Ventoforte, minha visão sobre fazer teatro mudou muito. O impossível é ingrediente diário num processo de criação, e o que poderia ser precário, pode se transformar no diferencial artístico de um trabalho.

Você é um pesquisador, um homem essencialmente do teatro. Das inúmeras teorias existentes, qual você acha que tem maior proximidade com o seu trabalho?

Marcelo Airoldi – Não sou exatamente um estudante das teorias sobre o teatro. A escola e os processos de ensaio acabam nos aproximando dos materiais e técnicas que muitos deles desenvolveram. Alguns gênios. Essas referências já estão embutidas. Não penso numa técnica x ou jeito y de fazer teatro. O dia a dia dos ensaios é que mostra o caminho, prefiro assim. É sempre lidar com o agora, estar acordado, mas nem sempre de acordo. Opa, isso parece um pensamento de Brecht! (brincadeira).

Existe algum fato ou algo que tenha determinado a sua opção pelo teatro, em que momento da sua vida isso acontece? 

Marcelo Airoldi – Acho que tem a ver com minha inquietação. Prefiro o teatro que pergunta, não aquele que procura explicar verdades. Na pergunta está parte da resposta que move a outra pergunta. E esse é o jogo com a plateia que prefiro. Não sei em que momento isso aconteceu na minha vida, mas deve ter sido naquela fase quando a criança rebate a resposta da mãe com outra pergunta. O principio é este.

Há a possibilidade de uma parceria entre você e o escritor catarinense Péricles Prade. Ele, que foi advogado da família Herzog, escreverá o texto O caso Herzog e você atuará e montará? É isso?

Marcelo Airoldi – Isso ainda é uma ideia embrionária. Admiro e respeito muito o Péricles e quando ele comentou sobre a possibilidade de escrever a respeito, me interessei muito. Acredito que se isso for adiante teremos um trabalho muito instigante e provocador nas mãos.

Quais espetáculos a que você assistiu marcaram profundamente sua vida? Pode falar um pouco da sua arte de ser espectador?

Marcelo Airoldi – Vários foram fundamentais pra minha formação (inacabada) como público: A nova velha história, de Antunes Filho, que era sobre o conto de chapeuzinho vermelho, contado sem palavra inteligível, me arrebatou na década de 1990; Vi um espetáculo, em 1995, em Londres, Kiosk Man, que tinha um elenco russo, francês e inglês. Cada ator falava em seu idioma natal, e a história se contava com uma força impressionante. Ainda hoje as imagens dessa peça são muito fortes pra mim; há vários espetáculos que sempre serão referência pra mim, alguns do Ventoforte, da Cia. São Jorge de Variedades, entre outros. Sobre ser espectador, acho muito interessante esse debate sobre formação de público, que normalmente se refere a grupos que não têm condições de pagar por um ingresso no teatro (daí a importância de programas de acesso a espetáculos etc.). No entanto, sempre cabe uma conversa sobre pessoas mais abastadas que não vão ao teatro ou que assistem apenas a um tipo de espetáculo; ou ainda, vale discutir, se perguntar , sobre como se dá hoje em dia a relação entre plateia e ator? Se ela se desenvolve de fato e quais os interesses do público ou das companhias quando resolvem ir/montar uma peça.

 

 FOTO DE PRISCILA PRADE

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