Espetáculo Uma informação sobre a banalidade do amor, de Antonio Abujamra, aborda a relação de Heidegger e Arendt

UMA INFORMAÇÃO SOBRE A BANALIDADE DO AMOR, uma  fábula política

POR CLÁUDIA DRUCKER, correspondente da Revista Osíris em SP

O envolvimento amoroso dos filósofos Martin Heidegger e Hannah Arendt chega ao teatro, com a peça Uma informação sobre a banalidade do amor, uma adaptação de Antônio Abujamra da peça de Mario Diament “A Report on the Banality of Love”. A moral da história, ao que tudo indica, é a fala final da Arendt cênica: “o amor não tem moral”.

A história de amor entre Heidegger e Arendt apresenta diversos elementos quase irresistíveis para um escritor, a começar pelo calibre intelectual dos envolvidos. Pois Heidegger é considerado por muitos o maior pensador do século XX. O reconhecimento veio mais tarde para Arendt, mas hoje se considera sua filosofia política uma releitura única da pólis grega, e pioneiros seus estudos sobre totalitarismo. São também raras as histórias de amor impossível entre filósofos. Pois desde Abelardo e Heloísa não ouvimos a história de um professor que se apaixona por uma aluna e tem de desistir dela: Abelardo pelo compromisso com a Igreja católica, e Heidegger por ser casado e pai de dois filhos.

Há, no entanto, um ingrediente extra nada desprezível na história deste amor proibido: a ascensão do nazismo, a destruição em massa dos judeus e a derrota arrasadora da Alemanha. Heidegger foi reitor da Universidade de Friburgo pelos dez primeiros meses do regime. Se há na nossa época um evento considerado mau no mais alto grau, de modo virtualmente unânime, é o nazismo, e a filosofia não poderia legitimá-lo. Mais ainda: se há alguém para quem o caso Heidegger deveria ser perturbador no mais alto grau, esta pessoa é Hannah Arendt, a judia.

A peça consiste em cinco cenas de cinco encontros entre os dois únicos personagens. A primeira cena se passa quando ele era seu professor na Universidade de Marburgo, em 1925, e o último quando Arendt volta à Alemanha em 1950, depois da derrota. Os cenários são simples: uma escrivaninha, representando a sala do professor Heidegger, uma cama, representando os hotéis em que o casal se encontrava, e um banco de praça, para os encontros públicos. Os demais elementos cênicos são os chamados “testemunhos”: vídeos projetados numa tela ao fundo do palco, de personagens fictícios. Não se trata de testemunhos reais, já que não são de pessoas que conviveram com os protagonistas. Na montagem, é o recurso encontrado para dar tom adequado para lidar com dois fatos aparentemente inconciliáveis da grandeza de Heidegger e de seu nazismo temporário. Especialistas e não-especialistas fictícios dão vida a discursos que já se encontram na literatura: desde que a adesão ao nazismo corrompeu até o fundo o pensamento de Heidegger até o cuidado de resguardar o pensamento do Heidegger das atitudes do homem Heidegger. Há aqueles para quem Heidegger foi o típico antissemita que abre exceções para judeus amigos ou excepcionalmente talentosos, e aqueles para quem não ter levado a sério o componente antissemita do nazismo foi só mais um aspecto da sua cegueira política geral. Heidegger seria culpado de ter cedido à demagogia, mas não à ideologia. Mas em que esta discussão serve ao propósito de contar a história de Arendt e Heidegger?

As cenas até seguem uma cronologia confiável. A correspondência entre Heidegger e Arendt foi publicada no Brasil pela editora Relume Dumará em 2001, traduzida por Marco Antônio Casa Nova. É a fonte principal sobre esta relação. Arendt teve o tirocínio de abandonar a Alemanha já em 1933, o que muito provavelmente salvou a sua vida. Ela e Heidegger tiveram um último encontro em 1930 e só se reencontraram depois da guerra, em 1950. Começou aí uma segunda fase da relação, que durou até a morte dela, em 1975 e não é explorada pelo autor da peça. Questionamentos podem ser feitos a respeito dos diálogos escritos a partir do que a correspondência permite entrever destes encontros.

Entre contar uma história de amor ou contar uma fábula política, o autor opta, claramente, pela segunda. Para isto, tem de mostrar um Heidegger preocupado com a desintegração social da Alemanha, um simpatizante do partido nacional-socialista antes de 1933 e de ele mesmo o saber (uma posição que também se encontra na literatura, representada, por exemplo, por Emmanuel Faye). A marca distintiva deste texto é a politização da relação entre Heidegger e Arendt. Os diálogos cênicos entre os dois sobre o nazismo estão adiantados uns bons oito anos. Heidegger, de acordo com todos os relatos disponíveis, era uma pessoa apolítica nos anos 1920, embora na peça tente ser o mentor político dela, que recusa este papel, sem, contudo recusar o envolvimento erótico.

Por que, contudo, falar em uma banalidade do amor? O título da peça ecoa o subtítulo do livro mais polêmico que Arendt escreveu: Eichmann in Jerusalém: A Report on the Banality of Evil (publicado no Brasil como Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal). O livro narra o julgamento em Israel, de Adolf Eichmann, o único sobrevivente da conferência de Wannsee, onde o extermínio do povo judaico inteiro foi decidido. A parte polêmica despertou em vista da ênfase dada por Arendt ao colaboracionismo das autoridades judaicas com a burocracia nazi, instrumental para o extermínio que viria em seguida. Parece que, ainda hoje, Arendt não foi totalmente perdoada por estas páginas. Mas o conceito de banalidade do mal é filosoficamente o mais interessante do livro. Arendt sugere que a maioria das pessoas comete o mal por simples conformismo diante do status quo e por se negar à atividade sempre inconformista e perturbadora do pensamento. Eichmann é retratado, sobretudo como um arrivista. Ele alegou inocência por estar apenas cumprindo ordens e seria o caso extremo da falta de pensamento (que o teria levado a questionar ordens monstruosas). Daí a sua “banalidade”: ele não demonstra hostilidade aberta frente aos judeus ou a qualquer um, mas tampouco admite culpa ou responsabilidade. O Heidegger e a Arendt de Diament são banais, só que no sentido corrente do termo. As falas do Heidegger cênico pouco têm a ver com o que o Heidegger histórico escreveu. Inicialmente, Heidegger é retratado como um homem entusiasmado com o reerguimento da Alemanha e preocupado em devolver a “dignidade” ao povo alemão. No primeiro encontro dos dois, na sala dele na universidade, Heidegger mostra um quadro de Hieronimus Bosch à jovem Hannah para enfatizar os tempos perigosamente irracionais que vivemos e a necessidade de dar esperança ao povo alemão. Um diálogo como este só pode ter sido escrito por alguém que nunca leu Heidegger, tanto no que toca ao seu gosto estético (mais para a Grécia antiga, a Capela Sistina e Van Gogh do que para Bosch) quanto no que toca no uso de palavras como “esperança” e “dignidade”. A adesão ao nazismo, tal como explicada no discurso de posse no reitorado de 1933 é um chamado não à paz – muito ao contrário, é um chamado a uma revolução trifacetada: em cada um de nós, na universidade e na Alemanha. Em vez de estabilidade e segurança, Heidegger alega a necessidade de encararmos a “tempestade” e a “necessidade”: a vida, no que ele tem de desafiador aos nossos saberes e poderes. O saber estará à altura da vida precisamente quando não se cristalizar em uma ciência autocomplacente e incapaz de operar a sua própria transformação. Não que o discurso de posse no reitorado justifique a adesão de Heidegger: talvez torne até mais incompreensível que ele tenha se deixado seduzir por uma versão pessoal e romantizada do nazismo real. Mas Heidegger jamais negou ter sido este tipo de nazista, nem há o menor indício de que Arendt tenha se valido desta alegação para desejar retomar o contato com ele depois do fim da guerra. No fim, depois da derrota alemã, Heidegger é retratado como um sujeito dependente da confiança e da admiração de Arendt, mas pusilânime. Arendt, por sua vez, é mostrada como uma jovem que descobre sua sexualidade e liberdade. Heidegger se declara a ela nos termos de Sto. Agostinho: amo, volo ut sis (“amo: quero que sejas”). A Arendt de Diament interpreta esta convocação como “faze o que quiseres”. É uma jovem cujo despertar sexual representou um adormecimento da razão. A intérprete enfatiza o lado rebelde e politicamente engajado da personagem, que a tornaria mais simpática. Mas o texto insiste em desmenti-la. Depois cada insurreição diante de Heidegger, ela cede diante dos seus apelos para que não o abandone. O amor entre Heidegger e Arendt foi uma erupção dos afetos eróticos que as circunstâncias históricas tornaram particularmente questionável. No fim, a história de amor entre Arendt e Heidegger é só um cenário para a discussão do engajamento dele, e esta obliteração do romance propriamente dito nem é sentida como uma perda literária. As atuações são adequadas ao texto. Abujamra transmite todas as nuances do Heidegger que corresponde ao texto: do entusiasmo à depressão, sem jamais cair no exagero. Tatiana de Marca pinta uma Arendt um pouco mais vulcânica e emancipada do que o próprio texto sugere (para não dizer nada sobre a Arendt que transparece da correspondência pessoal). A impressão mais forte deixada pelo texto é a tentativa de mostrar os grandes homens e mulheres como “pessoas iguais a todo mundo”. E são mesmo. O que não significa que sejam banais, porque as pessoas comuns não são banais – ou pelo menos não se esperaria que um poeta olhasse para o amor com tanto tédio e desencanto.

 

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Uma resposta para “Espetáculo Uma informação sobre a banalidade do amor, de Antonio Abujamra, aborda a relação de Heidegger e Arendt

  • Afonso

    Adoraria ver essa peça aqui em Florianópolis, ainda mais depois da ótima análise de Cláudia Drucker publicada na Osíris.

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