Espetáculo Beatriz marca a estreia de Ana Paula Beling como diretora

Margarida Baird brilha, mais uma vez, em Beatriz. Espetáculo que marca a estreia de Ana Paula Beling como diretora

POR MARCO VASQUES

Num camarim, uma atriz se prepara. Ela vai entrar em cena para sair de cena. Suas perdas estão expostas. Memórias híbridas. O filho que se esvai. As experiências afetivas vividas e inventadas. A vida dedicada à arte. O imenso silêncio do palco que espera para o último encontro, para a última luta. A efemeridade mordendo a pele. O mundo é esse eco louco e vazio de devires. Ela é sempre a mesma, mas outras no mesmo corpo. Num camarim, uma atriz se desespera; num camarim, todas as nervuras, todos os silêncios, medos, obsessões, solidões, prazeres e enfrentamentos. Uma atriz que rememora suas glórias, façanhas, alegrias e dores. Uma atriz que vai do escárnio ao lirismo, do trágico ao cômico. Esses são os confrontos-fronteiras de Beatriz, monólogo dirigido pela estudante Ana Paula Beling, que esteve em cartaz na semana passada, no Espaço Cênico da UDESC. O trabalho é o resultado de uma disciplina de direção lecionada por Vera Collaço.

A personagem de Beatriz é vivida pela experiente e sedutora atriz Margarida Baird, que tem flor e pássaro no nome. B(a)ird iluminou a plateia-palco, já que tudo é metalinguagem no espetáculo. O público é o palco adentrado no camarim, isto é, na intimidade da atriz e da arte teatral. Adentrado e acomodado no coração de sua cena. Beatriz é elegíaco e solar. É Eros e Tanatos. Sísifo e Prometeu. Apolo e sua lira, Orfeu e seu canto.

Artaud disse que “teatro é ato único”, e Margarida asseverou esta máxima em uma atuação capaz de tatuar lágrimas no rosto da plateia. A combinação da juventude de Ana Paula Beling e a experiência generosa da atriz resultaram num trabalho sensível, elegante e comovente. 

A dramaturgia do texto, toda construída a partir das letras do Chico Buarque, foi muito bem realizada por Mário César. Quando se parte de poemas, contos, romances e letras para a composição de uma dramaturgia, o que temos visto, na grande maioria é uma mutilação da obra escolhida. Mário César consegue compor a dramaturgia teatral deixando viva a obra do cantor, e isso não é pouco. Ele fez um recorte inteligente e preciso do imenso universo de canções feitas pelo gênio da música que também é dramaturgo e romancista. 

O espaço cênico em que a atriz se movimenta, o camarim e a disposição do público precisam ser repensados, pois fazem com que os espectadores percam a vitalidade de muitas cenas. Os espelhos, que deveriam possibilitar olhar a atuação por vários ângulos, simbolizando a multiplicidade de mulheres que a atriz encarna, não cumprem sua função, pois vemos apenas os espectadores refletidos e não a atriz. E o que era para funcionar como metalinguagem dos devires acaba atrapalhando a composição cênica. O triângulo demarcado pelos músicos e o retângulo que abriga a partitura corpórea da atriz criam dificuldades de fruição das cenas, esvaziando o impacto de momentos importantes do trabalho.

A iluminação também peca pelo excesso, pois objetiva marcar as mudanças de estado emocional da atriz, o que é absolutamente desnecessário e redundante. A concepção musical, embora muito bem executada, exagera na percussão e por muitos momentos interfere diretamente na fala/canto de Margarida B(a)ird, tornando impossível a audição/fruição dos sons proferidos pela atriz. A trilha sonora é executada ao vivo e os músicos são tecnicamente perfeitos. Contudo, há atravessamentos e confrontos entre o som e o silêncio da dramaturgia de texto.

Em síntese, para usar uma expressão de Eugenio Barba, as dramaturgias (luz, música, silêncio, texto) não se harmonizaram. Apesar disso, todos os problemas apontados aqui são perfeitamente admissíveis, pois esta é a primeira direção de Ana Paula Beling, que merece registro pelos acertos na dramaturgia, no trabalho do ator, na direção segura e, sobretudo, pela coragem de enfrentar a poesia.

Igualmente digno de nota é o desprendimento e a generosidade de Margarida Baird, porque apostou e mergulhou num projeto de pesquisa de um grupo que está dando seus primeiros passos na arte cênica. E Chico Buarque, cujas canções já haviam inspirado o excelente espetáculo Amor Barato, da Cia. DiDois, de Joinville, recebe mais uma boa montagem com Beatriz.

Uma nova força vem surgindo no nosso teatro. Trata-se de uma nova geração de atores e diretores que, aos poucos, vão mostrando suas digitais poéticas na arte que foi chamada, por Santo Agostinho, de “miserável loucura”.

Ana Paula Beling, posso assegurar, terá papel de destaque nesta geração. Depois de uma atuação memorável [bom lembrar que estamos falando de uma estudante de artes cênicas] em Zylda Anunciou, É Apoteose!, ela reaparece como diretora da peça Beatriz. A jovem parece ter entendido Peter Brook que, no livro A porta aberta, nos diz: “teatro é vida”.

Beatriz é um espetáculo feito por quem ama o teatro e persegue a poesia da cena. E, num camarim-casa, Beatriz, de 6 anos, é assassinada. E, num camarim-livro, Beatriz leva Dante aos céus até ser a própria luz. Margarida Baird é Beatriz: a atriz que ilumina. A atriz que  faz do palco a morada de sua linguagem.  

 

 

 

 

 

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5 respostas para “Espetáculo Beatriz marca a estreia de Ana Paula Beling como diretora

  • Margarida Baird

    Gratíssima pelas belas palavras e pela sensibilidade em transmiti-las! É maravilhoso quando se é compreendido!
    Um beijo

  • Caroline Liza

    Olá Marcos,

    quero sua autorização para postar o texto de “Beatriz” no blog da Cia Didois.
    seja bem vindo à CENA joinvilense.

    Beijos,

    Carol.

  • Ana Paula Beling

    Obrigada! Mais uma vez. Não me canso de agradecer.
    Estou muito feliz e honrada com suas palavras. São de grande importância, pra mim, estes apontamentos. Obrigada pela troca e pela generosidade.

    Beijos!

  • Marco Vasques

    Carol, está autorizado, pode colocar o texto lá. Tá?
    Ana, a troca é sempre boa. A crítica é necessária e nunca é definitiva. É apenas uma voz. Fico feliz também que minha voz está ecoando. Quem é inteligente diáloga. Nos estamos dialogando. Beijo também. Para vocês duas!!!

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