Jodorowsky e Maria Alice Vergueiro: o encontro explosivo

 

 

Em As três velhas, Jodorowsky e Maria Alice Vergueiro

dão verdadeira bofetada no gosto da plateia

 

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

O teatro é pânico? Sim. Para o poeta, romancista, dramaturgo e diretor de cinema chileno, Alejandro Jodorowsky, sim. Seu primeiro filme, Fando y Lis já anuncia sua estética-híbrida que atinge seu ponto máximo em A toupeira e Santa Sangre. Sim.  Pânico, ou a pândega jodorowskyana, está na peça As três velhas que, recentemente, passou por Florianópolis. A direção fica ao encargo de uma das maiores atrizes do teatro brasileiro: Maria Alice Vergueiro, que assume também a personagem da velha matriarca condenada a matar seus netos, fruto do incesto de Conde de Felícia e suas filhas-marquesas de plástico. Jodorowsky e Maria Alice são explosivos acesos com água.

Ele é um dos fundadores do Teatro do Pânico, que surge nos anos de 1960 com Arrabal e Topor. No Teatro do Pânico não há estética definida, porque se opta pelo uso de todas as estéticas de modo antropofágico. Sabe-se apenas que em sua base estão o terror, o humor e simultaneidade.

Ela é a fundadora do Teatro Ornitorrinco, que surge nos anos 1970 com Cacá Rosset e Luiz Galícia. A magistral atuação do grupo, para quem nunca teve a oportunidade de ver algum trabalho deles, pode ser acompanhada no luxuoso e magnífico livro Teatro Ornitorrinco, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Quem lê, entenderá porque Zé Celso, J. Guinsburg, Jefferson Del Rios, entre outros, reverenciam a diva-divina Maria Alice Vergueiro.

Ela apareceu no palco do Teatro Álvaro de Carvalho com As três velhas, escrita por Jodorowsky, em 2003. O espetáculo é uma dança decadente que ocorre entre duas marquesas falidas e uma empregada. O que temos é o pânico admoestando cada cena. Porém, é o pânico aliado ao humor, ao escracho, fazendo com que algumas situações quebrem de tal forma a espinha da moral e dos bons costumes, que quatro ou cinco espectadores mais frágeis levantaram-se, retiraram-se, com a alma indignada, provavelmente pensando que aquilo jamais seria teatro. Acostumados que estão às levezas e às delicadezas falsas da vida.

As Três Velhas joga luz sobre alguns tabus como o incesto, o aborto, o estupro. O teatro de Jodorowsky, sob a ótica de Maria Alice Vergueiro e sua equipe, não se desvia do foco, trata esses temas com a clareza e a força que eles têm, mas também não se faz de vítima, de coitadinho, não dramatiza a situação.

Na verdade, e aí que entra o pânico gerado no espectador, há o riso emoldurando essas três velhices. O riso pode ser visto também como “o cômico absoluto”, termo cunhado por Baudelaire, para definir o riso causado pelo grotesco. A partir de conceitos da antiguidade, o poeta definiu o riso como algo “essencialmente contraditório, quer dizer, é ao mesmo tempo sinal de uma grandeza infinita e de uma miséria infinita, miséria infinita em relação ao Ser Absoluto do qual ele possui a concepção, grandeza infinita em relação aos animais. É o choque perpétuo desses dois infinitos que libera o riso”.

O cômico absoluto, então, é a grande representação da humanidade decaída, da humanidade que se aproxima da natura. Eis o que as três velhas são: mulheres-animais, mulheres-porcas, pensando aqui na Obscena Senhora D, de Hilda Hilst, mulheres entregues à solidão, aos escuros do desejo, mulheres-dentaturas pranteando falsos sorrisos, passados sorrisos perdidos não se sabe onde, e que tem no humor uma forma de caminho ao inconsciente.

A força dessa peça se concentra na absoluta falta de gratuidade de cada cena. Esse mal que acarreta muitas montagens: a pretensão sem chão, a soberba sem fundamento, a gratuidade em nome da poesia. Não são poucos os diretores e atores que se assoberbam com montagens pífias, sem nervura, força e sonhos estéticos claros, definidos.

Em As três velhas, as atuações são impecáveis, a iluminação poderosa compõem um quadro sinistro dos limites e deslimites humanos. Essa beira do abismo, algo típico na obra de Jodorowsky, se reflete nas atuações dessas velhas decaídas. A montagem brasileira ganha uma dimensão ainda mais excitante porque as marquesas de Felícia são interpretadas por homens.  

Luciano Chirolli e Pascoal da Conceição nos remetem ao mundo do travestimento, da androginia, da velhice em que o gênero se perdeu. O que temos são espantalhos assustados, confusos. A outra velha, no caso, a empregada com um grande segredo, é interpretada por Maria Alice Vergueiro. Ela surge como incômodo poético, pois a atriz é cadeirante. A dificuldade de locomoção da pessoa física é assumida no palco como uma espécie de poder, de controle que essa mulher-roda tem sobre as outras. Marco Luz entra em cena para carnavalizar o erotismo, o grotesco, o inferno e o poder em uma cena típica das imagens-texto criadas pelo gênio chileno. Não há desequilíbrios no espetáculo. O cenário é luxuoso, mas árido. O palco é coberto por tapetes que representam as pomposidades das nobrezas, sempre tão pútridas. O palco vazio recebe os atores, estes anjos-luciferinos, que apresentam um trabalho completo, no dizer de um Eugenio Barba.  

 O próprio Jodorowsky faz associação de sua peça com As criadas do Genet.  Impossível mesmo é não pensarem Bernarda Alba, a matriarca que aprisiona as cinco filhas. Claro que o que muda aí é a estética e a linguagem, pois Lorca tem um tom quase clássico de escrita e seu simbolismo é de outra ordem. Já Jodorowsky trabalha com o fragmento da linguagem até o germe do símbolo. A matriarca centenária de Jodorowisky, encarnada por Maria Alice, está em Medeia, Climnestra, Bernada Alba e nos nossos lares. O segredo da velha centenária é que ela é a mãe das velhas octogenárias. Ela, que tantos abortos fez nas duas, matava seus próprios netos, porque eram frutos de incesto. E ela própria oferece sua carne às filhas para que a morte delas seja adiada. 

Mas esta fábula serve mesmo é para dar murro na cara dos espectadores, que, não raro, dormem nos travesseiros da hipocrisia. As três velhas nos oferece uma sucessão de dores, aflições e incômodos. Cenas como a trepada do Duque de Felícia com a filha interpretada por Chirolli, a do aborto feito com agulha de tricô, o desespero sensual das duas irmãs na carnação uma da outra e a oferenda que a velha, interpretada por Maria Alice Vergueiro, faz, dos seios-corpo, às filhas, são para ficar tinindo memória-pele do espectador. Assim gostamos do teatro, quando o teatro gosta da gente!

 

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3 respostas para “Jodorowsky e Maria Alice Vergueiro: o encontro explosivo

  • Pedro

    Jodorowsky na minha ausência, eis um luto que terei que elaborar cuidadosamente.
    No mais, parabéns pela revista.

  • Luciano Chirolli

    Caríssimos Marcos e Ruben
    Por algum motivo e tenho certeza muito especial: a.nossa reestreia em São Paulo ontem vim beber de vossa sensibilidade e talento
    para traduzir em palavras invocações do nosso artesanato diário para a confecção desta obra.
    É sempre muito gratificante
    rele-los,nos alimenta por mais um longo tempo.
    Muito obrigado.
    Luciano Chirolli

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