Duas estreias movimentaram os palcos catarinenses no último final de semana

Rigobello – o inspetor geral e Tudo, quase, nada

são as duas novas estreias do teatro catarinense

 

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

 

            No ensaio Teses sobre o teatro, presente no livro Pequeno manual de inestética, Alain Badiou diz que assim como qualquer arte, o teatro pensa. Além disso, o teatro é um “arranjo de componentes materiais e ideais extremamente díspares, cuja única existência é a representação. Esses componentes (um texto, um lugar, corpos, vozes, trajes, luzes, um público…) estão unidos em um acontecimento, a representação, cuja repetição noite após noite absolutamente não impede que ele seja todas as vezes um acontecimento, isto é, singular.” Para Badiou, esse é um acontecimento do pensamento, ou seja, o arranjo entre todos esses elementos produz ideias, nominadas por ele como ideias-teatro, algo que não pode ser produzido em nenhum outro lugar e por nenhum outro meio. O que de alguma forma segue na direção da fala de Artaud, quando nos diz que “teatro é ato único”, ou seja, mecânica no teatro-ator é asfixia da iluminação, da carnação.    

            Duas estreias teatrais aconteceram, no último final de semana, em Santa Catarina. EmFlorianópolis, no Teatro Álvaro de Carvalho, a Cia. Pé de Vento Teatro apresentou seu novo espetáculo Tudo, quase, nada. Trata-se de um musical cômico, dirigido por Pepe Nuñez, que, através de canções e de bom humor, conta a história de três jovens que ganham seu sustento nas ruas da cidade. Na peça, três jovens – um engraxate, um músico e um vendedor de bombons -, fugindo de suas duras realidades, refugiam-se numa caçamba dos correios. Desde então, unem suas forças e viajam num pacote postal sem endereço conhecido, ganhando a vida passando o chapéu depois de oferecerem ao público suas canções e poesias e, mais que nada, seus sonhos e suas próprias estórias de vida.

         Em Jaraguá do Sul, no Grande Teatro do Centro Cultural de Jaraguá do Sul, o Grupo de Experimentação Cênica da Scar leva aos palcos Rigobello – o inspetor geral, de Nikolai Gogol. Peça que conta a história de um jovem malandro e aventureiro, confundido pelo prefeito corrupto de uma pequena cidade do interior com um inspetor- geral enviado pelo governo federal para fiscalizar os serviços públicos prestados à população. A partir disso, há um desfile de situações que demonstram a corrupção, a falta de dignidade e a miséria humana.

             Tudo, quase, nada, definido pelos realizadores como musical cômico, é uma peça que delineia uma linguagem muito pessoal, ou seja, as ideias-teatro estão presentes no palco, mas em muitos momentos ficam truncadas, perdidas pela falta de um fio condutor, de um equilíbrio entre a passagem de um quadro a outro. É evidente a falta de uma dramaturgia para costurar as cenas. Então, temos quadros de pura teatralidade e outros que são organismos com movimento, mas sem função cênica.

            O problema da peça é a sua opção por alguns excessos explicativos, algumas redundâncias desnecessárias, que carregam a cena para o panfletário. Um exemplo é quando os atores, de costas para o público, ficam falando a respeito de Deus. A representação é inútil, porque tudo já havia sido dito no quadro anterior, com a manipulação dos bonecos. Outro ponto que poderia ser pensado seria traçar de forma mais efetiva e mais plena o personagem do músico [Lucas Baumer], pois ele pouco joga com a plateia. Já o engraxate [Murilo Cesca] e o vendedor [Douglas Faria] são muito bem caracterizados. No entanto, o personagem do músico atua mais como um elemento externo – como se fosse uma trilha sonora ao vivo – que necessariamente um personagem perdido nas artérias urbanas. Além disso, seria preciso cuidar com a “oswaldomontenegrização” que ocorre no final da peça, levando o musical para uma pieguice perigosa e deixando no público uma sensação esquisita de “vergonha alheia”. O diretor da Cia. Pé de Vento Teatro tem como opção estética transformar seu teatro em ato político, porém também diversão. Em seu espetáculo De malas prontas, que ficou mais de dez anos em cartaz, ele alcançou o equilíbrio perfeito entre o ato estético, o ato político e a diversão, o que não acontece com Tudo, quase, nada.   

            Uma das teses de Badiou diz que nosso tempo exige uma invenção: transmitir em ideias-teatro tudo o que a ciência popular é capaz. “Queremos um teatro da capacidade, não da incapacidade”, anuncia o pensador francês.

          A escolha poética e política da direção de Pepe Nuñez é justamente por essa capacidade, por expor no palco mais que três vidas perdidas dentro de uma caçamba dos correios, mas fazer com que essas vidas reverberem uma alegria profunda por sobre a tristeza de suas condições. Trata-se de um espetáculo que traz à cena o invisível que permeia nossa urbanidade. Precisa apenas dar condições melhores de visibilidade para esse invisível e traçar, via concisão, corte, condensação de algumas cenas, o caminho para que a ideia-teatro possa acontecer de forma mais plena.

            Há um ato brechetano que perpassa a formação poética e estética de Pepe. Entretanto, há cenas no trabalho que necessitam de mais labor e retenção. O momento em que o engraxate vem ao público, escolhe um espectador e começa a engraxar seus próprios sapatos poderia ser de pura teatralidade e se perde pelo esgarçamento e pela insistência em prolongar a cena. Após, o trabalho pede um trocado e, quando vai voltar ao palco, pergunta a todos se possuem moedas. Pede que joguem seus moedas no palco do Teatro Álvaro de Carvalho. Essa cena poderia se transformar numa das mais bonitas já vistas naquele teatro, se orquestrada para que tudo acontecesse em único momento. Contudo, ela vai se espraiando e perdendo a força, para nossas tristezas.

            Já na peça Rigobello – o inspetor geral, dirigida por Gilmar Moretti, os problemas são de outra ordem. São um pouco mais complexos, pois envolvem a forma como se escolheu ler o clássico de Gogol.

          Retomando as teses de Badiou, a vida é essencialmente duas coisas: “desejo que circula entre os sexos e as figuras, exaltadas ou mortíferas, do poder político e social”. A partir disso, surgem a comédia e a tragédia, sendo que essa última é a representação do Grande Poder e dos impasses do desejo, e a primeira seria a representação dos pequenos poderes, dos papéis do poder e da circulação fálica do desejo. A comédia pensaria a experiência familiar do desejo. Badiou parece reelaborar as sendas abertas pelo pensador grego Aristóteles, que inaugura a crítica teatral com A Poética.

            Assim, para o filósofo francês “todo o gênero que se pretende intermediário trata a família como se ela fosse um Estado (Strindberg, Ibsen, Pirandello), ou o Estado como se fosse uma família ou um casal (Claudel). O teatro pensa, no final das contas, no espaço aberto entre a vida e a morte, o entrelaçamento do desejo e da política. Pensa-se sob forma de acontecimento, ou seja, de intriga e de catástrofe”. A peça de Gogol traz à baila justamente isso: o jogo entre vida e morte, entre desejo e política.    

        A opção da montagem do GpoEx foi de tratar o texto de Gogol como uma comédia televisiva (em certos momentos lembra Chaves e os Trapalhões), histriônica, ficando apenas na superfície dos absurdos que as situações trazem. Optou-se por não olhar a miséria humana presente na peça, por passar por cima da tragédia de cada personagem, mostrando apenas as suas cascas. O texto de Gogol é feito completamente da ironia e acidez. Sua visão de mundo não é muito esperançosa. Não há amenidades em sua crítica social. Almas mortas, O capote, O nariz e O diário de um louco são exemplos claros da desesperança e do humor negro do autor russo.  O Inspetor Geral vem para mostrar a pequenez humana, o apego ao dinheiro, esse eterno locupletar-se, imiscuir-se que há entre desejo e política. Não é uma peça “leve”; não é entretenimento. É reflexão, soco e alteração da ordem emocional do espectador. É a ideia-teatro levada a extremos, a limites que a montagem do GpoEx não conseguiu ir.

            A peça é bem produzida. Há um uso bem interessante de recursos tecnológicos. Os atores são eficientes na caracterização e no trabalho de corpo, mas carecem de silêncio. Carecem do silêncio da ironia. A direção escolheu fazer com que eles gritem e se movimentem o tempo todo, arrancando algumas gargalhadas da plateia, quando poderia fazer com que as cenas tirassem dela apenas o riso nervoso, o riso incômodo de quem se olha no espelho e percebe que, naquela situação, faria igual e optaria também pelo ridículo, pelo suborno, pela manutenção, mesmo que falha, do status quo.

            Faz-se necessário uma mudança de tom e a percepção de que o texto de Gogol não é para rir desbragadamente, não é uma comédia pastelão, mas é algo ácido, perigoso. Se o grupo dirigir o olhar para essa direção é bem possível que o espetáculo saia dos limites seguros onde se instalou e corra riscos mais inerentes ao teatro. Um bom exemplo desse tipo de risco é a montagem da Cia. Traço, para a peça As três Irmãs, de Tchekhov. A força tragicômica dos personagens toma conta de todo o espetáculo, abarca a plateia, que vai do riso ao choro em segundos e sai do teatro em estado catatônico e de assombro.

            A peça Rigobello – o inspetor geral tem todos esses elementos à mão, tem momentos em que o equilíbrio acontece e o texto de Gogol ganha a força necessária, como na cena em que o Rigobello seduz mãe e filha, ou na hora em que elas se preparam para o casamento e entram em cena com véus exagerados. Mas logo tudo se perde no grito, na histeria, na busca por um exagero desnecessário.

            Essa montagem pode ir mais fundo, pode atingir o público em outra escala, além do humor fácil. Basta acreditar, como diz Badiou, que “o público vem ao teatro para se comover, comover-se com as ideias-teatro. Não sai culto, mas aturdido, cansado (pensar cansa), devaneado. Não encontrou, nem mesmo na maior gargalhada, com o que se satisfazer. Encontrou ideias de cuja existência não desconfiava”. Rigobello – o inspetor geral precisa ser pensado novamente; precisa buscar a crueldade, para nos apropriarmos de Artaud, sob a pena de ficar na superfície total. Já Tudo, quase, nada, que tem excelentes interpretações, iluminação e musicalidade, precisa encontrar seu equilíbrio na passagem de uma cena à outra. Há uma grita geral de que os críticos não se importam com as comédias. Não é verdade. Talvez os comediantes não se importem com os críticos

 

 

FOTO 1: Do espetáculo TUDO, QUASE, NADA.

FOTO 2: Do espetáculo RIGOBELLO – O INSPETOR GERAL

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3 respostas para “Duas estreias movimentaram os palcos catarinenses no último final de semana

  • pepe Núñez

    obrigado Marcos, estou ciente dos problemas que tem o espectaculo, tambem dos acertos e possivildades.Seguimos trabalhando…o desafio ainda estãem pé,
    Abraços
    Pepe Núñez

  • Marco Vasques

    Pepe, tens todo nosso respeito, nos dignamos escrever porque seu trabalho tem muita força, precisa, é claro, ser reordenado, pelo menos no nosso humílimo entendimento. Penso que este papel que estamos exercendo é mais um espaço de troca, de olhar e perceber (no sentido grego) que de impor ideias. Não temos soluções, temos vazios, incertezas, dúvidas, invasões e perceptos. E isso oferecemos aos grupos e aos espetáculos que comentamos aqui.

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