Espetáculo Entardecer faz parte do repertório da Dionisos Teatro desde 2006

 

O espetáculo ENTARDECER está no repertório da Dionisos Teatro desde 2006

 

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

O teatro no século XX foi carregado de diversos predicados por seus maiores fazedores: Teatro da Crueldade (Artaud), Teatro do Pânico (Arrabal), Teatro do Absurdo (Ionesco), Teatro Pobre (Grotowsky), Teatro do Oprimido (Boal). São atributos, que na maior parte das vezes, também traduzem o que foi o século XX, o que foi a década “zero-zero” do século XXI e o que, provavelmente, continuará sendo nos próximos anos. Dado a estagnação atual, parece que estamos vivendo um eterno presente, um contínuo patinhar-se sobre o vazio. A arte, em sua inquietação constante, tenta sempre achar saídas, cantos, planos B, ou tenta gritar mais alto, mais forte, rebentar mesmo os pulmões para acabar com a letargia.

A contundência agressiva de palavras como crueldade, absurdo, pânico, foi a forma que o teatro encontrou para dar os seus gritos: “grito, logo sou” como diria Michel Seuphor. No entanto, apesar da premência desses adjetivos, ainda sobra espaço para um tipo de teatro que não se amolda tão fácil a essas palavras poderosas, que ainda tenta estabelecer-se no palco por outra via, por outras palavras poderosas: a delicadeza e a sutileza. Trata-se de um teatro que desvela um olhar esperançado sobre a vida.

Podemos pensar a peça Entardecer, da companhia Dionisos, como um exemplo dessa possibilidade, cada vez mais rara, de se ver nos palcos: olhar um tema tenso, denso como a velhice sob um ponto de vista quase, paradoxalmente, do amanhecer. Sem dúvida, essa opção é arriscada, pois em nome da delicadeza e da sutileza, muitas vezes opta-se pela superfície ou por uma covardia em abordar determinados assuntos, pois pode ferir susceptibilidades da plateia, dos atores, dos pais ou cônjuges dos atores, de quem quer que seja movido por susceptibilidades.

Não é o caso da montagem da Dionisos, que adentra o tema da velhice empunhando delicadezas e sutilezas ao mesmo tempo em que nos desvela esse estágio complexo, maravilhoso, solitário, muitas vezes aterrador da vida. No livro Memória e Sociedade a historiadora Ecléia Bosi recupera parte da história e formação de São Paulo entrevistando e colhendo depoimentos de velhos que participaram e vivenciaram a história social da cidade.

A companhia Dionisos usa o mesmo método para compor a partitura cênica de Entardecer. O espaço cênico, a cidade [Joinville, mas pode ser Berlin, Praga, Jacu, Guaíuba ou Imbituba] e os personagens são tramados e urdidos pela memória. São galvanizados no fio do impalpável. Sobrevivem da imatéria. É da relação do homem e seu meio social que vive a poesia de Entardecer.

Nascemos para o esquecimento? Esquecer é um lembrar de nadezas? O que lembramos nos pertence? Que parte nossa se esvai com o esquecimento? Nossas desmemórias também dizem algo? São verídicas as nossas lembranças? Lembrar é reescrever? Escrever-se? Arrumar um lugar para o não-esquecimento? Buscar um sentido para o escorrer do tempo, para a finitude? O espetáculo Entardecer, dirigido por Silvestre Ferreira, nos coloca diante de infidas questões.

Entardecer é, antes de tudo, uma partitura poética tecida pelo verbo em estado selvagem. O verbo-vulcão não violado pelas impurezas de uma sociedade deletéria ao sentido. É do abandono e da fragilidade que se alimentam os atores deste trabalho sutil e delicado; contudo também se alimentam da força, da resistência e da insistência que Nino [Eduardo Campos], Maria [Clarice Siewert] e Uber [Andréia Malena] buscam na memória-motor, memória-medular.

Eles têm a tarefa de desfazer lacunas pela cura da carne [também memória]. Temos compactuado da tese de Octavio Paz que diz ser a poesia o núcleo de toda arte. Entardecer é um fragmento poético sobre o envelhecimento, sobre a busca de um sentido para estar no mundo e sobre o nosso complexo convívio social.

O grupo trabalha a partir do conceito de mímesis [Platão/Aristóteles] e consegue atravessar o espelho sem grandes dificuldades. Duchamp disse que quando sabemos na verdade não sabemos, cremos. Os atores da companhia Dionisos estão imersos no universo que recriam. Sabem e acreditam no que estão fazendo. Portanto eles crêem.

As histórias narradas em cena foram absorvidas e pesquisadas do “mundo real”. É no fragmento [Maria], na invenção do real [Nino] ou na crença do real [Uber] que navega este Entardecer. Há, evidentemente, alguns aspectos técnicos que o grupo precisa levar em consideração: ritmo-tempo do espetáculo, dicção dos atores e a busca de um elemento que dê mais organicidade ao mundo fragmentado das três vidas levadas ao palco.

Contudo o espetáculo nos adentra pela teatralidade alcançada por cada personagem, pela sutileza, pela arquitetura poética, pela beleza plástica, pelo excelente trabalho dos atores e pela direção de Silvestre Ferreira, que chega à poesia por vias cênicas. Lembra-nos das palavras de Walter Benjamin: “o narrador conta o que ele extrai da experiência – sua própria ou aquela contada por outros. E, de volta, ele a torna experiência daqueles que ouvem a sua história.” Portanto somos todos um pouco Nina, um pouco Maria, um pouco Uber ou todos ao mesmo tempo desenhados em nossos abandonos.

Dessa forma, o caminho tomado por Entardecer é assumir a força de um teatro profundamente humano, não no registro do choque, da ruptura, da agressividade, mas buscando a força poética e delicada que ainda reside na humanidade. Entardecer nos aconchega, é como um por-do-sol, logo virá a noite, os escuros, mas naquele momento, o que temos são os alaranjados cobrindo o horizonte, o que temos é a poesia se manifestando, dona que é, de todas as nossas emoções.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: