A Traço Cia. de Teatro festeja seus 10 anos de existência neste mês de agosto

AS TRÊS IRMÃS um antídoto à arte anestésica

volta aos palcos catarinenses

 

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

 

 “Imaginem que estou começando a esquecer o seu rosto. E será assim que seremos esquecidos, nós também, um dia.”

                                                                        (Macha in Três Irmãs via Tchekhov)

Em comemoração aos dez anos de atividades teatrais, a Traço Cia. de Teatro montou, durante todo o mês de agosto, uma extensa programação que evidencia sua linha de pesquisa e o surgimento de uma nova força no teatro realizado em nosso estado. Criada em 2001, atrupe já levou aos palcos e às ruas os trabalhos Último DiaHoje (2001), Fulaninha e Dona Coisa (2002), O Chamado da Nota (2003), Conversa no Chafariz (2004), Mulher de Corpo e Cheiro (2005) e As Três Irmãs (2005), que é uma das mais festejadas e premiadas peças dos últimos anos e que será objeto de nossa análise.

A palhaçaria, o clown, a investigação sobre o teatro de rua e o teatro cômico popular são aspectos nitidamente encontrados em todos os espetáculos da companhia. O grupo apresenta nítida preocupação social e a sua atuação teatral se apresenta como ato político. A Mostra Traço de Bolso – O Riso Corre Solto, criada em 2009, leva riso, alegria e teatro para os bairros da cidade de Florianópolis. Eles se propõem a uma espécie de teatro total, sem paredes que separem público e plateia, ainda que, em alguns casos, os espaços cênicos sejam claramente demarcados.

As Três Irmãs, que estará em cartaz no dia 10 de agosto em Florianópolis, é, seguramente, um dos mais bem sucedidos trabalhos do teatro catarinense dos últimos anos, isto porque a arte teatral é reverberação. Uma peça de teatro é poesia que atravessa o outro. O poeta, o pintor, o escultor e o músico possuem meios de gravar e perpetuar uma parte de suas poéticas. O ator carrega no corpo a morte de seus inúmeros poemas, seus múltiplos silêncios. O milagre da perturbação carnal e a alegria de podermos burlar a falência da percepção podem acontecer em qualquer arte, mas é no teatro que a carne é a própria arte. E As Três Irmãs ocupa o espectador de poesia em sua teatralidade total.

O ator: uma vela: em iluminar se consome. Aristóteles já nos alerta que “a pintura, a escultura, a música e a dança também são formas poéticas, tal como a tragédia e a épica” é Octávio Paz quem acentua a afirmação no seu livro O arco e a lira. Só concebo a arte que tenha como bússola a poesia: as harmonias infernais das poéticas. A matéria essencial do teatro é o ator e seu corpo: portanto: carnação do ato poético. O corpo é a escritura do ator. E, segundo Artaud, toda palavra que esse corpo-ator escreve é oferecida para ser ouvida pelo público, o que a torna imediatamente uma palavra soprada, uma palavra feita de lâmina e susto. Quando um ator morre, leva consigo uma multidão. Quando um ator nasce: catedrais e teatros modem os próprios corações. Ao sairmos do espetáculo As três irmãs, nossos corações carregavam orquestras inteiras e um coro de mil vozes tocando Bach. Uma das maiores alegrias é sair do teatro em estado de abismo absoluto. Ver essas meninas no palco é como dançar dentro do barril de Diógenes e reencontrar-se com o teatro. Tchekhov aprovaria cada linha adaptada, cada acréscimo feito.

O espetáculo concebido por Marianne Consentino prioriza o conflito das três irmãs a partir do ser e seu estar-aí. É o tempo que escoa para o irrefutável. É a saudade de um lugar: um não-lugar. São as frustrações diárias e a busca cinzenta de olhar a luz. É a sensação de apenas estar-aí. Todos temas buscados da peça de Tchekhov. Portanto, a adaptação é fiel ao conflito principal da peça original que consiste na investigação e na afirmação da indagação: este é o nosso mundo, esta é a nossa vida, estas são nossas crueldades, e agora? Que senda urdir?

As Três Irmãs consiste num hino fúnebre à imobilidade da vida (paradoxalmente, tão semovente e escorregadia). É uma investigação profunda da existência e seu sentido, seu não-sentido. É a busca de uma luz e um caminho para a orientação dos sentidos dentro do tempo. As atrizes Paula Bittencourt (Irina), Débora Matos (Olga) e Greice Miotello (Maria: Macha no texto original) se utilizam da linguagem do clown para nos iluminar com o humor negro e ácido que nos leva ao riso-desespero.

E o que é feito da outra multidão de personagens de Tchekhov? Eles estão nas falas das três irmãs e sua carnação é transferida aos espectadores. Todos somos personagens do espetáculo. Todos somos esse ir e vir em direção ao nada. Somos essa espécie de sonâmbulos morando na fantasia de uma justificativa para o estar-aí. Todos somos esses rostos tão reais e tão anônimos, que aguardam solenes o esquecimento.

As Três Irmãs é um espetáculo de fronteira e fratura que une beleza, sutileza, coerência estética e apuro técnico poucos vistos nas montagens que pululam pelos nossos palcos. Tem uma concepção musical irretocável. Se alguns personagens de Tchekhov, no texto original, tocam piano, acordeão e violoncelo, na ressignificada montagem de Marianne Consentino a flauta, o violão e as vozes dos músicos Cassiano Verdana, Mariella Murgia e Gabriel Junqueira reafirmam a intensidade poética e a coerência interna do espetáculo.

As Três Irmãs, da Traço Cia de Teatro, é como aqueles poemas que ficam, para sempre, aderidos ao corpo de quem leu. Se a arte teatral não tem o livro, a tela ou outro suporte para assegurar sua permanência e apreciação, tem o corpo alheio para garantir a sua incrustação. Tem a memória do corpo como partitura. O espetáculo nos faz encontrar resposta à pergunta da poeta Hilda Hilst: “Enquanto tu caminhas pelas ruas, te pergunto: e a entranha?”. O grupo entrou na entranha do autor de Ivanov, A gaivota, Tio Vânia, O cerejal e Três irmãs. Buscaram a entranha para imantação de outras entranhas. “Me joga, me joga fora!”: pássaro e fogo a interpretação dessas meninas. Pássaro e fogo a queimar e cantar nas entranhas. Flecha migratória: reverberação. Antídoto à arte anestésica que pulula sobre nossos palcos.

Agamben, ao traçar a “ideia da felicidade”, no livro Ideia da Prosa, nos diz algo que se presentifica a cada vez que as três irmãs se corporificam no palco: “em todas as vidas existe qualquer coisa de não vivido, do mesmo modo que em toda a palavra há qualquer coisa que fica por exprimir.” Talvez por isso essa peça esteja há tanto tempo em cartaz, porque sempre deixa no espectador um resíduo, um resto de pergunta que o faz voltar a ver o espetáculo, que o faz levar outros espectadores para que possam compartir esse momento de entrega, de força criativa, em que a arte do teatro plenifica-se, já não havendo mais limite entre ficção e realidade, ator e público. Parabéns pelos traços indeléveis que construíram nessa década. Parabéns!

 PROGRAME-SE

 03 de agosto de 2011 – 16h

O quê: Abraço Grátis

Local: Rua Felipe Schmidt – Centro

Palhaços oferecem abraços aos transeuntes com o objetivo de transformar e humanizar espaços públicos afetivamente. Ação inspirada no movimento social FREE HUGS (2004) do australiano Juann Mann.

 

10 de agosto de 2011 – 20h

O quê: Espetáculo teatral As Três Irmãs

Local: Espaço I – Centro de Artes/UDESC – Itacorubi

As irmãs Olga, Maria e Irina desejam retornar à cidade natal, expondo conflitos que se estabelecem entre o plano da vida material – o cotidiano da vida humana – e o plano espiritual – a eternidade. Direção de Marianne Consentino e texto adaptado do homônimo de Anton Tchekhov – 80 min.

 

17 de agosto de 2011 – manhã e tarde

O quê: (A)Gentes do Riso

Locais: UPAS e Policlínicas – Centro, Continente, Norte e Sul

Os Palhaços Doutores utilizam a arte da palhaçaria a serviço da alegria e bem estar, intervindo na rotina das unidades de saúde e humanizando os ambientes por meio do riso e da poesia.

 

24 de agosto de 2011 – 20h

O quê: Noite de Palhaços

Local: Teatro da UFSC – Trindade

Um show cômico formado por números de palhaços. A Traço Cia. de Teatro e convidados animarão a platéia em 60 minutos de festa e riso em uma apresentação inédita, especialmente elaborada para o evento.

31 de agosto de 2011 – 16h

O quê: Espetáculo teatral Fulaninha e Dona Coisa

Local: Rua Felipe Shmidt – Centro

As peripécias da relação entre uma empregada ingênua, Fulaninha, e sua patroa intolerante, Dona Coisa. Direção de Marianne Consentino e texto adaptado do homônimo de Noemi Marinho – 55 min.

Este texto foi publicado no PLURAL caderno de cultura do Jornal NOTÍCIAS DO DIA em 06/08/2011

Anúncios

2 respostas para “A Traço Cia. de Teatro festeja seus 10 anos de existência neste mês de agosto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: