Grupo Galpão abre o Festival Isnard Azevedo

Till, A Saga de um Herói Torto e

 os limites da escuridão

                                

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

            O filósofo Cioran propõe que sejamos nossos próprios limites. Que flertemos com nossos abismos para viver a melancolia, viver os vãos, os vazios e as incertezas. Algo como procurar a lucidez quando da diluição interior.

            O espetáculo Till, a Saga de um Herói Torto, do Grupo Galpão, que abriu o Festival Isnard Azevedo na noite de sábado, parecia nos conduzir ao enfrentamento de nossas falências, hipocrisias e desesperos. O prólogo já nos alertava que teríamos um híbrido de Livro de Jó temperado ao sabor de um Macunaíma, de um Pedro Malasarte ou mesmo de um João Grilo. A dramaturgia escrita pelo premiado Luís Alberto de Abreu buscou na cultura popular alemã medieval, Till, um herdeiro da commedia dell’arte, e narra a disputa entre deus e o diabo pela alma do pobre e desmiolado Till, ou seja, a tão conhecida história da disputa e do uso arbitrário do poder.

            Contudo, quando a saga de Till começa, o público é surpreendido com a escuridão. E creiam, não foi a escuridão diabólica se sobrepondo à divindade para raptar o corpo e alma de Till. Ou mesmo a escuridão divina sufocando o fogo secular de belzebu. Foi uma real e incômoda queda de energia ocasionada por um acidente ocorrido à frente do Teatro Pedro Ivo. Os deuses não estavam mesmo para o trabalho. Mas os atores estavam. E propuseram que o espetáculo continuasse, pois como diria um dos personagens de Shakespeare: “All’s well that ends well”.

            Não podemos afirmar que a noite terminou bem, pois os atores haviam se preparado para apresentar o espetáculo sob outras condições. Portanto, trabalharam em ambiente desvaforável não condizente com as opções estéticas feitas pelo grupo e pelo diretor Júlio Marciel. O que nos leva, também, a não entrar na análise do trabalho dos atores, da iluminação, do cenário, do figurino, da dramaturgia e da partitura cênica.  

            Mesmo sem um gerador capaz de oferecer sequer uma luz geral, o Grupo Galpão, após breve intervalo, retorna à cena iluminado por um canhão e algumas tochas. O público, ainda que impossibilitado de fruir o espetáculo por completo, se entregou ao jogo cênico, ao jogo de abismo proposto pelo elenco, que reiniciou a saga de Till e a peregrinação da tríade de cegos (Alceu, Borromeu e Doroteu), responsáveis por inúmeros momentos de clara poesia no palco.

            Apesar de estarmos diante de um grupo que tem mais de 25 anos de existência, que é festejado pela crítica e que já nos deu espetáculos brilhantes, como Romeu e Julieta, dirigido por Gabriel Villela, não tivemos uma noite de “gala”. Till, a Saga de um Herói Torto que está contextualizada na chamada “idade das trevas” terminou, literalmete, nas trevas, e o Grupo Galpão foi a(s)cendido de aplausos. O grupo chegou ao mais fundo dos seus limites quando apresentou seu trabalho sob condições precárias, e, verdade seja dita, inaceitáveis.

            Circula pela internet, um texto-manifesto, intitulado Dogma da Merda, de Filipe Barenco, que indicamos ao “povo de teatro”. Nele, constam algumas perguntas que temos feito há anos: por que trabalhamos sob quaisquer circunstâncias? Por que submetemos nossos trabalhos a espaços e condições não ideais a eles? Por que dizemos sim, quando deveríamos dizer não? Por quê?!!

Obs.: as fotos foram feitas antes do acidente, durante o prólogo.

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