Um Genet superficial e afônico no palco do Teatro Pedro Ivo

Genet, os anjos devem morrer e a superficialidade no teatro

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

            Um dos espetáculos que “Os Ciclomáticos Cia de Teatro” trouxe para o Festival Isnard Azevedo foi Genet, os anjos devem morrer. A peça é uma sucessão interminável de equívocos, sejam artísticos, técnicos ou estruturais. Liderando os equívocos da montagem de Ribamar Ribeiro está a leitura rasa e irritante que fizeram de Jean Genet. Pobre dele, que não merecia ser colocado como narrador de uma montagem tão anti-Genet, tão distanciada daquilo que o movimentou como homem e artista.

            Genet é um dos maiores artistas do século XX, dono de uma obra polêmica, que misturou biografia e ficção. Foi ele quem jogou luz sobre a miséria humana, ou seja, seus personagens desgarrados, moral e fisicamente, são envoltos em densa poesia. O olhar de Genet sobre os tabus, os baixos, o nojo é sempre um olhar que ministrava doses altas de violência e de ternura. “A beleza é o mal e o mal é Genet”, disse Sartre. Esse trânsito entre o mal e a beleza, em nenhum momento, foi capturado pela peça, que mistura obras ficcionais e teatrais, além de fatos de sua vida, numa salada confusa, caricata, dando destaque ao aspecto homossexual dos personagens, como se eles fossem só isso... O problema não está apenas no enfoque dado à homossexualidade, mas na maneira desleixada pela qual ela é tratada, ao reduzi-la a tal ponto que alguns quadros do Zorra Total parecem genialidades absolutas perto do que foi para o palco do Teatro Pedro Ivo. Nada lembra a densidade e a poesia presentes em O Balcão, As Criadas, Diário de um Ladrão e Nossa Senhora das Flores.

            Trazer Genet para o palco requer coragem. Coragem que a trupe carioca deve ter perdido em algum ponto, porque o pudor das cenas gritadas era evidente, os palavrões se tornaram constrangedores, o pseudoerotismo das cenas passou para o público a incômoda sensação de vergonha alheia, aumentada pelas interpretações amadoras do elenco. O princípio que norteou essa montagem não foi o teatro do pânico de Jodoroswki, Torpor e Arrabal, não foi o teatro da crueldade de Artaud, muito menos o teatro intenso de Genet. O trabalho é fruto da pretensão e da vaidade de Ribamar Ribeiro e sua trupe, que agora andam por aí destruindo o Teatro com esse engodo que eles chamam de peça.

            Não bastasse o turbilhão de clichês, o grupo optou por cegar os espectadores com a projeção de luz, refletida em um sofá de metal, por ensurdecer o público com uma trilha sonora “estúpida e inválida” e sacramentar a morte do espectador com uma dramaturgia pobre, repetitiva e destituída de contato algum com a linguagem construída por Genet.

            O Teatro Pedro Ivo não está de bem com o Festival Isnard Azevedo. Na primeira noite, a falta de energia e a ausência de um gerador causaram alguns atropelos. Já na segunda, o público sofreu mais uma vez, mas o martírio foi provocado pela ausência absoluta da teatralidade. A noite foi lastimável. O espetáculo Genet, os anjos devem morrer é, literalmente, de morrer e de matar o espectador de desconforto. Rimbaud, Gregory Corso, Jean Genet são daquela estirpe de bandidos que se salvam na linguagem, tal qual queria Heidegger ao dizer que “a linguagem é a casa do homem.” O trabalho apresentado é afônico, sem linguajar para abrigar o espectador.

         Contudo, o dia não foi de todo perdido, pois no Teatro da Ubro, a Companhia de Teatro Autoral, que também veio do Rio de Janeiro, apresentou o espetáculo As Mulheres da Rua 23, um espetáculo de estética clara, definida e coerente com a proposta de divertir o público. Para os que torcem o nariz para o teatro feito com objetivo de divertir, tivemos o exemplo de que a salvação de um trabalho, em teatro, é a linguagem, como já afirmaram Duchamp e Flávio de Carvalho.

 

 

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