Sim, nós temos teatro, teatro para dar e vender

Sim, nós temos teatro

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA                                  

            A grande força de uma obra de arte é a sua capacidade de manter-se atual, ou seja, a obra consegue manter-se em dialogar com o público de qualquer tempo e de qualquer lugar. A atualidade contínua é o sonho de todo autor, de todo criador. Talvez tenha sido também o sonho do anônimo que escreveu A farsa do advogado Pathelin, em 1460. Pode-se dizer que ele conseguiu. Sua peça mantém-se cada vez mais atual e, como o próprio nome diz, trata-se da história de uma farsa montada pelo advogado Pathelin e sua esposa, para engambelar um comerciante avaro e, igualmente, trapaceiro. O texto apócrifo vem recebendo inúmeras montagens no Brasil e ontem foi a vez da Companhia de Teatro Sim… Por que não?!!!, de Florianópolis, apresentar a sua versão ao público do Festival Isnard Azevedo.

            Na verdade, todos os personagens são destituídos de caráter. A hipocrisia, a usura e     a trapaça atingem do camponês ao magistrado. O que equivale dizer que todo o sistema social está imerso na corrupção. Embora o trabalho esteja ambientado no final da Idade Média, estamos diante de todas as épocas, sobretudo da nossa. Com figurino, iluminação, cenário e atuações orgânicos o grupo consegue proporcionar ao público momentos de risos e reflexão acerca da máquina de malandragem que é nosso tempo.  

            A Companhia, uma das mais experientes do teatro catarinense, tem essa peça em seu repertório desde 1996 e a montagem obedece, como não poderia deixar de ser, aos princípios da farsa, isto é, uma peça feita para o riso, com seus personagens ridículos, caricatos, com um senso crítico profundo das relações humanas, além do humor físico e das situações que beiram ao absurdo. Os atores estão à vontade com os gestos e vozes exigidos nesse tipo de peça. Destaque-se aqui as atuações de Leon de Paula e Berna Sant’Anna que estavam em total sintonia com o tempo exigido às ações do espetáculo.

             O texto sofreu algumas atualizações sutis, tais como uma rápida ironia a respeito dos aposentados da assembleia legislativa e a presença do sotaque “manezinho”, que poderia ser explorado melhor já que o espetáculo foi apresentado na Lona Sul, no Campeche, e a plateia era quase toda composta por pessoas do bairro.  Apesar dos anos de estrada faltou à apresentação desta segunda-feira um equilíbrio no ritmo das cenas e um ajuste na agilidade das ações e falas tão necessárias à farsa.

            Mesmo assim A farsa do advogado Pathelin, ao lado do espetáculo Pequeno Inventário de Impropriedades, também de Santa Catarina, que esteve em cartaz nesta segunda-feira, no Teatro da Ubro, são os espetáculos que, até aqui, melhor trataram a cena e o trabalho do ator, que revelaram atores-pesquisadores, que têm clareza na direção e nas propostas estéticas. Não precisamos ir longe para buscar o teatro da teatralidade elaborada. Sim, nós temos teatro! Teatro para dar e vender!

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