Muito barulho por nada, quase nada

                                              Com muita pretensão na bagagem

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA       

            Pretensão: direito que se julga ter a alguma coisa, exigência, vaidade, orgulho, presunção. Na noite de terça-feira dois espetáculos vindos de São Paulo trouxeram na bagagem, além de cenários e figurinos, muita pretensão. “O primeiro dia depois de tudo” da Novíssima Companhia traz os atores Priscila Carvalho e Leonardo Ventura, dirigidos por Leo Lama, como dois anjos paralíticos discutindo uma relação.

            O texto, do próprio Léo Lama, é um fluxo contínuo de filosofia de botequim, com questões sobre o destino da arte, o vazio da vida contemporânea, a preponderância das aparências nas relações. O problema é a pretensão metafórica, alegórica da montagem. Os atores ficam a peça toda sentados nas suas cadeiras-de-roda, falando sem parar. Sugerindo-nos, mas apenas sugerindo, a proposta surrealista de Breton aplicada ao teatro. Como o texto não aprofunda as questões, não é poético e não revela surpreendente alguma, a falação toda fica enfadonha, repetitiva na sua forma estática.

            A direção de Leo Lama não potencializou a ação interna dos personagens. O ator de Peter Brook, Yoshi Oida nos fala da questão da ação em cena, para ele, quando há em cena um sujeito calmo ou entediante, a ação interna tem que “trabalhar fortemente com intensa concentração e energia”, pois isso dará apoio à situação parada, estática, impedindo que o público seja tomado pelo tédio. Dessa forma, para Oida, o interno e o externo têm que ser contraditórios. Foi esse equilíbrio que o pretensioso espetáculo de Leo Lama não conseguiu estabelecer: ficou na superfície tediosa, quando poderia ter adentrado caminhos mais intensos e poéticos. E para continuamos em Peter Brook, em seu livro A Porta Aberta, onde ele narra algumas de suas experiências com montagens e atores, nos diz que é preciso buscar a vida interna de um espetáculo. Em “O primeiro dia depois de tudo” fica evidente que temos uma direção equivocada, um texto piegas e ausência total de teatralidade, ainda que os atores sejam bons e capazes de tirar um e outro lampejo em suas atuações.

            A outra peça vinda de São Paulo foi “Sessenta minutos para o fim” da companhia Garagem 21, com autoria e direção de César Ribeiro, o espetáculo parte de um pressuposto equivocado: o de que o público é surdo, então as falas devem ser todas gritadas à exaustão e a música deve estar no volume máximo. A peça apresenta referências a Beckett, Arrabal, David Lynch, Nelson Rodrigues, uma salada intelectual que destrói a força do texto e das situações absurdas, que se fossem encenadas com rigor e calma resultariam numa experiência mais intensa, repercutiriam melhor as questões pretendidas pelo autor e diretor. No entanto, a pretensão cegou e ensurdeceu as boas ideias da peça.

            A indignação de alguns espectadores foi tanta que tivemos algumas vaias ao final do espetáculo. É inacreditável a quantidade de espetáculos de péssima qualidade nesta edição do Festival Isnard Azevedo. Como este é um espaço para análise do espetáculo não vamos nos aprofundar nesta discussão, mas cabe uma pergunta que todo mundo está se fazendo pelos corredores dos teatros: que tipo de curadoria sofreu este festival? Alguma coisa há de ser feita para, efetivamente, melhorar a qualidade dos trabalhos. Não precisamos ver essa miríade de espetáculos ruins pululando em nossos palcos.    

FOTO 1: do espetáculo Primeiro dia depois de tudo.

FOTO 2: do espetáculo Sessenta minutos para o fim

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12 respostas para “Muito barulho por nada, quase nada

  • Cesar Ribeiro

    Olá, Marco e Rubens. Tudo bem? Li várias críticas de vocês neste espaço antes de escrever um comentário. Pelos textos escritos, valoriza-se o teatro dito “simples”, sem querer “inventar a roda”, mais calmo e silencioso. A ideia de silêncio está em vários textos escritos aqui. Isso demonstra o tipo de teatro que vocês gostariam que fosse feito. Realmente, nossa proposta não tem nada a ver com o que vocês julgam que deve ser o “bom” teatro. No entanto, dizer que vocês deveriam escrever a crítica pensando numa análise que levasse em conta a proposta dos artistas e, dentro dela, pontuar criticamente, seria fazer a mesma coisa que vocês fizeram aqui ao dizer que a peça deveria ser dirigida da forma com que vocês imaginam – no caso, com “mais rigor e calma”. Então apenas me atenho a alguns pontos: 1) pretensão: a ideia não é inventar a roda ou fazer algo novo – mesmo porque isso é impossível –, mas simplesmente fazer o que cabe a qualquer artista, que é conceber uma arte pessoal, sabendo que ela atingirá algumas pessoas e não atingirá outras, pois dependerá sempre do “gosto” de cada um – “gosto” como princípios, referências etc. Por outro lado, usar o fácil termo “pretensão” pela união de ideias colocadas na peça é uma bobagem e, ao mesmo tempo, um contrassenso ao ver que neste espaço, a cada crítica, há citações a meia dúzia de intelectuais para fundamentar o texto. Somente nesta página foram citados Breton, Peter Brook e Yoshi Oida. Seria isso a mesma pretensão? 2) em relação às vaias, foram algumas vaias ao final da peça vindas da mesma e única pessoa: uma mulher que estava sentada numa das primeiras filas. O teatro estava lotado, em todas as apresentações, com a grande maioria gostando do que estava vendo, algumas não entendendo e outras não gostando. Utilizar vaias de uma única pessoa para sustentar suas opiniões não me parece a coisa mais honesta a ser feita. 3) De todas as críticas que li neste espaço, as únicas duas positivas são de uma peça de um grupo de Florianópolis e de outra de um grupo de Itajaí. Seria isso certo bairrismo? 4) De qualquer jeito, esses são apenas pontos de discordância em relação à crítica, da mesma forma que vocês tiveram em relação à peça. Gostaria de agradecer a presença de vocês na peça e a publicação do texto falando sobre ela. E também agradecer a ótima recepção do público de Florianópolis, que parece não estar em sintonia com seus críticos. Abraço. Cesar Ribeiro, diretor que acredita que o público é surdo

  • Marco Vasques

    Cesar, obrigado pelas suas colocações. Talvez você não faça mesmo o teatro que desejamos ver. Enfim, escrevemos para debater e achamos muito importante quando o diretor se posiciona. Queremos dizer que esse é o nosso olhar. E aquela a mulher que vaiou é a poeta Telma Scherer, que sabe de poesia e de invenção. Bem, outros espectadores, lá fora, estavam em desepero com a situação em que vocês nos colocaram. Não somos bairristas, muito pelo contrário. Se obsevar tem uma crítica em que falamos bem de outros espetáculos e outras que falamos muito mal das produções de nosso estado por ignorarem a sensíbilidade e a inteligência do público. Somos um povo muito cordial e educado, não esqueça disso quando fizer seus julgamentos. Não aprofundamos as discussões avaliando o que é proposto e o que vem à cena pelo simples fato de termos muito pouco espaço no jornal. Tentamos otimizar e orientar nossos leitores da melhor forma possível. Se tivéssemos mais espaços, seguramente, entraríamos em todos os detalhamentos técnicos de suas propostas. Bem, é isso. Forte abraço.

    • Cesar Ribeiro

      Legal, Marco. Mas em nenhum momento afirmei que o pessoal de Florianópolis não seja cordial ou seja sem educação, muito pelo contrário. Disse que fomos muito bem recebidos por todos. Da mesma forma, em nenhum momento achei a crítica deselegante, mas não concordo com a forma tendenciosa com que vocês escreveram o texto ao utilizar uma pessoa da plateia para fazer parecer que essa opinião tenha sido um consenso, quando na verdade a opinião de vocês dois é oposta à opinião da maioria do público que assistiu às apresentações. Fora isso, escrever aqui foi exatamente uma forma de dialogar com vocês, manter contato e expandir os horizontes, tanto os meus e do grupo quanto o de vocês dois como críticos. Não somos pretensiosos ou arrogantes e não consideramos que o que fazemos em teatro é o certo e o resto é equivocado, mas, da mesma forma, também não queremos ver críticos que falem apenas que isso está errado e que aquilo deveria ser o certo, ainda que haja problema de espaço. Abraço

  • Vasques

    Bem, quando a cordialidade: evidente que é uma metáfora. Esse é o nosso olhar. Muitos outros são possíveis. Entendemos sua proposta, apenas não concordamos com ela. Quanto a indignação do público, bem, quem saiu do teatro viu. Não pensamos que o aplauso signifique que o público pense diferente de nós. Não gostamos, mas aplaudimos.

    • Cesar Ribeiro

      Meu caro, da mesma forma que a crítica foi leviana, seus comentários em resposta vieram na mesma medida. Quando me referi a “opiniões” não quis dizer aplausos, mas conversas com dois diretores teatrais da cidade, um jornalista da área cultural, pessoas que participaram da organização e da equipe de apoio do festival, atores iniciantes que participaram de nossa oficina e outras pessoas que assistiram à peça. Realmente, é bom que vocês dois não tenham gostado, pois somos contrários ao estilo de teatro que vocês defendem. No entanto, ao se posicionarem como “faróis” culturais da cidade ao “otimizar e orientar nossos leitores”, imaginava que deveria haver um pouco mais de profundidade no texto. A crítica saiu depois da última apresentação, então não há orientação alguma aos leitores, talvez apenas a aqueles que assistiram à peça; da mesma forma, ela também não dialoga com os artistas das peças, pois, em vez de apontar erros, ostenta preconceitos e superficialidades. Talvez as duas únicas funções desse texto sejam dar um significado ao próprio trabalho de vocês e questionar a eficácia do festival, sendo este último talvez o único ponto construtivo. Ainda assim, faltam nos textos elementos para diálogo. Em todas as construções vocês buscam suporte de opiniões alheias: os intelectuais que vocês leram são usados para dar suporte às opiniões sobre as peças, o público é utilizado para dar apoio à visão de vocês, “quem saiu do teatro” é utilizado para referendar as suas posições. Quer dizer, como a base para a sustentação da própria opinião é frágil, utiliza-se o maior número de pseudoaliados para justificá-la. Mas ficam algumas perguntas: 1) Por que a utilização da palavra pretensão? No que as peças são pretensiosas? 2) Por que o texto do Leo Lama é “filosofia de botequim” e o que seria necessário para dar mais profundidade ao texto? 3) Por que a mesma peça apenas sugere Breton e o que seria necessário para alcançar em vez de sugerir? 4) O que vocês consideram “teatralidade” 5) Por que o silêncio é mais importante para a criação que o ruído? 6) O que vocês querem dizer com “rigor e calma” e por que acham que isso resultaria em uma montagem melhor? 7) O que vocês querem dizer com “rigor”? 8) Quais são as “questões pretendidas pelo autor”? 9) Por que as referências usadas viram uma “salada cultural que destrói a força do texto”? 10) Já que vocês disseram que entenderam a proposta mas não concordam com ela, qual é essa proposta e com o que nela vocês não concordam? Por último, 11) vocês não acham que discutir esses pontos na crítica seria mais pertinente e produtivo para um diálogo tanto de vocês com seu público quanto de vocês com os artistas e o próprio festival em vez de simplesmente ficar omitindo opiniões sem fundamentos que não sejam o gosto pessoal? Abraço

  • Vasques

    Caro, não estamos na academia e não estamos fazendo tese de doutorado sobre espetáculos. Passe bem e continue com o seu teatro, se acha que ele está no caminho certo. Reafirmamos, entendemos sua proposta, mas não dialogamos com ela. Passe bem.

    • Cesar Ribeiro

      Sim, sim. Compreendo. Pegam meia dúzia de intelectuais, sublinham 400 parágrafos-chave para citações rasas e não ainda sabem ligar Godzilla e Família Dino. Por isso a falta do que dizer. Arrogância sem substância. Pior espécie. Grande abraço

  • Vasques

    Bem, todos as perguntas que você faz são de fazer rir, porque as respostas estão ali. Dizer mais para clarificar o que pensamos de seu trabalho acho que não precisa. Tudo que tem que ser dito foi dito. O pior cego é o que não quer ver. Quando terminar o festival voltaremos a escrever sobre o assunto a você para ver se você entende. Não entendemos porque tanta indignação. Teatro que é bom nada, mas idignação muita! Tal qual a pretensão.

  • Marco Vasques

    Como disse o Manuel Bandeira: pobre do poeta que não duvida de sua arte. O mesmo vale para o teatro. Desde o começo deste debate deixamos claro que este é o nosso olhar e não significa um olhar definitivo. O que nós não vamos fazer é escrever algo a partir dos teus parâmetros. No mais é isso: fique com Veja, a melhor revista de crítica do Brasil e com a Bravo! Parabéns!

    • Marco Vasques

      MARCO E RUBENS
      Vamos devagar com o andor que o santo é de barro… Como prometemos, agora que o festival acabou, vamos ao que interessa. César Ribeiro nos faz uma série de perguntas e considerações. Vamos tentar responder de forma mais didática. E antes que a coisa caia na baixaria tentaremos estabelecer um diálogo com as ideias alheias (dele).

      CÉSAR RIBEIRO
      “Olá, Marco e Rubens. Tudo bem? Li várias críticas de vocês neste espaço antes de escrever um comentário. Pelos textos escritos, valoriza-se o teatro dito “simples”, sem querer “inventar a roda”, mais calmo e silencioso. A ideia de silêncio está em vários textos escritos aqui. Isso demonstra o tipo de teatro que vocês gostariam que fosse feito. Realmente, nossa proposta não tem nada a ver com o que vocês julgam que deve ser o “bom” teatro.

      MARCO E RUBENS
      Primeiro: não existe um teatro que a gente gostaria que fosse feito. Existe um teatro que nos seduz e o que não nos seduz. Insistimos na ideia do silêncio, porque, tanto as peças apresentadas no festival, quanto outras que anteriormente assistimos, quem optou pelo silêncio, pela sobriedade, por tons mais soturnos nos seduziu mais. Temos, sim, um teatro que defendemos e, em breve, serão publicados os nossos ensaios sobre a arte dócil e arte de impacto.

      CÉSAR RIBEIRO
      No entanto, dizer que vocês deveriam escrever a crítica pensando numa análise que levasse em conta a proposta dos artistas e, dentro dela, pontuar criticamente, seria fazer a mesma coisa que vocês fizeram aqui ao dizer que a peça deveria ser dirigida da forma com que vocês imaginam – no caso, com “mais rigor e calma”.

      MARCO E RUBENS
      O problema da sua montagem é que não conseguimos captar a sua proposta… pode até ser uma deficiência nossa, mas o que mais saltou aos olhos e aos ouvidos foi a sua escolha por uma estética do grito. Então vamos pensar dentro da sua proposta e pontuá-la criticamente com algumas interrogações: você realmente acredita que gritar para se fazer entender é bom? Abolir qualquer tom menor para passar a mensagem é esteticamente viável? Irritar o público quando poderia perturbá-lo com algo mais agudo do que o berro é a maneira mais efetiva de se conseguir o efeito desejado? Transitar entre dezenas de referências, usar a música (muito boa, por sinal) em volume máximo, usar mais uma vez e de novo o recurso da metalinguagem, tudo de forma monocórdica é a sua proposta estética? O rigor e a calma seriam, a nosso ver, instrumentos bem úteis na concepção dessa salada metalingüística que é a sua peça.

      CÉSAR RIBEIRO
      Então apenas me atenho a alguns pontos: 1) pretensão: a ideia não é inventar a roda ou fazer algo novo – mesmo porque isso é impossível –, mas simplesmente fazer o que cabe a qualquer artista, que é conceber uma arte pessoal, sabendo que ela atingirá algumas pessoas e não atingirá outras, pois dependerá sempre do “gosto” de cada um – “gosto” como princípios, referências etc. Por outro lado, usar o fácil termo “pretensão” pela união de ideias colocadas na peça é uma bobagem e, ao mesmo tempo, um contrassenso ao ver que neste espaço, a cada crítica, há citações a meia dúzia de intelectuais para fundamentar o texto. Somente nesta página foram citados Breton, Peter Brook e Yoshi Oida. Seria isso a mesma pretensão?

      MARCO E RUBENS
      A pretensão aqui veio mais do tom, (insistimos e insistiremos sempre nesse tema) do que das referências diretas e indiretas que você usa. A pretensão de achar que vai conquistar o público pelo grito, pelo volume alto, pelo jeito David Lynch de ser. Fico imaginando se não usássemos nenhuma referência na crítica, seríamos meros opinadores que não sabem do que estão falando. Como usamos algumas fundamentações teóricas, somos nós os pretensiosos.

      CÉSAR RIBEIRO
      2) em relação às vaias, foram algumas vaias ao final da peça vindas da mesma e única pessoa: uma mulher que estava sentada numa das primeiras filas. O teatro estava lotado, em todas as apresentações, com a grande maioria gostando do que estava vendo, algumas não entendendo e outras não gostando. Utilizar vaias de uma única pessoa para sustentar suas opiniões não me parece a coisa mais honesta a ser feita.

      MARCO E RUBENS
      A vaia da poeta pode não refletir o aplauso da plateia, mas é um sintoma de que o seu teatro não é unânime. Também não percebemos esse “amor” todo na saída do espetáculo. Enfim, cada um vê o que quer ver.

      CÉSAR RIBEIRO
      3) De todas as críticas que li neste espaço, as únicas duas positivas são de uma peça de um grupo de Florianópolis e de outra de um grupo de Itajaí. Seria isso certo bairrismo?

      MARCO E RUBENS
      Coincidiu nesse festival que as primeiras boas peças que assistimos foram catarinenses. Mas depois veio o Centro Teatral Etc e Tal, do Rio de Janeiro, A Cia. Dos Palhaços, de Curitiba. Anteriormente tecemos loas infindas à montagem de Maria Alice Vergueiro para “As três velhas” do Jodorowski. Definitivamente não somos pautados por fronteiras geográficas, mas por peças sedutoras e inteligentes.

      CÉSAR RIBEIRO
      4) De qualquer jeito, esses são apenas pontos de discordância em relação à crítica, da mesma forma que vocês tiveram em relação à peça. Gostaria de agradecer a presença de vocês na peça e a publicação do texto falando sobre ela. E também agradecer a ótima recepção do público de Florianópolis, que parece não estar em sintonia com seus críticos. Abraço. Cesar Ribeiro, diretor que acredita que o público é surdo

      MARCO E RUBENS
      Bom, se é essa a sua crença… se a surdez do público pode ser “curada” pelo berro, siga em frente.

      CÉSAR RIBEIRO
      Segunda bateria de respostas: Meu caro, da mesma forma que a crítica foi leviana, seus comentários em resposta vieram na mesma medida. Quando me referi a “opiniões” não quis dizer aplausos, mas conversas com dois diretores teatrais da cidade, um jornalista da área cultural, pessoas que participaram da organização e da equipe de apoio do festival, atores iniciantes que participaram de nossa oficina e outras pessoas que assistiram à peça. Realmente, é bom que vocês dois não tenham gostado, pois somos contrários ao estilo de teatro que vocês defendem.

      MARCO E RUBENS
      Insistimos, não existe um teatro que a gente defenda em detrimento de outro que atacamos. Existe o teatro que nos pega, nos convence e aquele que não nos diz nada. Isso ultrapassa gênero, proposta, escola. É algo como a “química” nas relações humanas, mas a química é sempre ativada pelo rigor técnico e poético.

      CÉSAR RIBEIRO

      No entanto, ao se posicionarem como “faróis” culturais da cidade ao “otimizar e orientar nossos leitores”, imaginava que deveria haver um pouco mais de profundidade no texto. A crítica saiu depois da última apresentação, então não há orientação alguma aos leitores, talvez apenas a aqueles que assistiram à peça; da mesma forma, ela também não dialoga com os artistas das peças, pois, em vez de apontar erros, ostenta preconceitos e superficialidades.

      MARCO E RUBENS
      Os erros da sua peça: o uso do grito como elemento para passar a mensagem. As inúmeras referências gratuitas. A ausência de uma dramaturgia contundente, que expusesse realmente o vazio, a incomunicabilidade, o absurdo das situações apresentadas. A opção pelo excesso, quando concisão e precisão resultariam numa perturbação maior para o público. O grito apenas constrangeu e irritou a plateia. A metalinguagem apenas disse que o teatro anda numa fase autofágica. A pretensão das referências apenas mostrou que você conhece cinema e teatro, mas não chegou a um nível capaz de provocar sensações, transformações, alterações da ordem no espectador. Pelo menos, nesses espectadores aqui.

      CÉSAR RIBEIRO
      Talvez as duas únicas funções desse texto sejam dar um significado ao próprio trabalho de vocês e questionar a eficácia do festival, sendo este último talvez o único ponto construtivo. Ainda assim, faltam nos textos elementos para diálogo. Em todas as construções vocês buscam suporte de opiniões alheias: os intelectuais que vocês leram são usados para dar suporte às opiniões sobre as peças, o público é utilizado para dar apoio à visão de vocês, “quem saiu do teatro” é utilizado para referendar as suas posições. Quer dizer, como a base para a sustentação da própria opinião é frágil, utiliza-se o maior número de pseudoaliados para justificá-la.

      PERGUNTAS DE CÉSAR RIBEIRO
      RESPOSTAS DE MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

      Por que a utilização da palavra pretensão?

      Porque ao optar pela estética do grito, ao acreditar que o público é surdo, sua peça encheu-se de pretensão e veio debulhar-se em referências e barulho na nossa frente.

      No que as peças são pretensiosas?

      Gritos, referências gratuitas, metalinguagem, música alta demais, toda a pós-modernice das cenas, etc. etc.

      Por que o texto do Leo Lama é “filosofia de botequim” e o que seria necessário para dar mais profundidade ao texto?

      Filosofia de botequim: clichês sobre o vazio, o que se enche de ficar vazio, o vazio que enche as pessoas atuais… Filosofia de botequim, aquelas bobagens que dizemos nas madrugadas e movidos a álcool, quando somos donos das verdades e sabemos tudo. A peça de Leo Lama tem essa aura, como seus personagens estáticos e suas alegorias óbvias…

      Por que a mesma peça apenas sugere Breton e o que seria necessário para alcançar em vez de sugerir?
      Força poética, cuidado nas imagens, movimentação e ação mais contundentes, uma elaboração maior e melhor das metáforas e da dramaturgia, aproximariam a peça das idéias de Breton. Do jeito que está montada apenas toca superficialmente, não apenas Breton, mas toda uma gama de filósofos e dramaturgos que trabalham esse tipo de questão.

      O que vocês consideram “teatralidade”

      Recomendamos a leitura do livro Teatralidades Contemporâneas da Sílvia Fernandes, toda obra do Artaud e do Grotowski.

      Por que o silêncio é mais importante para a criação que o ruído?

      Porque é mais contundente, porque é mais incisivo e perturbador, porque vai contra a corrente dominante que acredita que reproduzir berros no palco é ser atual. Porque o silêncio, ou a tentativa de silêncio é mais poética do qualquer fala. Porque o silêncio está carregado de som e sentido quando bem usado. Lembramos aqui o manifesto do Deleuze sobre Beckett.

      O que vocês querem dizer com “rigor e calma” e por que acham que isso resultaria em uma montagem melhor?

      Porque foi o que faltou na sua montagem. Rigor no uso das referências, no uso da estética do grito, no uso da metalinguagem. Calma, porque todo aquele “desespero” que estava no palco parecia um chilique adolescente, uma coisinha meio vandalazinha, revoltazinha. As questões levantadas pela peça estão em outro diapasão. Mais embaixo, mais corpo, mais contundência dramatúrgica e menos berro.

      O que vocês querem dizer com “rigor”?

      Rigor no uso da linguagem e da técnica. Sua opção foi pelo grito. Ok. Nos irritou, mas mesmo se deixássemos de lado a irritação e pensássemos no que vocês conseguiram com essa opção, não encontraríamos uma resposta fácil, porque faltou rigor no uso dessa estética. Tudo pareceu muito histérico, muito “louco”, mas pouco transformador.

      Quais são as “questões pretendidas pelo autor”?

      Pensamos que seja uma reflexão sobre o mundo contemporâneo, sobre o próprio teatro. Mas como foi muito berrado, a gente não conseguiu entender direito.

      Por que as referências usadas viram uma “salada cultural que destrói a força do texto”?

      Se pular de uma coisa para outra, sem se deter em nenhuma, e fazer esses pulos aos berros, é a sua opção estética, nós consideramos que essa opção destrói seu texto, superficializa o que é dito.

      Já que vocês disseram que entenderam a proposta, mas não concordam com ela, qual é essa proposta e com o que nela vocês não concordam?

      A opção pelo grito. A peça poderia ser a mesma, mesma marcação, as mesmas referências, a mesma música, a mesma metalinguagem. Dita em tons menores os resultados seriam outros, seriam poéticos e perturbadores.

      Vocês não acham que discutir esses pontos na crítica seria mais pertinente e produtivo para um diálogo tanto de vocês com seu público quanto de vocês com os artistas e o próprio festival em vez de simplesmente ficar omitindo opiniões sem fundamentos que não sejam o gosto pessoal?

      Tinhamos o problema da falta de espaço. Além disso, você reclamou bastante da nossa crítica porque nós nos fundamentamos em alguns pensadores e teóricos, agora temos opiniões sem fundamento… não entendemos, parece que há contradições.

      Sim, sim. Compreendo. Pegam meia dúzia de intelectuais, sublinham 400 parágrafos-chave para citações rasas e não ainda sabem ligar Godzilla e Família Dino. Por isso a falta do que dizer. Arrogância sem substância. Pior espécie. Grande abraço

      Olha, nós não sabemos ligar Godzilla e Família Dino… pode nos ensinar?

  • Cesar Ribeiro

    Olá, Marco e Rubens. Tudo bem? Gostaria de agradecer os comentários finais. Tenho diversas discordâncias em relação à visão de teatro de vocês, mas elas não são importantes. O que importa é que era esse diálogo que esperava de uma crítica, pois nele se encontram elementos para reflexão, ao contrário do texto inicial. Quando um espetáculo se apresenta, seja ele qual for, ele está propondo ideias, discutindo propostas, trilhando caminhos que agradará a alguns e não agradará a outros. E isso é positivo, ao contrário da busca por unanimidade citada por vocês. De qualquer forma, acredito que a crítica deve estabelecer com os artistas um diálogo construtivo, e não arrogante. De ambas as partes. E isso não significa falar bem. Abraço e, novamente, obrigado.

  • Cesar Ribeiro

    Olá, Marco e Rubens. Gostaria de agradecer os comentários finais. Tenho diversas discordâncias em relação à visão de teatro de vocês, mas elas não são importantes. O que importa é que era esse diálogo que esperava de uma crítica, pois nele se encontram elementos para reflexão, ao contrário do texto inicial. Quando um espetáculo se apresenta, seja ele qual for, ele está propondo ideias, discutindo propostas, trilhando caminhos que agradará a alguns e não agradará a outros. E isso é positivo, ao contrário da busca por unanimidade citada por vocês. De qualquer forma, acredito que a crítica deve estabelecer com os artistas um diálogo construtivo, e não arrogante. De ambas as partes. E isso não significa falar bem. Abraço e, novamente, obrigado.

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