Teatro Pedro Ivo, finalmente, tem a experiência do TEATRO TOTAL

Teatro, poesia e etc e tal

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

 Nem tudo são sombras no Festival Isnard Azevedo. Uma das companhias teatrais convidadas trouxe solaridade para o palco do Teatro Pedro Ivo, na quarta-feira passada. A responsável por essa “iluminação”, rara nesses dias de festival, é o Centro Teatral e Etc e Tal, formado pelo trio de cômicos Alvaro Assad, Marcio Moura e Melissa Teles-Lôbo. No programa estava prevista a apresentação da peça “O buraco”, mas devido a um problema de saúde da atriz Melissa Teles-Lôbo, o grupo teve que trocar o repertório e ofertou ao público o espetáculo “Fulano & Sicrano”. A julgar pela qualidade de “Fulano & Sicrano”, o público não perdeu em nada com a troca, pois a companhia carioca demonstrou um domínio total da técnica da pantomima e apresentou um teatro vivo, poético e tecnicamente perfeito. Mostrou, também, uma incrível capacidade de reinventar a linguagem da pantomima criando outras linguagens.

            A peça apresentada está dividida em três quadros: “A tragédia de Elizabeth Maria”, “O dentista” e “Vida Submarina”. O três quadros, que se aproximam da linguagem dos quadrinhos de animação, são compostos por uma organicidade perfeita do jogo, som, luz, corpo, gesto e ação. No primeiro quadro, o grupo usou a técnica da pantomima literária, em que um ator faz a narração dos fatos enquanto outro executa a ação. Apesar do risco da repetição, o cuidado e a criatividade do grupo se sobressaem, fazendo com que a “pantomima literária” seja sempre surpreendente. No quadro “o dentista” a técnica foi o “gromelô”, que é a um falar apenas com sons ininteligíveis. O sentido e a dramaturgia surgem do que é apreendido pelos gestos e pelos ritmos dos sons. Assim uma banal ida ao dentista ganha proporções angustiantes e hilárias nas mãos do grupo. Por fim, no terceiro quadro, a pantomima mais clássica, em que uma apresentação de nado sincronizado ganha outra dimensão: a do humor delicado, sutil, perfeitamente executado pelos atores Alvaro Assad e Marcio Moura.

            Pantomima vem do grego “pantomimos”, e quer dizer “peça de teatro”.  Há neste gênero, quando executado com invenção e poesia, uma espécie de ancestralidade visceral dos gestos que nos leva para os primeiros signos criados pelo homem quando ainda não possuía o seu complexo sistema comunicativo. A companhia carioca mantém os princípios básicos do gênero acrescentando a ele algumas inovações. O resultado no palco é a certeza de um grupo que entendeu Flávio de Carvalho: teatro é o mergulho na linguagem. O humor gestual presente em “Fulano & Sicrano” está filiado ao de Charles Chaplin, Marcel Marceau e Buster Keaton.

            Alvaro Assad e Marcio Moura dominam os espectadores, fazem uso da metalinguagem na medida certa, provocam nossa inteligência e com seus corpos (voz, ação, tensão e silêncio) reverberem no público. “Fulano & Sicrano”, para roubarmos uma expressão que Mario Quintana dirigiu a Charles Chaplin, é “simples e genial”. Na sexta-feira foi a vez dos espetáculos “Anjo Malaquias” e “Circo do Só Eu” trazerem mais luzes aos palcos da Capital, que passaram por momentos de trevas em plena claridade.    

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: