Festival Isnard Azevedo encerra com musical de Sylvia Bandeira

Festival Isnard Azevedo fecha com um belo
espetáculo

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

 O 18.º Festival de Teatro Isnard Azevedo fechou com o belo espetáculo “Marlene Dietrich – As Pernas do Século”. Sylvia Bandeira protagoniza o musical, cuja autoria é do experiente dramaturgo Aimar Labaki. O trabalho muito bem dirigido por William Pereira resume em 95 minutos os 91 anos de Marlene Dietrich. A atriz alemã não foi apenas as pernas do século, mas também um dos comportamentos mais avant-gards que o mundo artístico já teve. Alçada à condição de estrela pelo cineasta austríaco Josef von Sternberg, foi protagonista de grandes filmes e de grandes amores.

            Marlene rompeu padrões, barreiras, naturalizou-se americana, participou ativamente da Segunda Guerra, cantando no front para os soldados americanos, e foi considerada traidora pelos nazistas.  Depois da guerra, reinventou-se como cantora e atriz, percorreu o mundo cantando, até que se isolou em Paris, falecendo em 1992.

            Todo esse percurso biográfico é muito bem executado na montagem da peça, que inicia com uma conversa entre Marlene, já idosa, e um simples entregador de champanhe. A atriz necessitava relembrar e reviver o que foi. Então, começa a contar sua trajetória, que é também a triste e festiva trajetória do século XX. O que vemos, portanto, é uma sucessão de flashbacks que perpassam os momentos mais importantes da sua vida.

            A atriz Sylvia Bandeira, luminosa no papel principal, está muito bem acompanhada pelos atores José Mauro Brant, Silvio Ferrari e Marciah Luna Cabral. Os três atores se desdobram em diversos personagens fundamentais para a vida de Marlene: a mãe, a filha, o primeiro marido, os inúmeros atores com quem Marlene teve seus romances, os cineastas e a sua grande amiga Edith Piaf. É preciso dizer que Marciah Luna Cabral esteve tensa por muitos momentos e chegou mesmo à desafinação em algumas canções, contudo, nada que apague a coerência do trabalho que harmoniza o didatismo, a projeção de filmes e imagens, a canção e as atuações com uma dramaturgia muito bem costurada por Labaki.

            Os quatro atores não apenas interpretam com desenvoltura, mas também cantam mais de trinta canções em alemão, português, francês e inglês. Toda a música é executada, ao vivo, por um rio que toca seus instrumentos (piano, violoncelo, sopros), dando ainda mais força poética ao espetáculo. Há, inclusive, uma divertida versão de “Luar do Sertão”, cantada por Marlene quando se apresentou no Copacabana Palace no final dos anos 1950. A versão original, com a voz sensual de Marlene Dietrich, está disponível na internet.  

            Ainda que não estejamos diante do teatro essencial tão defendido por Grotowski e Artaud, por exemplo, temos uma montagem que é fiel aos seus propósitos e que leva para o palco, com extremada competência, toda a dicotomia, solidão, contradições, angústias e alegrias de Marlene Dietrich.

            O público do Festival Isnard Azevedo, depois de uma maratona de espetáculos sofríveis e confusos, saiu do Teatro Pedro Ivo, nesta última noite, com a convicção de que seus aplausos não foram por cordialidade ou obrigação.  Agora é repensar a próxima edição e tentar minimizar ao máximo os erros desta edição, já que é difícil se fazer um festival desta proporção somente com espetáculos bons. Ficam aqui algumas sugestões: repensar o modelo de seleção/curadoria e o tamanho do festival. Pensar em uma direção para o festival, já que ele chegou na sua maioridade e nunca teve uma cara, um conceito. O Festival de Teatro de Curitiba, por exemplo, o maior engodo em termos de festival, leva a glória de ser o maior festival do Brasil. Contudo, quem vive no meio e já participou dele sabe que é um dos piores do mundo. Não podemos e não precisamos correr o mesmo risco.

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4 respostas para “Festival Isnard Azevedo encerra com musical de Sylvia Bandeira

  • emanuel

    Tive a sorte de ver apenas 2 bons teatros no Festival: Anjo Malaquias e o fechamento coma história de Marlene Dietrich.

    Gostei muito dessa Crítica, sem excessos e opiniões sem fundamento, ao contrário, descreveu tudo o que ví e gostei na peça sem deixar de notar algumas imperfeições como as desafinações da Marciah Luna Cabral.

    Como complemento às criticas feitas ao Festival noto a falta do nome dos atores nas programações dos eventos. Agora, graças a esta crítica sei o nome da atriz Sylvia Bandeira que fez uma interpretação marcante de um personagem difícil e cosmopolita.

  • Vasques

    Acho que você quis dizer “com fundamento” né? Obrigado. Abraço.

  • emanuel

    É……na verdade eu quis dizer “sem excessos, e sem opiniões sem fundamento”….na hora parecia redundante mas não, era necessário (note o cuidado com a vírgula para evitar novas ambiguidades). O correto seria dizer sem excessos, “nem” opiniões sem fundamento.

    Caso eu optasse pela sua sugestão e escrevesse “sem excessos e opiniões com fundamento” isso também geraria uma ambiguidade onde a frase poderia ser mal interpretada como se não houvesse opiniões com fundamento devida a antecedência da preposição “sem”.

    Agradeço a correção.

  • Marco Vasques

    É isso, adoro os gramáticos confusos!! Viva!!!

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