Reestreia do espetáculo De Malas Prontas

De Malas Prontas reestreia em Florianópolis

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

 

De Malas Prontas é uma das principais peças de teatro da última décadaem Santa Catarina. Com mais de 600 apresentações, a peça retornou recentemente ao Teatro Álvaro de Carvalho com uma alteração no elenco. A atriz Andréia Padilha foi substituída por Lily Curcio. A força criativa e sarcástica imposta pelo autor e diretor Pepe Nuñez continua a mesma. Na primeira montagem, as atrizes Vanderléia Will e Andréia Padilha ganharam o mundo, acumularam participações em festivais e criaram uma trajetória de sucesso para o trabalho. 

 

A nova montagem apresentada enfrenta desafio duplo, porque a trajetória passada imporá, naturalmente, algumas comparações por parte dos espectadores. Nós não incorreremos em analogias e comparações, pois o que temos no palco é um novo trabalho, uma nova peça de teatro com novas exigências. A peça coloca duas forças femininas disputando um espaço num banco em um aeroporto qualquer. São duas forças da natureza que se encontram e duelam. Não o duelo masculino de socos e pontapés, mas um duelo feminino, em que o poder é demonstrado quando se mina, se destrói sutilmente o poder do oponente. Sutileza é a palavra chave nessa peça que não se utiliza de palavra. Não há verbalização nenhuma. A teatralidade é consumada pelos silêncios e pelos gestos. As personagens apresentam a teimosia, a vaidade, a ironia, a maldade e o egoísmo expostos em gestos, ora absurdos, ora poéticos, ora realistas. 

 

A linguagem da peça é tocada pelo cartoon, pela pantomina, passando também pelo humor sério de Buster Keaton e, mais recentemente, ao humor físico do genial Rowan Atkinson, famoso por seu personagem Mr. Bean, infelizmente pasteurizado pela cultura de massa. Trata-se de um tipo de atuação que prescinde da palavra, que faz de situações aparentemente corriqueiras um pequeno manual tragicômico.

 

 Assim, a disputa mesquinha das duas mulheres vai aos poucos ganhando uma proporção assustadora, perigosa, cortante. O público ri, pois é o que lhe resta, mas é o riso defesa, o riso que anestesia a dor de cada gesto expositor da luta pelo poder, da manutenção da vaidade como forma de vida.

 

De Malas Prontas atua sobre o espectador com a crueldade necessária; não o amacia, não o afaga. A comédia aqui ainda funciona como meio para expor o que o humano tem de pior, tem de mais vil. Ela se presentifica conforme Aristóteles a definiu: “a comédia é a imitação dos maus costumes, mas não de todos os vícios, ela só imita aquela parte do ignomioso que é o ridículo”. O ridículo da vida, da falta de comunicação, da falta de gentileza ganhando dimensões contundentes, capazes de manter um espetáculo há anos em cartaz.

 

A alteração da atriz traz ao jogo cênico nova possibilidade, pois Lily Curcio recria os ciclos dramatúrgicos das cenas de modo criativo e envolvente, embora fique evidente uma certa arritmia na sua personagem. Algo extremamente natural numa reestreia. Já Vanderléia Will, a atriz remanescente, faz de seus gestos, de seus olhares, e de suas expressões a carnação absoluta de uma teatralidade completa. Há nela uma incorporação completa da cena, quase uma automatização do processo de atuar, advinda tanto do talento que abunda no palco quanto do longo tempo em que o espetáculo está circulando. É provável que Lily logo chegue a esse nível em que gesto, movimento e ação não sejam visivelmente decorados, marcados, mas sejam naturais, fisicamente naturais.

 

A Cia. Pé de Vento, capitaneada por Pepe Nuñez, consegue afinar a dramaturgia, a luz, o cenário, o figurino e os grunhidos ao gesto poético necessário à proposta do trabalho. O espectador entra em De Malas Prontas como se entrasse num poema formalmente perfeito e poeticamente perturbador. De Malas Prontas é um espetáculo que demonstra perfeitamente que não são gêneros teatrais que carregam grandezas. A teatralidade total pode estar em qualquer gênero quando o teatro realmente aconcete em sua integralidade. Em seu jogo absoluto, jogo inteligentíssimo, diga-se.

FOTOS DE CRISTIANE FONTINHA

 

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