DentroFora também esteve em cartaz em Florianópolis

 

 

 

DentroFora fica na superfície da cena

 

 

 

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

 

 

 

Samuel Beckett é um dos principais artistas século XX. Profícuo e intenso, o irlandês escreveu peças, romances, poemas, ensaios, trabalhou para o rádio e a televisão, cinema, ganhou o prêmio Nobel. A sua obra teatral é uma das mais instigantes já produzidas. Talvez nenhum outro dramaturgo tenha pensado tanto os limites do discurso, da palavra, da linguagem, da imagem, da mímesis quanto Beckett.

 

Suas peças trabalham sempre no limite da perturbação, suas alegorias são agudas, cirúrgicas na análise do humano. Beckett ultrapassa o pessimismo, o niilismo, chega num espaço em que a palavra tem que realmente lidar, contornar, apalpar o vazio, o nada. Essa é sua força artística. Beckett retrata o vazio existencial, humano, espiritual em que se meteu o século XX e que se entranha cada vez mais nas nossas vidas sem vidas.

A sua influência chegou ao escritor norte-americano da atualidade, Paul Auster, que escreveu a peça “Hide and Seek” em homenagem a “Dias Felizes”, uma das mais famosas peças de Beckett ao lado de “Esperando Godot” e “Fim de Partida”.  Auster parte do pressuposto beckettiano da imobilidade, da prisão a um sistema mais forte e instransponível para criar um diálogo entre um homem e uma mulher presos numa caixa. São bonecos-pessoas que não se vêem, não se tocam, porém conversam ininterruptamente sobre assuntos banais e/ou absurdos.

 A peça “Hide and Seek”, foi adaptada no Brasil pela companhia gaúcha In.Co.Mo.De-Te (Inconformada Companhia de Moda, Design e Teatro), que passou recentemente por Florianópolis participando da 4ª Semana Ousada de Artes, que esteve muito pouco ousada, com o nome de “DentroFora”.

 

A montagem gaúcha mantém-se fiel às marcações e ao texto de Auster, mas a atuação dos atores Nelson Dinis e Liane Ventura, sob a direção de Carlos Ramiro Fensterseifer, não consegue alcançar a força presente e exigida pela dramaturgia do texto e a perturbação que o autor americano impõe não chega ao público. Há uma espécie de superficialização dos personagens a ponto de suas caricaturas nos remeter apenas ao cômico isento da acidez presente tanto em Beckett quanto em Auster. 

 

O cenário, duas caixas-vitrines, onde os atores se debatem numa tentativa de encontrar o equilíbrio dos socos das palavras com a aridez do ambiente, é bem construído, contudo o espaço onde ocorreu a apresentação é nitidamente inadequado à proposta do espetáculo, porque o palco do centro de eventos da UFSC mantém o público muito longe dos atores.

 

A peça pede uma proximidade, pede uma intimidade, como aquela intimidade que temos diante dos produtos nas prateleiras: é preciso olhá-los de perto, conhecer suas vantagens, suas fraquezas. A distância com que a peça foi encenada do público prejudicou a fruição dos pequenos gestos, do mastigar as palavras.

A inconformação presente nas propostas dos autores [Beckett e Auster] não chega ao palco e “DentroFora”, que poderia ser um espetáculo perturbador e contundente, esbarra na superfície da cena, embora seja nítida a percepção de que Nelson Dinis e Liane Ventura sejam atores capazes de dar outro destino ao espetáculo. É nítida a percepção de que o trabalho foi pensado para outro espaço, para outra disposição cênica. O que temos não é exatamente um espetáculo sem labor e sem estética clara, temos um espetáculo que foi deslocado de seu espaço e que perdeu toda a força em função disso gerando a superficialidade. Chegará um dia em que os artistas não se submeteram aos transplantes de linguagens e não comprometerão suas estéticas. Chegará?

Existe, no Brasil, uma onda de atores e diretores que estão brincando de fazer Beckett. Se fosse uma brincadeira séria, não teríamos nenhuma objeção, contudo, via de regra, as montagens pecam porque esses diretores e atores parecem não adentrar na tensão e na obra criada por Beckett.

 

O diretor artístico do Gate Theatre, Michael Colgan, idealizou, em 2001, o projeto Beckett on Film. Todas as 19 peças do dramaturgo irlandês estão disponíveis em filmes que transitam entre a linguagem do cinema e do teatro. Para esses atores e diretores brincalhões sugerimos que leiam Beckett e vejam todos os filmes, que são verdadeiras aulas de como entender o vazio que Beckett preencheu de linguagem. Uma vez uma professora perguntou ao poeta Mario Quintana: o que faço para entender Shakespeare? O poeta gaúcho foi certeiro: “ora, leia Shakespeare”.

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