UMA SOCIEDADE e a superficialidade da cena

 

Uma Sociedade

e a  superficialidade da cena 

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

 

Certa vez Antunes Filho nos disse as seguintes palavras: “Eu quero ver os meus atores pegando fogo em cena.” Eugênio Barba, em seu livro Queimar a Casa é mais radical porque diz querer um espetáculo que em si só seja incineração. O sonho confesso de Barba é um espetáculo que coloca fogo em todo o teatro. De algum modo vamos ao teatro para defrontarmos com uma experiência estética capaz de nos deslocar, capaz de iluminar um de nossos fragmentos. O espetáculo Uma Sociedade abre a temporada catarinense e, infelizmente, começamos sem o poder ígneo de Dionísio.

 

Virgínia Woolf, um dos principais nomes da literatura mundial, tinha uma preocupação que dominava seu pensamento: o papel da mulher na escrita, na sociedade, na vida. Um de seus textos mais emblemáticos é Um teto todo seu,em que Virgínia defende a ideia de que as mulheres nunca foram muito visíveis na literatura porque não podiam se isolar para escrever. Tinham que repartir seu tempo entre a casa, o marido, os filhos, as visitas. Não havia a possibilidade de uma mulher ficar sozinha, pensar, desenvolver seu talento, ficando, assim, sempre à margem do processo criativo.

No começo dos anos 1920, Virgínia escreveu o conto “Uma sociedade”, narrando as peripécias de um grupo de mulheres que, durante mais de cinco anos, constituíram uma “sociedade de fazer perguntas”. As mulheres saíam a campo, muitas vezes disfarçadas de homens, para saber se eles tinham cumprido aquilo que elas acreditavam ser o objetivo da vida: “formar boas pessoas e produzir bons livros”.

 

A narradora de Virgínia prossegue: “Nossas perguntas seriam direcionadas para saber até que ponto esse objetivo era atualmente alcançado pelos homens. Prometemo-nos solenemente que nenhuma de nós teria um filho antes de nos darmos, todas, por satisfeitas.” A partir daí, são narradas as incursões das mulheres no mundo masculino: a marinha, a literatura, a Real Academia Britânica, a biblioteca de Londres. As respostas não vêm, o tempo passa, a Primeira Guerra Mundial irrompe, uma das mulheres fica grávida, a sociedade é desmanchada e, ironicamente, Virgínia joga a busca de resposta para o futuro, mais especificamente para a filha de Castália, a participante da sociedade que ficou grávida.

 

            Esse conto repleto de nuances, de referências literárias, do pensamento irônico e melancólico de Virgínia serviu de base para a peça Uma sociedade. A idealização do espetáculo foi de Mitzi Evelyn. Já a dramaturgia é assinada por Marina Monteiro. A direção ficou ao encargo de Lalette Coutto. Em cena, além de Mitzi e Marina estão Alice Assef, Andrea Buzato, Diana Herzog e Marina Palha. Depois da estreia no Teatro Pedro Ivo Campos, no último final de semana, surge uma pergunta intrigante: como tantas mulheres envolvidas no espetáculo puderam ler tão mal o texto de Virgínia Woolf?

 

A peça é uma sucessão de equívocos técnicos, de leitura e de composição dramatúrgica. Na parte técnica, o iluminador Antonio Luiz, optou por uma luz ora chapada, ora escura demais, a ponto de quase não se ver o rosto das atrizes. Em certos monólogos não há nuances de luz. O uso da iluminação diferenciada é uma exigência de algumas cenas. Mas o grupo não parece preocupado se o público vai ou não fruir as cenas. 

 

A dicção das atrizes também é baixa e não acompanha as ações. Voz também é corpo. É preciso sempre estar atento a isso. Palavras são engolidas o tempo todo. Exceção para Diana Herzog, cuja voz potente se sobressaiu. A atriz Alice Assef, embora esteja distante do personagem proposto por Virgínia, consegue impor uma exuberante presença cênica. A diretora Lalette Coutto optou pelo clichê, pelo histrionismo com pretensões ao cômico, optou por superficializar ao limite do suportável o mundo denso e profundo da escritora. O texto em que a peça se baseia não é para rir fácil, não é para divertir. Há nele uma profunda amargura, uma profunda luta contra a posição de invisibilidade imposta às mulheres no mundo. Virgínia lutou com todas as forças contra essa posição, contra esse silêncio imposto pelo patriarcado. Pagou alto por isso. Não dá para entender porque tantas mulheres envolvidas no projeto não perceberam como estavam superficiais, como estavam reforçando ainda mais os clichês da “mulher neurótica”, da “mulher fútil”, da mulherzinha que não pode ir além dos limites impostos.

 

A dramaturgia tornou superficial, inclusive, os momentos em que o próprio texto da Virgínia é lido ou encenado em seu estado original. O conto vai sendo espalhado do início, em forma de leitura, até a cena final aparecendo de inúmeros modos, mas sempre esgarçado e apequenado, de modo a constranger até quem não é próximo do profundo universo da escritora inglesa. O cenário é simples, uma sala normal com biombo, duas mesas e cadeiras. Há uma visível proposta de manter a famigerada quarta parede bem demarcada, contudo, é bem possível que se tenha inventado uma nova parede: a quinta. 

 

A peça Uma sociedade, do jeito que foi montada, provoca questões que surgem a cada cena: onde a dor e a ironia do texto de Virgínia foram parar? E o desespero daquelas mulheres sem respostas? E a imposição de um mundo do qual elas ainda tinham que ser apenas visitantes inferiores? Por que a visão dessas mulheres envolvidas no espetáculo é tão falha, tão superficial em relação às próprias mulheres? Qual a concepção de teatro da diretora? Por que caricaturizaram Virgínia Woolf e, por consequência, todas as mulheres?  “Uma sociedade” é um conto escrito em resposta às ideias do escritor Arnold Bennett, que escrevia sobre a inferioridade intelectual da mulher. Nada disso é trazido à tona na peça, ficando tudo no rame-rame caricatural, em certos momentos lembrando alguns quadros televisivos que pululam nos programas humorísticos dos sábados.

 

Quase cem anos depois da escrita do conto “Uma sociedade”, a vida das mulheres é outra. Na literatura grandes nomes femininos surgiram. Muito disso se deve às portas abertas por Virgínia Woolf. Por que então, ao colocar seu trabalho em cena, as mulheres envolvidas no projeto infantilizaram a luta de Virgínia com uma encenação semelhante àquele teatro de escolha secundária que os pais têm que assistir de vez em quando? O que perturba é que não estamos falando de amadoras, de marinheiras de primeira viagem, de falta de recursos técnicos, financeiros e cênicos. As realizadoras do espetáculo tinham à mão um material humano, financeiro e literário para romper as barreiras, para respeitar a grandeza intelectual e histórica de Virgínia Woolf. No entanto, optaram por fazer uma peça repleta de fragilidades dramatúrgicas, poéticas e técnicas.

 

A peça deve ter ainda um longo caminho em 2012, mas para que ela cresça, para que ela ao menos respeite o universo de Virgínia Woolf terá que passar por intensas reformulações, não apenas estruturais, mas de filosofia, de olhar sobre a matéria-prima que a compõe. No quesito técnico, faz-se necessário um novo projeto de iluminação e um trabalho mais contundente na dicção e na atuação das atrizes. Será preciso rever cada uma das seis personagens, para que saiam de seus campos caricaturais: a neurótica, a fútil, a séria, a adolescente, a mãe, a escritora.

 

Do jeito apresentado, cada mulher ficou presa ao seu adjetivo único. No entanto, cada uma delas é tudo isso e muito mais. Rever todas as cenas constrangedoras de conflitos e, sobretudo, a pretensa cena de humor em que as personagens imitam umas às outras. Nesse momento, o metateatro pretendido chega ao limite da infantilidade cênica. Falta também ensinar as atrizes a rirem com naturalidade e não do jeito forçado, falso como o apresentado. Repensar as sequências mais importantes, sobretudo a final: falta silêncio, falta peso dramático, falta poesia, falta leitura de Virgínia, falta direção. São quase duas horas de cenas arrastadas, levando o espectador cada vez mais fundo à superficialidade da cena. Por isso a urgência, também, de ser fazer uma nova dramaturgia. A Virgínia merece!

FOTO: Scarlat Silva

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7 respostas para “UMA SOCIEDADE e a superficialidade da cena

  • Manoela Alves

    Caro, Marco.

    Não é a primeira vez que leio uma crítica sua mas dessa vez não posso deixar de escrever um comentário por aqui.

    Assim que comecei a ler sua crítica ao espetáculo “Uma Sociedade”, a primeira observação que vem a minha cabeça é “Será que o Marco pesquisou mesmo algo sobre Virginia Woolf?”.
    Logo depois pensei que isso não deveria importar, já que ao fazer um espetáculo não devemos contar com isso se queremos mesmo… bem, fazer um espetáculo.
    O fato é que sua deficiência na pesquisa voltou a me chamar atenção assim que você começou a apontar a mesma como ponto fraco das criadoras do espetáculo.
    Me pareceu bastante estranho seu julgamento, já que está claro que você não domina o universo de Virgina Woolf. Pudera. Seria bastante complicado e por que não dizer utópico, não é?

    O que me impressiona no espetáculo dirigido por Lelette Coutto (e não LAlette Coutto) é justamente a leitura e a adaptação atuais de um conto tão denso e rico como é o “Uma Sociedade”. A pretensão tem limites porque (alguns de) nós temos limites. Nada mais normal do que isso. O que você tanto condena, eu admiro muito. E que a leveza e a ingenuidade de todas as envolvidas continue a ganhar forças. E que a perfeição nunca seja um objetivo.

    Querido, questões técnicas sempre estarão presentes. Se a luz não funcionou no dia da apresentação, tudo bem. Quem trabalha com teatro sabe que estamos sujeitos a isso (ainda bem!). Se essa foi uma opinião do elenco, da equipe e do público, tenho certeza que cedo ou tarde será resolvida. Assim como tenho certeza que a maioria do público presente foi bem mais receptiva e tolerante do que você foi em sua “crítica”.

    Dicção, não é alta ou baixa. Creio que você se referia ao volume. Ou não, enfim. Mas assim como qualquer espetáculo terá a chance de se fortalecer e consertar seus equívocos, você também terá.

    Falando em equívoco, achei estranha sua colocação quanto a expectativa de que a atriz Alice Assef alcançasse a Helen proposta por Virginia. Ao ler o conto, você percebe que a personagem que encontramos na peça é uma criação da autora da adaptação, não tendo tanto destaque e características individuais no conto.

    Na minha opinião suas críticas não fazem mais do que afastar pessoas, enfraquecer o teatro, suscitar más interpretações sobre a arte. Infelizmente. É triste ver uma pessoa lutando para tomar um espaço para ser tão duro, injusto e leviano com o trabalho alheio. Que ,segundo você nem é tão alheio assim.

    Como você vem fazendo críticas há um certo tempo e sugerindo mudanças, me vejo no direito de fazer o mesmo, caro colega de trabalho: pare de citar os outros, fale por você e não seja tão amargo. Trabalhar com Teatro não é apontar os outros e permanecer sentado em sua cadeira, e sim lutar incessantemente por um espaço onde possamos nos aproximar e trabalhar juntos, em prol do coletivo, do Teatro, sempre.

    Parabéns a Alice Assef, Andrea Buzato, Diana Herzog, Marina Monteiro, Marina Palha e Mitzi Evelyn.

    PS: Fui público por dois dias e não me senti nem um pouco constrangida. Muito pelo contrário.

    • Marco Vasques

      Manoela, vamos por partes e com calma que o santo é de barro e de barro bem frágil, mas de saída aceitamos sua crítica à crítica. É do jogo dialético.

      a) Este texto não é assinado apenas por Marco Vasques. Esse espaço é um espaço aberto por Marco Vasques e Rubens da Cunha para se discutir teatro, literatura e arte. Estamos alguns anos na estrada e temos estabelecidos bons diálogos com atores, críticos, professores, pesquisadores, diretores do Brasil e do exterior, sempre na perspectiva de contribuir, de algum modo, com a arte que tanto amamos.

      b) Não tivemos outro objetivo que não o de discutir o que vimos, e o que vimos, em conjunto, foi uma sucessão de equívocos; não podemos julgar o quanto você conhece de Virgínia, mas deduzimos que muito pouco, dada suas colocações sobre nós e sobre o nosso texto. Nós não julgamos caráter, como você está fazendo, nós apenas avaliamos um trabalho estético.

      c) Fomos ver um objeto estético e ele não nos alcançou em nenhum aspecto. Quanto a Helen, ela é sim uma criação da Virgínia, o personagem está lá, o que a autora da adaptação fez foi dar mais espaço a ela.

      d) Você pouco leu nossas críticas, conforme afirma, posto que não estamos destruindo nada, apenas tentado construindo um debate. Tanto que nossa crítica está repleta de perguntas e pontuações no sentido de apontar possibilidades para resolver os problemas visíveis da peça.

      e) Quando alguém faz um trabalho (nós não a conhecemos e não sabemos se você está envolvida no processo de construção de UMA SOCIEDADE) e apresenta à sociedade tem que estar preparado para críticas avaliativas, sejam elas positivas ou negativas. Contudo, aqui, em Santa Catarina, dizer que um espetáculo não está bem estruturado é quase um crime, pelo que se vê; Estamos acostumados com tudo isso e continuamos nosso trabalho porque acreditamos que o pior destino para uma obra de arte é o silêncio.

      f) Não pense que vamos para o teatro com o objetivo de falar mal do trabalho das pessoas, você não sabe o quanto dói ver uma experiência teatral sem rumo, sem consistência. Porque sabemos da energia, esforço e dificuldades de uma montagem, mas não podemos fechar os olhos e deixar de observar outros aspectos, pois se ficarmos na energia, esforço e dificuldades empenhadas; seríamos pais, e não estaríamos ajudando, apenas perpetuando a pasmaceira. E para alisar cabelos, tem um monte de cabeleireiro espalhado pela cidade.

      g) A palavra dictio, do latim, significa palavra. E a palavra tem som, volume e até cor, se não sabia. Então acho que está claro o que queremos dizer com dicção. Caso não se sinta satisfeita indicamos o Dicionário de Teatro do Patrice Pavis.

      h) Bem, conhecemos muita gente que saiu irritada do teatro, mas isso não vem ao caso, porque o que nos interessa é o objeto estético que está no palco, e, definitivamente, UMA SOCIEDADE, é uma lástima em termos estéticos. Ou fruto de equívoco, ou fruto de preguiça mesmo.

      i) Você fala em leitura e em adaptação atuais de um conto tão denso e rico? Então por que os figurinos? o cenário? Tudo rementendo ao começo do século XX. Não houve atualização do conto, houve sim uma adaptação, algumas mudanças e uma radical diminuição da densidade e da riqueza do conto. Agora, se você quer ver esse espetáculo como algo atual, atualizado para a nossa realidade, bem, aí o espetáculo fica mais banal ainda, muito mais. E se você se reconheceu, como mulher, nada podemos fazer.

      Abraços
      Marco Vasques e Rubens da Cunha

  • Jéferson Dantas

    Prezados,
    assisti a peça e tive a mesma impressão de vocês, até pela conhecida envergadura literária de Virginia Woolf. Faltou intensidade dramatúrgica..

    Abraços,
    Jéferson Dantas.

  • Denize Gonzaga

    Concordo com os críticos. Eu também quis sair nas primeiras cenas. O Marco que não deixou. Preferi, muitas vezes, olhar para o teto preto, pois o estava vendo mais que o rosto e a expressão das atrizes, além de que ele estava melhor esteticamente. É triste. A critica do Marco e do Rubens tem o intuito de criar na equipe uma motivação para a melhora e não o contrário. Não é para difamar. É para que o teatro tenha cada vez mais espectadores e que eles não sejam subestimados por peças que não trazem nada, são vazias e mal feitas.

  • Vittorio Brausen

    Bem, eu não sou crítico de teatro, mas fui ao espetáculo e penso que os críticos foram até condescendentes. Fosse eu crítico de teatro, sinceramente, nem me daria ao trabalho de escrever sobre as inúmeras pobrezas que vi. Manoela demonstra seu despreparo em inúmeros aspectos. Acusa os críticos de terem errado o nome da diretora, contudo comete erros gramaticais infantis; fala que Marco não conhece Virgínia e que seria “utopico” (sic) imaginar que ele poderia conhecer, porém os críticos demonstram, na crítica, que conhecem o universo de Virgínia; fala em adaptação para os dias atuais, o que é no mínimo ridículo.
    Manoela nada diz sobre Virgínia, não demonstra conhecer nada dela e quando tentou falar algo, falou uma besteira imensa, pois Helen, como afirmam os críticos em resposta, não é invenção da dramaturgia de Marina Monteiro, mas sim personagem do conto da Virgínia.
    E mais: se Manoela se der mesmo ao trabalho de ler os textos de Marco Vasques e Rubens da Cunha verá que tirando esses dois abnegados, ninguém mais está discutindo estética em Santa Catarina. Isto vale para a Literatura, Cinema, Artes Visuais… Portanto o “povo do teatro” deveria ser dar por satisfeito por encontrarem eco e ressonância em seus trabalhos na figura de duas pessoas que poderiam muito bem ignorar a cena do Estado.
    E para finalizar: “Uma Sociedade” é um espetáculo monótono, sem direção e sem dramaturgia. Essa é a opinião de um amador que nada sabe de teatro. Mas como dizia meu professor de história: “o aluno pode não saber nada da matéria, contudo ele sabe se o professor domina, ou não, o que diz.”

    Vittorio Brausen

  • Fernanda Figueiredo

    Camilinha…o pior é que eu paguei, tu pagaste, nós pagamos por este espetáculo que sabe lá Deus quem aprovou…

  • Camila Figueiredo

    manoela, por que te calas? faltam-te argumentos?

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