Os Pecados de O SANTO INQUÉRITO

Os pecados de O Santo Inquérito

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

Dias Gomes é um dos nossos grandes dramaturgos. Tem no repertório inúmeras peças, das quais destacamos O Pagador de Promessas, As Primícias e, claro, O Santo Inquérito, que foi escrita em 1966. Existe um debate histórico sobre a existência ou não de Branca Dias, a personagem central da peça O Santo Inquérito, que esteve em cartaz, neste último final de semana, no teatro da UBRO, com direção de Marcello Serra. Embora esteja ambientada no século XVIII, é óbvio que Dias Gomes está fazendo nítida alegoria à Ditadura Militar então implantada a fórceps no Brasil. Portanto, pode-se deduzir que Branca Dias metaforiza uma multidão de gente mutilada, sumida e esmagada pelo autoritarismo, seja ele o religioso, o político ou o familiar de todas as épocas, de todos os tempos.

Como um dos personagens mais famosos de Dias Gomes, o Zé do Burro, de O Pagador de Promessas, Branca Dias não vem da aristocracia ou da intelectualidade vigente, mas das camadas mais populares, que enfrentam a tirania com ingenuidade, não conseguindo ver que, por trás das ações dos poderosos, há sempre o intuito de manter o poder, de permanecer no cume das verdades estabelecidas. Branca Dias, a jovem acusada de heresia, apenas cumpre a sina que ainda viceja em muito na sociedade atual: ter seus direitos sequestrados, entrar numa espiral de acusações infundadas, não ser ouvida ou defendida.

A atualidade da peça está em conseguir ser uma leitura para a década de 1960 no Brasil, bem como para os tempos atuais em que “Pinheirinhos” e “Cracolândias” ganham cada vez mais vida. Dessa forma, Branca Dias representa o drama humano presente em nossas ditaduras veladas, sutis: as ditaduras brancas, branquíssimas em que vivemos, nas quais o sistema político mata sem matar com omissões grotescas.

A peça apresentada fez parte da programação do Verão Cultural, organizado pela Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes. E aqui começam as perguntas: como uma instituição, que tem técnicos qualificados em teatro, comete o equívoco de inserir na sua programação um espetáculo tão ridiculamente primário? Como um diretor de teatro não percebe que todos os seus atores são menores que os personagens? Como não se avalia que nenhum ator está preparado para um texto tão denso e profundo? Por que se opta por expor atores que estão começando a fazer teatro, com uma montagem que exige mais do que eles, que ainda estão em processo de formação, têm a dar? Por que não se começar pelo começo? Por que não se deixa a pretensão em casa e se começa com uma dramaturgia adequada ao elenco? Por que um diretor não percebe suas próprias limitações? Por que exigir do outro o que ele não tem para dar? Por que fragilizar um monte de gente que deve amar o teatro? Por que não buscar uma “pedagogia teatral” que dignifique o outro? Por que diabos a lasvidade proposta por Dias Gomes foi descartada? Dessa forma, as interrogações que nos vêm, ao assistirmos a essa montagem de O Santo Inquérito, não são aquelas interrogações pertinentes que deviam vir de um objeto estético que faça diferença na vida do espectador: como isso me atingiu? O que eu farei com a carga de poesia e força transformadora que este objeto me forneceu?

Dessas perguntas todas, duas merecem um destaque maior, pois tudo que temos nessa montagem é novamente o que já questionamos em outras: a falta de uma leitura real do texto, profundidade, metáforas, contextualização histórica, percepções para além da palavra, para além da linha. Parece que há em muitos realizadores a incapacidade de se ler a entrelinha.

Clarice Lispector dizia que “escrever é uma pedra lançada no poço fundo”. Cabe, portanto, ao leitor ir lá, encontrar a pedra na escuridão, na sua própria escuridão. É um trabalho difícil e complexo. Talvez por isso muito dos realizadores teatrais, apressados que estão com a necessidade de “montar” a peça, esqueçam do mergulho sempre necessário no texto.

Outra questão que também levantamos muito é a de se insistir em colocar atores e atrizes inexperientes para viver personagens que são muito maiores do que eles. Na recente montagem, Marcello Serra quintuplica esse problema ao fazer com que Branca Dias seja interpretada por cinco atrizes, uma delas mal saindo da infância. Obviamente, a carga dramática exigida pela personagem se evaporou nos mesmos problemas de sempre: dicção problemática, gestual televisivo, incapacidade de pôr no corpo o desespero da personagem, cenas que eram para ser intensas, reveladoras da mesquinha condição humana, se tornam canhestras, imprecisas, risíveis.

 As atrizes se esforçam, tentam por todo jeito arrancar de dentro delas Branca Dias, mas falta-lhes o preparo, o entendimento daquilo tudo; falta-lhes a vivência, a compreensão de que a vida é definitivamente mais embaixo do que seus desejos de “brincar de teatro”. Nesse caso, a responsabilidade fica por conta do diretor e adaptador Marcello Serra e de sua assistente de direção Juliana Aguiar. Fica evidente a falta de recursos técnicos dos dois, que não conseguiram ler Dias Gomes, que não conseguiram entender o que está posto e que, provavelmente, não conseguiriam responder a nenhumas das questões que fizemos anteriormente.

Do texto à cena a coisa piora. Não bastasse não saberem ler um texto, eles não sabem ler o corpo, a voz, a vida de seus atores e permitem que a inexperiência do elenco se evidencie, tome conta do espetáculo, colocando todos em uma atuação constrangedora. (Destaca-se aqui que a única presença masculina no elenco é William S. de Souza, que apesar de ser mais velho, acompanha o grupo no constrangimento coletivo). Mesmo a quase ousadia de Marcello Serra em multiplicar a personagem, em fazer com que todas as atrizes se traduzam em Branca Dias, perde o seu poder metafórico de tentar trazer às mulheres as dores do mundo, porque não há organicidade na cena, porque não há uma motivação real para que isso aconteça. O que temos é um grupo que resolveu montar uma peça e para ter espaço em cena, divide-se a personagem principal, um pedacinho para cada atriz e pronto, está solucionado o problema. Isso sem falar na obviedade do figurino dos inquisidores: uma capa e narizes que levavam a ideia de ave de rapina, para mostrar como eles eram cruéis. O figurino escondia tudo: corpo e rosto das atrizes. Só não conseguiu esconder as suas nítidas deficiências.

Enfim, se Peter Brook e Artaud têm alguma razão em dizer que “teatro é vida” e “ato único”, o que se fez no Teatro da Ubro, no último final de semana, foi inverter a lógica da poética teatral. E o que se vê são “crianças”, que não têm culpa nenhuma, sendo levadas por uma direção irresponsável e medíocre. É verdade que Dias Gomes anda sumido dos nossos palcos e é preciso retomar sua dramaturgia combatente e de um humanismo ímpar. Porém, se é para fazer esse tipo de montagem superficial, destituído da força teatral proposta por Dias Gomes, é melhor deixá-lo quieto em seu canto. E ficar imaginando um diálogo entre Zé do Burro, Branca Dias e o aventureiro Quixote nos cantos das bibliotecas espalhadas Brasil afora. E a gente está farto de saber que é apenas uma montagem com estudantes, mas não podemos esquecer que isso não significa que tenha que ser feita de qualquer jeito. É bom lembrar, sempre, o quanto o teatro amador contribuiu para a profissionalização do Teatro Brasileiro.

FOTOS de GIL GUZZO, especial para REVISTA OSÍRIS

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21 respostas para “Os Pecados de O SANTO INQUÉRITO

  • Neusa

    Foram muitos os pecados, pobres meninas!!!!

  • Juliana Aguiar

    Vasques, eu vi sua critica em relação ao Santo Inquérito. Achei um pouco precipitada e exagerada apesar de concordar com algumas coisas. O Santo Inquérito foi resultado de uma montagem que é feita por alunos. Sendo uma montagem, o diretor Marcello Serra trabalha com experimentação. Sendo teatro amador acredito que isso seja possível. O Santo Inquérito esteve no festival a convite da fundação e qualquer um no lugar do diretor não negaria o convite mesmo sabendo das limitações de seus alunos. E ele sabe disso. Ele sabe de todos os defeitos e todas as qualidades dos atores. E o que você não sabe é o quanto o teatro é importante para as pessoas que alí estavam. O quanto eles se dedicam para tentar fazer o melhor. Eu não sei quanto a sua formação, acredito que não seja em teatro, mas a do Marcello Serra você pergunta depois pra ele

    • Marco Vasques / Rubens da Cunha

      Querida Juliana,

      a) “Precipitada e exagerada”? Bem, podemos assegurar que não fomos nem precipitados e, muito menos, exagerados. Ponderamos cada aspecto do trabalho. Ponderamos cada proposta. O que é um crítico se não aquele que analisa um trabalho partindo do que está proposto? A proposta do grupo, do Marcello é clara. Contudo a execução e o modo como o espetáculo foi colocado é que merece ser repensado. Você acha mesmo que todas as perguntas que fizemos a vocês vieram das nuvens? Um exercício legal para você e para o grupo seria pensar nas perguntas e nas possíveis respostas. O que acha? Ou então, outro exercício seria rebater as nossas perguntas com outras perguntas? Aí, de argumento em argumento, vamos criando um entendimento, um processo, um algo que seja proveitoso tanto para nós quanto para vocês;

      b) Você diz que “Marcello Serra” trabalha com experimentação. Você quis dizer experimental? Bem, se foi isso temos entendimento do que seja o teatro experimental; caso seja apenas experimentação mesmo, tudo bem. Todos têm o direito de experimentar o quanto quiser, mas quando se leva o trabalho ao público, sem avisá-lo de que é uma experiência com atores e atrizes amadores, além de aceitar participar do circuito cultural da cidade, o trabalho passa a ser experiência estética de todos, e passa a ser vista como produto final, ou bem próximo da finalização.. E temos que cuidar com isso, não acha?

      c) Sim, sabemos que o espetáculo foi convidado para participar do VERÃO CULTURAL. Mas não seria o caso de dizer que o trabalho é apenas um experimento, que talvez o lugar dele não seja ali naquele momento? Afinal, temos que pensar que muita gente pode estar indo ao teatro pela primeira vez, estar tento a sua primeira experiência estética com o teatro e aí se depara com um espetáculo imaturo apresentado num Festival, na Capital. Isso pode afastar gente do teatro, não acha?

      d) Todos temos limitações. A dedicação para fazer o melhor, às vezes, não resulta no melhor. Então o que fazer? Apresentar um trabalho só porque tem esforço e dedicação, ainda que contenha muitos problemas? São opções. E um livro lançando, um espetáculo em cartaz ou qualquer outra arte mostrada tem que saber trabalhar com o olhar do outro, pois não foi para o olhar do outro que o trabalho foi construído?

      e) Por que você acredita que a formação de Marco Vasques não é em teatro? Que tipo de formação você está falando? O que é formação para você? Se formação acadêmica fosse garantia de sucesso o teatro brasileiro, dado o número de doutores que tem, seria um dos melhores do mundo, não acha? Você está querendo dar uma cateiraço? Está pedindo Pedigree? Sinceramente Marco Vasques é uma das pessoas que conhece o teatro catarinense como ninguém, por dentro e por fora. Mas isso não está em questão aqui. Você não deve colocar em dúvida a formação de uma pessoa, que isso é ditadura, mas as ideias dela você pode e deve questionar com argumentos. E isso, Juliana. Abraços
      Marco Vasques e Rubens da Cunha

  • Marcello Serra

    Saudações Marco, saudações Rubens…

    Agradecemos a presença em nosso espetáculo neste último final de semana, mas talvez a crítica tenha sido um pouco severa demais. Explico: esta é a conclusão de uma oficina livre de montagem teatral, aberta à comunidade, e cujo propósito é fazer com que pessoas dos mais variados segmentos (passaram por aqui publicitários, funcionários públicos, estudantes, executivos, marceneiros, cobradores de ônibus, etc, etc, etc) experimentem o fazer teatral. Um de nossos objetivos, semestralmente, é fazer com que esses alunos-atores entrem em contato com dramaturgos e obras de renome, prática saudável e amplamente difundida. E assim pudemos presenciar o “maravilhamento” das pessoas ao se deparar pela primeira vez com esses autores, obras e idéias… Experimentamos Ionesco (“Os Rinocerontes”, que vc, Marco, sem querer assistiu, pois não sabia que era oficina), Eurípedes (“As Troianas”), Moliére (“O Doente Imaginário”), Nelson Rodrigues (“Viúva, porém Honesta”), Shakespeare (“Noite de Reis”), Jorge Andrade (“Vereda da Salvação”), e por aí vai… para que esses mesmos alunos possam conhecer (muitos nunca tinham ouvido falar nesses autores), apreciar, aprender, estudar, discutir e iniciar um processo de descobertas e superações. Temos pessoas neste elenco que estão subindo ao palco pela primeira e pela segunda vez. Portanto não pretendemos, e nunca nos passou pela cabeça, que fôssemos avaliados como um espetáculo profissional.
    Porém, sempre acreditei que, independente do resultado, a responsabilidade final recaia sobre o diretor (se o espetáculo é bom, mérito de todos os envolvidos, é claro…), e em momento algum isento-me dela (ao contrário, aceito-a com humildade). Acho que seria bem “interessante” sentarmos, um dia, nós três, para batermos um papo… É uma pena que não tenham visto os espetáculos profissionais que dirigi aqui, como “Passo de Dois”, de Eduardo Pavlovski, com Mariane Feil e Anderson Barbarotti, ou “Ainda É Cedo Amor”, de Gil Guzzo, com Gil Guzzo e Antonella Batista (depois Clarissa Ristoff). Ficaria “ingenuamente” curioso em ouvi-los…

    Ainda assim, agradecemos por expressarem suas opiniões, mesmo que, em alguns casos, obviamente, não compartilhemos delas (noutros, como as críticas aos espetáculos “As Três Irmãs”, da Traço, e “O Pequeno Inventário…”, da Téspis, “encaixaram-se” perfeitamente com nossas percepções) .

    Fica, então, o convite para que venham assistir ao próximo espetáculo profissional da Cia., que estreará em março, um belíssimo texto de Timochenco Wehbi.

    Abraço
    Marcello Serra

    • Marco Vasques / Rubens da Cunha

      Caro Marcello Serra, primeiro queremos registrar que nosso espaço é democrático e dialético. Não há censura aqui. Ainda que alguns textos direcionados a nós sejam altamente pessoais e, portanto, fogem do nosso propósito que é discutir estética e poética teatral. De todo modo, queremos agradecer seu retorno. Pelo menos você nos abre uma janela para o diálogo. E nossas críticas, no decorrer dos últimos anos, nada mais é que uma janela para o diálogo. Então precisamos pontuar algumas coisas:

      a) É preciso reafirmar que Marco Vasques não é único responsável pela crítica. Estes textos são assinados por Vasques e Rubens da Cunha, portanto, por justiça, todo texto aqui deve ser direcionado aos dois.

      b) Não assistimos teatro “sem querer”. Assistimos teatro por que amamos teatro e a poesia teatral. Assistimos a muitos dos seus trabalhos. Em Os Rinocerontes, por exemplo, você conseguiu driblar os problemas que apontamos em O SANTO INQUÉRITO; A peça Ainda é Cedo Amor também foi assistida por nós. Mas como sabe, não conseguimos escrever sobre todos os espetáculos.

      c) Você tem a responsabilidade de ter colocado a peça em cartaz, no Teatro da Ubro, no circuito cultural da cidade, dentro de um VERÃO CULTURAL; certo? Deu a peça um tratamento profissional com temporada e tudo, mesmo assim nós consideramos sim que é uma montagem amadora, por isso tantas perguntas na crítica, pois achamos que ela poderia ter tomado outro rumo se consideradas algumas questões que levantamos.

      d) Nós não deixamos de considerar que o trabalho é educativo, mas bem por isso tem que ser mais consequente, mais maduro para depois expor os atores ao público; portanto não tratamos vocês como profissionais. Inclusive nós titubeamos se escreveríamos ou não, e chegamos à conclusão de que deveríamos escrever.

      e) Quanto á aproximação que você diz querer de gente que nunca fez teatro ou que está começando com os clássicos, bem, é simples, basta lerem os clássicos primeiro, saborear o texto, entrar nele. Fazer trabalhos menores nestes casos nos parece a saída mais viável para não se incorrer na série de riscos que você correu e não deu conta de solucionar, normal, afinal são atores e atrizes em formação, ainda sem a experiência necessária. Por isso a nossa insistência em se começar com textos menores, mais leves, mais propícios ao “tamanho” dos atores iniciantes. Assim que eles forem adquirindo experiência a complexidade pode ser aumentada.

      f) Iremos sim, com o maior prazer, e desejamos que você faça boas direções para que nós possamos, também, exercitar a crítica positiva;

      g) Queremos também deixar claro que não temos nada contra você ou contra qualquer profissional da sua equipe, bem pelo contrário. Sabemos sim que montar um espetáculo demanda tempo, esforço, dedicação, mas infelizmente o resultado final nem sempre é o esperado. E você sabe muito bem que “teatro é a arte do risco”. Ninguém acerta sempre, nem os artistas mais geniais.

      h) Por fim, Oscar Wilde sempre disse que são os pensamentos divergentes que legitimam uma obra de arte; nós achamos que a tristeza mesmo para um trabalho é o silêncio. E, em Santa Catarina, ninguém fala nada de nada, nós continuaremos o nosso trabalho e vocês continuarão o de vocês. Não somos inimigos, estamos do mesmo lado. Pode acreditar.

      i) Quanto a Juliana, bem, a provocação dela será respondida com outras provocações.

  • Cláudia Leivas

    Percebi de forma positiva a atuação de cinco atrizes diferentes – apesar da inexperiência – para a mesma personagem, pois suavizou o tema tão pesado!

    • Marco Vasques / Rubens da Cunha

      Cláudia,

      A ideia até é interessante, mas teatro não se faz só com ideias, se faz com corpo, voz, som, silêncio, ação, movimento, dramaturgias e muitos outros componentes. Entendemos de modo totalmente oposto ao seu a divisão das personagens. O recurso fragilizou Branca Dias esvaziando a força aterradora existente em seu drama, que é o drama de muitos mundos. É só olhar ao nosso redor. O tema não foi suavizado, porque ele não se realizou. Se você está se referindo ao termo “tema” para dizer “dramaturgia do texto” e a “mensagem textual”, aí a coisa gera outra discussão.

  • Debora Felipe

    Oi, boa tarde! Ah, que pena que vocês não gostaram! Para mim foi muito gratificante participar de uma montagem como essa, é um prazer poder sair um pouco da minha realidade diária, para sonhar e vivenciar uma arte tão rica e envolvedora como o teatro. Particularmente me senti muito honrada com o convite da Fundação Franklin Cascaes, nunca imaginei que eu pudesse me apresentar num Festival, achei fantástica a iniciativa da Fundação de abrir espaço para mostrar o resultado de uma oficina de montagem! Acredito que essa é a função de uma Fundação Cultural, promover a democratização da cultura, abrir espaço para a experimentação artística e estimular a comunidade a participar. Algumas pessoas inclusive, no final da peça, vieram me perguntar sobre as aulas. Ponto para Fundação Franklin Cascaes!

    A arte é para todos e eu sei que vocês concordam com isso! Essa história me fez lembrar de uma amiga de oficina que antes de entrar no palco sempre olha pra gente arregalada, quase morrendo do coração e fala “ Meu Deus o que eu to fazendo aqui? Podia estar em casa vendo televisão sossegada, podia estar dormindo”, hehe… Mas não! Nós escolhemos estar ali, é nosso universo paralelo, nosso momento. Esse é o espírito do nosso grupo: nosso desafio está dentro de nós. Sem pretensões, sem preconceitos, apenas com nossa coragem, ou cara de pau se preferir assim.

    É legal registrar que desde que as oficinas começaram (essa foi a nona montagem se não me engano), pelos menos 5 pessoas que iniciaram com o Diretor Marcello Serra hoje estudam Artes Cênicas. Eles vão virar profissionais, não é o máximo? Sendo ainda que duas dessas pessoas que mencionei têm mais de 40 anos, olha que orgulho (uma delas é aquela que quase sempre morre do coração)!

    Respeito sua crítica, achei divertido ter minha habilidade de atuação superestimada. Mas não pense que eu estava me sentindo fragilizada no palco, eu estava me sentindo muito feliz.

    Venham nos assistir mais vezes, ou melhor venham fazer algumas aulas com a gente, é libertador! E será um prazer recebê-los.

    Débora (uma das Brancas, publicitária, marketeira, executiva, produtora de eventos e uma feliz atriz nas horas vagas, ufa!)

    • Marco Vasques / Rubens da Cunha

      Bem, vamos lá novamente:

      a) Ficamos extremamente felizes em saber que nossas ideias se confirmam. Não temos nada contra Arte e Educação. Somos defensores da ideia e achamos que toda escola seja pública, livre ou privada tem que ter um profissional de Teatro, Música, Literatura… para aproximar as pessoas desses “universos paralelos”.

      b) Temos que pensar que cada coisa tem um lugar, que cada trabalho tem um objetivo. E nos parece, repetindo novamente, que o trabalho de vocês está deslocado, apenas isso. Já assistimos a muito teatro amador, reiteramos que ainda assim ele tem que obedecer certos critérios já apontados na crítica como faltante na montagem de vocês.

      c) Nós somos analistas de teatro, pensadores da arte e nos propusemos a ler e escrever sobre o trabalho de vocês. Como disse certa vez, não somos cabeleireiros, para alisar cabelos já temos um monte de salão de beleza, pais, tios e amigos. Interessa-nos o resultado que vocês nos apresentaram.

      d) Achamos uma irresponsabilidade da Fundação Franklin Cascaes convidar vocês para uma temporada. Porque se vocês estivessem apresentando num festival de arte educação, numa mostra escolar ou num festival dirigido para amadores, nós seríamos os primeiros a aplaudir de pé. Como fizemos com o Circuito Universitário da UDESC no Isnard Azevedo, que acabou sendo, sem a pretensão de ser, a grande revelação do festival do ano passado.

      e) A felicidade de que você fala tem muito pouco a ver com arte. Tem mais a ver com suas satisfações pessoas, que é obvio importam bastante, mas para você. Para o espectador que vai ao teatro, via de regra, importa a ele o teatro apresentado. Apenas isso.

      f) Em outros tempos diríamos que desconhecemos pessoas felizes que tenham nos deixado alguma arte significativa, mas hoje pensamos que as pessoas podem ser felizes, mas nós, espectadores, temos que ter alguma felicidade também, não acha?

      g) Quanto a fazer oficinas com vocês, muito grato! Somos gratos mesmo, mas já estamos libertos! Você pode fazer o que quiser no seu final da semana para ser feliz, inclusive teatro. Agora, não precisa sair por aí apresentando nos mais importantes teatros da cidade para tornar o nosso final de semana sem sabor estético.

      h) Temos percepções diferentes nas seguintes questões: para que serve o teatro? Por que fazer teatro? Para quem fazer teatro? Achamos muito curioso o seu depoimento. Ele só afirma tudo o que dissemos na crítica, que pode servir para o grupo repensar algumas coisas. E mais uma vez queremos dizer que a crítica é assinada por duas pessoas, não por uma.

      Abraços macambúzios

  • Regius Brandão

    Eu tenho o dever de entrar numa discussão destas quando vejo as coisas chegarem neste nível de discussão que estão chegando. Só peço que aos amigos envolvidos não passem a me querer mal por isto, Por lutar para dignificar o exercício de uma profissão que escolhi quando muito de vocês ainda nem sonhavam em nascer. Mas este último comentário, da Debora, publicitária e atriz nas horas vagas me revolveu o estômago.
    Vou começar pelo seu começo infeliz: ” ..Ah, que pena que vocês não gostaram! Para mim foi muito gratificante participar de uma montagem como essa, é um prazer poder sair um pouco da minha realidade diária, para sonhar …” Mas isto é coisa que uma atriz diga para o seu público? Sim porque os críticos por mais “malvados” que eles sejam fazem parte do público, da platéia, daquilo que nos chamamos de respeitável público.
    E ela continua…”respeito sua crítica, achei divertido ter minha habilidade de atuação superestimada… ”
    Em outras palavras; eu posso estar fazendo uma merda (eu não sei se era, eu não assisti este espetáculo) mas eu estava feliz e isto é o que importa…Mas em que escola de teatro ensinam isto? Na do Marcello Serra eu tenho certeza que não é, eu o conheço. Não pode ser!
    E depois ainda…”venham fazer aulas com a gente, é libertador..”
    Eu realmente devo estar vivendo num mundo que não existe mais. Eu acho que todo mundo tem direito de fazer a terapia que bem desejar, até teatro. Mas eu ter que pagar para que esta pessoa, que pensa assim da profissão de uma atriz, ocupe o lugar de uma atriz, de um ator, num teatro oficial da cidade, numa programação que pretende estimular o público a assistir teatro, é para mim uma ofensa.
    A arte é realmente para todos e todos podem sonhar em ser aquilo que ainda não são. Mas a humildade é prima irmã da sabedoria.
    E eu que sou ator há mais de trinta anos, que tenho em minha bagagem mais de sessenta indicações a prêmios e muitos deles, que já estudei com grandes mestres, que mantenho uma escola e procuro ensinar ética, exito em apresentar uma peça quando acho que ela não está bem ensaiada.
    Eu levei muitos anos até pisar no palco do principal teatro da minha cidade, Porto Alegre. O Theatro São Pedro. um dos melhores do país. Quando o dia chegou! O diretor da peça nos chamou e disse: Este palco é sagrado! Por aqui passaram, Fernanda Montenegro, Cacilda Becker, Paulo Autran, Bibi Ferreira entre tantos. Dignifiquem este momento! Acho que eu ainda carrego esta coisa velha da diginidade, quem sabe fora de moda num muno onde a usa do BBB vira atriz.

  • Regius Brandão

    Eu ontem acabei entrando numa discussão que eu não deveria ter entrado. Mas a minha indignação com a forma que pretensos atores e atrizes hoje compreendem o que seja o trabalho de um ator de uma atriz no teatro não se contem diante de tanta precariedade.
    Nossos jovens hoje têm uma formação cultural precária demais. Eu recebo gente querendo ser ator, ser atriz há anos e com raras exceções, o que eles trazem, a idéia que eles tem de uma representação no teatro é baseada em malhação ou zorra total.
    Claro, vivemos num mundo que oferece também poucas oportunidades para estes jovens se tornarem pessoas mais cultas, mais reflexivas, mais engajadas social e politicamente. Mea culpa, mea culpa, me culpa!
    O problema desta pobreza cultural em que vivemos é que faz com que todo mundo se ache. Os alunos hoje são petulantes com seus mestres num nível de irracionalidade. Acham que tem todo direito de falar no celular na sala aula e por ai vai. Confundem coragem com pretensão. É preciso coragem sim para ser ator, atriz, se revelar diante de uma platéia. Pretensão é não saber se auto-avaliar, não se conhecer e se achar a rainha da cocada preta. Os pais, os amiguinhos e os maus professores podem até aplaudir de pé. Muitos envelhecem sem que venha alguém e lhe diga o que ele deveria ouvir. Vivemos numa sociedade cínica demais, não nos esqueçamos disto.
    Eu já vi a Denise Stoklos ter que parar uma estréia no meio por causa da vaia da platéia. Ela havia recebido dinheiro público para tal apresentação. O público não gostou e fez ela sair de cena. Aí a mocinha deslumbrada do Grajaú vai me perguntar: que é esta Denise Stoklos?
    Mas neste caso a Denise Stoklos foi sábia. Ela não se defendeu. Baixou a cabeça e foi trabalhar num outro espetáculo. E voltou pra cena sendo aplaudida de pé como quase sempre acontece em sua carreira, salvo tropeços que fazem parte da trajetória de um artista de verdade.
    O Dustin Hoffman fazia a Morte do Caixeiro Viajante numa turnê e foi se apresentar em Boston. Dizem que Boston é o público mais crítico dos Estados Unidos. O público não gostou de seu trabalho naquela noite e quando foi sozinho a frente agradecer aos aplausos, o público se manteve estático. Esperou o segundo ator vir e o aplaudiu de pé. O Dustin Hoffmann saiu dizendo ironias para a platéia? Não. Ele é um grande ator. E um grande ator sabe reconhecer quando não está bem. Sabe que a platéia é com quem ele joga o jogo e a respeita a priori.
    Portanto eu sempre acho que pra alguém vir a ser um bom ator, uma boa atriz, precisa antes de mais nada ser uma boa platéia. E o que é uma boa platéia? Pode parecer mentira o que eu vou dizer, mas tem gente que vai cursar artes cênicas na universidade sem nunca ter assistido uma peça de teatro em sua vida. E neste mundo precário nós vivemos. Volta e meia você ouve falar de um péssimo médico, de um advogado picareta, de um economista corrupto.
    Felizmente fazer uma má apresentação no teatro não dá processo, não dá cadeia. Dá no máximo uma vaia, mas noutro dia você pode tentar de novo se o seu ego resistir. E do jeito que a coisa vai, é mais fácil ser aplaudido de pé. Por que graças ao facebook, as redes sociais, hoje podemos lotar o teatro de amigos.

    • Leonardo Dicker

      Acho que a MELHOR frase do Regius Brandão foi: “Eu ontem acabei entrando numa discussão que eu não deveria ter entrado.”

      Agora entendo a fama que possui.

      Leonardo

      • Regius Brandão

        Meu caro, e vc está fazendo o que nesta discussão? Eu nào devia ter entrado porque ia acabar sofrendo com ela. Mas vc vê alguma razão para que eu não participe de uma discussão num site público e que casualmente trata de assuntos da área na qual trabalho?

  • Bárbara Bom

    Bem, acho que se fossemos atores profissas e renomados não nos dariamos o trabalho de responder nos comentários de um post “critica” de um blogueiro.

    Tudo está sendo superestimado…Florianópolis, o festival, a Ubro, a peça…

    • Marco Vasques / Rubens da Cunha

      Bem, como se vê você continua perdida. Nós somos escritores e editores da REVISTA OSÍRIS – LITERATURA E ARTE, que tem, também, três blogs. Postamos as críticas que publicamos em jornais, revistas, jornais alternativos e livros. Nada está superestimado, nada!

    • MaxReinert

      Não entendi!!! Ser “blogueiro” é ruim? Eu conheço tantos blogueiros que são importantes para a economia e para a democracia em vários países do mundo…..

      Atores profissas (SIC) e renomados são, na maioria das vezes, super acessíveis e educados. Conseguiram renome em sua profissão porque sabem o que fazem e por que o fazem.

  • Fernando Brás

    Em meu caminho, decidi que é importante estar por dentro dos acontecimentos da arte em todos os locais deste país. Assim podemos conhecer melhor o que é feito e a quem podemos dar credibilidade por suas opiniões.

    Felizmente, a internet possibilita tal pretensão e, por isso, esta revista faz parte de minha leitura.

    Dificilmente me posiciono, porém, lendo esta matéria e percebendo ao ponto que chegou, resolvi postar resumidamente minha opinião.

    Sobre a crítica, não poderei opinar, já que não vi a peça. Até porque seria difícil vê-la aqui do Rio de Janeiro.

    Lendo o “argumento” da assistente de direção Juliana Aguiar, fico impressionado como se alastra este tipo de posição em nosso meio.

    Registro minha análise:

    1° – Jamais julgue alguém pela sua formação. A formação pode ser ou não importante. Ela é embriagante, porém, para aqueles que imergem na teoria. A formação em si, o diploma, não diz nada. Teoria não é nada sem prática e vice-versa.

    2° – O posicionamento agressivo, mesmo que maquiado, só demonstra a imaturidade e prepotência das pessoas. Perguntar se alguém é “algo” ou indicar que tal se dirija a “alguém” como forma de “argumento” é, no mínimo, infantil.

    3° – Aqui vemos aos milhares pessoas que estão no início do processo de formação – não acadêmica e sim da vida profissional-, achar-se no direito de ser prepotente, pois foram colocadas – em geral não sendo a intenção de quem delega, mas sim, pela imaturidade de vivência do delegado -, a prepotência gerada por estar em posição privilegiada. Não se dando conta que, na prática, o ensinamento maior é para quem está em posição de gerência.
    Sinceramente, isto é uma crítica construtiva, se avaliada, altamente construtiva.

  • Marco Vasques / Rubens da Cunha

    Fernando, pensamos assim também. E a internet, ao contrário do que muitos pensam, está possibilitando este debate. Nós temos, também, espaço nos jornais impressos de Santa Catarina. Uma vez por semana e, às vezes, nos finais de semana. Mas como estamos todos cansados de saber, estes espaços são reduzidos para o exercício crítico. Forte abraço.

  • Carolina

    Olá, gente!
    Entro aqui, meio de gaiato nesta discussão. Não sei se é o certo, mas acho que, estando também numa outra posição, a de estudante de teatro, devo me posicionar.
    Sou daqui de Floripa e morei em São Paulo. Lá pesquisei diversos cursos de formação profissional de ator e entrei num com o nome de um renomado diretor de tv. Escolhi tal curso porque era o que melhor ensinava atuação para diversos meios. Obviamente ouvi várias críticas, dizendo que fiz uma escolha ruim, que era um lugar onde só tinha gente bonita, ex-bbbs, etc., que era só nome e mais um monte de bobagens cheias de preconceitos.
    Só que nesse curso aprendi a valorizar mais essa bela profissão. E aprendi que realmente não é fácil trabalhar com essa arte. Não só pela dificuldade de se achar um lugar no pouco espaço que tem, mas a dificuldade de se encaixar e entender o que o autor nos propõe. Eu e meus colegas levamos muitos foras dos professores, muitos “tapas na cara”. Lá, as montagens teatrais só acontecem nos dois últimos módulos, e são seis, porque segundo o coordenador, antes disso os alunos ainda não estão preparados para apresentar. Alumas peças que já foram apresentadas (e com qualidade) são “Antígona”, “O Rei da Vela”, “Hamlet”, fragmentos de Nelson Rodrigues. No primeiro semestre tivemos muitos exercícios, fizemos cenas, tivemos que ler muito e fazer prova escrita. O livro base foi ” A preparação do ator”, além deste tiveram mais quatro. Fora isso, tivemos que, a cada mês, assistir a uma peça que era determinada pelo coordenador e fazer uma resenha. Isso também acontecia com filmes, mas não esses populares, lançamentos de cinema, mas os mais “artísticos”, como “O Baile”, de Ettore Scola. No segundo semestre, tivemos mais exercícios e tivemos que realizar cenas, como uma apresentação de uma peça, em duplas. O autor era o Martins Pena. Tivemos que estudar o autor, pesquisar a sociedade da época, estudar o que ele desejava com suas peças e pesquisar indumentária. Foram vários ensaios de duplas orientados pela professora, e diversos “volta que tá horrível” ou “não está entendendo a personagem”, trocas de personagens porque o aluno não estava se encaixando e até alguns “você tem que pensar se é isso mesmo o que você quer como profissão”. No final disso tudo? Era uma apresentação mais ‘formal” digamos assim, com cenários e figurinos criados por nós alunos e apresentados para a turma e a mesma professora. Nesse semestre, tivemos também o estudo da história brasileira e a história mundial do teatro, sendo que tivemos que realizar cenas de cada época que estudamos. Para fazermos um experimento de como era. Infelizmente, por motivos particulares, tive que trancar o curso e meses depois voltei para Florianopolis com minha família. Aqui, ainda estou buscando cursos para dar continuidade e me tornar uma atriz profissional. Agora estou lendo “A construção do personagem”, por conta própria. O que estou querendo com tudo o que coloquei? Não, não é me gabar do curso e das peças encenadas. Também não assisti à peça criticada e não é a minha pretensão colocar-me acima disso. O que eu acho um absurdo é ver pessoas que fazem um curso de teatro e agem como um cursinho de hobby, serem tão valorizados como um profissional. Fiz e ainda faço muito esforço para me tornar o melhor que posso ser nessa profissão. E ainda tenho muito a aprender. E também ainda tenho um tanto para caminhar e me tornar de fato uma profissional. Ver comentários do tipo “ah, me faz bem”, “é uma terapia”, etc. fazem parecer que o esforço é em vão. Atores profissionais cansam de reclamar que quando dizem que são atores, algumas pessoas rebatem com “mas trabalha em quê?”. E são essas pessoas que acham que teatro é isso, uma brincadeira, um hobby, uma terapia. Pode até ser, mas como os críticos aqui falaram, no seu devido lugar.
    Desculpem pelo desabafo, mas não me aguentei!

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