Do Avesso: do cômico ao trágico

Do Avesso: do cômico ao trágico 

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

O espetáculo Do Avesso já nasce espinafrando a gramática e ampliando o sentido da expressão. Se tomarmos por conta o cenário, basicamente constituído por um varal cheio de roupas, a gramática nos diria que estaríamos Pelo Avesso, o que também nos traria, em suas entrelinhas, conotações outras. Mas isso é só para dizer que a brincadeira começa já no título e se expande por cada quadro. Se a gramática representa o autoritarismo, a repressão, o mundo dos eleitos e dos vencedores, os personagens de Do Avesso vão, justamente, ser buscados no mundo dos não eleitos, dos esquecidos, dos derrotados, dos que vivem à margem da cultura oficial. É do mundo vivamente trágico que nasce a comicidade do trabalho.

Se a tragédia se alimenta de atos heroicos e grandes feitos, isto é, das questões ditas “sérias”, a comédia, tradicionalmente, adentra nos pequenos vícios e defeitos humanos. Em O Banquete, Platão atribui a Sócrates um posicionamento inusitado para a época: a possibilidade de um mesmo homem saber fazer uma comédia e uma tragédia, pois ambas viriam de algo maior – a arte. Assim, “aquele que com arte é um poeta trágico é também um poeta cômico”, diz Sócrates. Apesar de toda a trajetória artística pela qual a humanidade passou nos milênios seguintes, a divisão entre tragédia e comédia, permanece.

Geralmente, a segunda é tida como algo inferior, menor, enquanto fica por conta da tragédia a representação do que seria realmente a arte. Atualmente, nesses tempos em que a mistura é uma das principais características, já há um abrandamento nessa dicotomia criada em torno do trágico e do cômico. O humor invadiu o trágico, e o trágico, muitas vezes, sustenta as comédias mais rasgadas. Embora muitos substratos dessa divisão sejam reafirmados pela crítica tradicional, é impossível fechar os olhos para as mesclas, as misturas existentes entre os gêneros. Essa combinação pode ser antevista no espetáculo Do avesso, dirigido por Renato Turnes.

No múltiplo-monólogo a atriz Milena Moraes se desdobra em seis personagens, abarcando alguns esteriótipos femininos: a compulsiva, a atendente de check in em TPM constante, a dona de casa nordestina, a vilã maquiavélica e a noiva abandonada. Sai desse esquema, Mixirica, um menor abandonado, ou abandonada, já que o personagem não estabelece de forma tão clara seu gênero. É desses mundos ínfimos em tempos de grandezas que as cenas se desenrolarão quadro a quadro, sempre com o retorno da nordestina migrante. 

O que se vê nesse espetáculo é o evidente domínio técnico de Milena Moraes na caracterização cômica dessas pessoas. O texto, de autoria da própria atriz em parceria com Malcon Bauer, equilibra-se entre a obviedade de algumas piadas e o inusitado de outras. Como se sabe, a força do humor está em fazer o público rir daquilo que ele identifica previamente. O humor é uma arte de contexto, de saber do que se fala e nesse ponto a trilha sonora usada ajuda muito, pois toca na memória afetiva dos espectadores mais velhos, e traz aos novos alguns clássicos da música popular brasileira. Não aquela elitizada e culta de Caetanos e Gils, mas a “música bem popular brasileira” feita por Ângelo Máximo, Diana, Jerry Adriani, Reginaldo Rossi, Carlos Gonzaga e afins. Introduzir a cena da noiva abandonada, por exemplo, com a música “Quando ainda queima a esperança”, de Diana, aumenta, sobremaneira, a carga da comédia, e porque não, do trágico, que envolve a cena.

Do Avesso possui problemas estruturais localizados na dramaturgia e na passagem de um personagem para outro. Falta justamente a definição de se percorrer a estética do teatro de revista, em que os quadros não estão necessariamente ligados, ou por uma composição que una todas essas personagens de forma a não comprometer o ritmo do trabalho. Claro que todos os quadros estão unidos porque os personagens são seres das margens, das bordas; estão unidos por suas frustrações e por suas belezas. O que falta é ritmar essas vidas em suas frequências tão díspares, mas tão iguais. Os problemas citados podem ser sanados, para dar mais fôlego ao talento luminar de Milena Moraes, que tem pleno domínio do corpo, da voz e da plateia. 

Apesar de trabalhar a partir de quadros, a concepção foi a de costurá-los todos pela primeira personagem que se apresenta, a dona de casa, nordestina, que lava roupa pra fora e que foi “medicada” por uma amiga com a velha e boa Cannabis. A partir das roupas estendidas no varal, as outras personagens surgem do cenário que é constituído por um rádio, um balde, um buquê de flores, um cesto de roupas e um varal onde as roupas serão estendidas e depois retidas uma a uma para a composição de cada tipo. O problema está justamente nessa tentativa de fio condutor. É muito tênue, em alguns se aproximando da superficialidade, como no caso do personagem Mixirica.

Há momentos em que outras personagens ficam conectadas apenas pelas roupas e um tanto quanto descontextualizadas no cenário. A opção mais segura seria assumir os quadros separados e pronto, ou, ainda, criar uma dramaturgia mais efetiva entre uma cena e outra. Esse é outro ponto a ser salientado, o “durante” da cena é muito bom, mas o “fim”, ou a “passagem” de um personagem para o outro, carece de ritmo, de força.

A personagem compulsiva, por exemplo, sai abruptamente de cena, sem render tudo o que poderia, já que a caracterização física e psicológica da personagem daria muito mais pano pra manga. Essa questão do ritmo também merece ser repensada pelos realizadores da peça, sobretudo o começo, cuja longa ação em silêncio cria uma expectativa desnecessária no espectador. Socorro, a personagem que abre e conduz o espetáculo, tinha que entrar falando, mostrar rapidamente a que veio, impor-se ao público como presença cômica e depois, ao poucos, revelar sua força poética, sua força tragicômica.

Milena, em grande performance, dá conta dos seis personagens. Contudo, Perfídia, a vilã da radionovela, é a mais fora de contexto e menos engraçada. Há, nessa cena, uma narrativa em off, além da tentativa de trabalhar com a metalinguagem. Outro ponto é que a ação de Milena, muitas vezes, repete o que está sendo narrado, gerando uma cena over, que poderia facilmente ceder espaço à Maria Marta, a compulsiva, ou mesmo a melhor de todas: Heide, uma quase aeromoça, que só não conseguiu encarar a profissão porque sofre de pânico. Com essa personagem, Milena transita facilmente entre a comédia mais escrachada, física e as sutilezas e contrastes existentes entre a língua portuguesa e espanhola.

A estratificação dos conceitos em torno da comédia e da tragédia, obviamente, se expandiu para todos os profissionais do teatro com uma grande carga de preconceito. Dessa forma se tem generalizado que atores, diretores e dramaturgos que trabalham a comicidade são profissionais de menor capacidade. O que não passa de um engodo; aos críticos também se estabeleceu que nunca escrevem sobre comédias e que preferem os dramas, outro engodo. Do Avesso é um espetáculo que precisa de ajustes estruturais, mas que possui uma atriz com pleno domínio do espaço, presença física e psicológica, domínio da vida de cada personagem que representa, que vive. Ajustando-o, pode, facilmente, se tornar um dos principais espetáculos cômicos produzidosem Santa Catarina. E o mais importante é que estamos diante uma comicidade inteligente. Do Avesso, pela via do cômico, revela toda a tragédia social em que estamos imersos.

 

FOTOS DE RENATO TURNES

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