LULU NÃO MORA MAIS AQUI

Lulu Não Mora Mais Aqui

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

 O teatro feito para o público infantil, em Santa Catarina, sempre foi um tema espinhoso e delicado. Contudo, temos algumas experiências contundentes em cidades como Joinville, Itajaí, Blumenau, Rio do Sul e Criciúma. O espetáculo A Caixa, da Cia. Mútua, de Itajaí, é um exemplo perfeito de como o teatro feito para crianças pode ser poético, inteligente e driblar as convenções e estigmas que imperam no gênero. Driblar, sobretudo, a “teatralização” da teatralidade, isto é, fugir da pasteurização e da ingenuidade que costuma permear as montagens destinadas a esse público.

O Brasil, na última década, foi invadido pelo stand up comedy, gênero que faz sucesso entre adolescentes e jovens. Apesar de algumas experiências anteriores, como a de José Vasconcelos, Chico Anísio ou Jô Soares, o stand up, ou a comédia em pé, entrou de vez no gosto popular a partir dos anos 2000. A internet teve um papel decisivo no fortalecimento desse tipo de humor, revelando novos nomes, divulgando as polêmicas em que alguns de seus representantes se envolveram, trazendo o modelo, há muito praticado, sobretudo nos Estados Unidos, para um público jovem. Apesar de alguns excessos, esse tipo de humor tem dominado a cena, e vem provocando uma discussão sobre os limites do humor, sobre censura, liberdade de expressão e os limites do teatro e do ator.

Tradicionalmente, o stand up é um humor de cara limpa. Não há cenário, não há personagem. Trata-se apenas de um ator dizendo um texto da forma mais engraçada possível. Porém, algumas variações ocorreram e o stand up alargou essa premissa, pois alguns espetáculos são feitos a partir de personagens, como é o caso do Terça Insana e, em Florianópolis, do Teatro de Quinta.

A peça Lulu Não Mora Mais Aqui,  que esteve em cartaz no Teatro Armação, com direção de Daniel Olivetto e atuação de Grazi Meyer, propõe algo inusitado a partir desse modelo: um stand up infanto-juvenil. A personagem que Grazi interpreta foi primeiramente destinada ao público adulto no Teatro de Quinta. Na adaptação feita para o público infanto-juvenil, Lulu é uma menina de oito anos que fugiu de casa. Vive num mundo de fantasias e brincadeiras e conta suas agruras infantis no microfone: a relação com os pais, os irmãos, os avós, com os brinquedos, com a amiga invisível Rebeca. Entremeadas ao seu relato, vozes em off de crianças falando do que querem ser quando crescer, de como são os pais, os irmãos e os avós.

Trata-se de um trabalho que poderia render mais se a mistura entre teatro tradicional (cenário, ação, interpretação, iluminação) e stand up não ocorresse tanto. O inusitado stand up infanto-juvenil proposto sai muitas vezes de cena para Grazi atuar dentro da forma convencional de teatro infantil, seja fazendo brincadeiras culinárias, seja bancando a repórter e entrevistando seu pai e sua mãe. Nesses momentos, o diretor não percebe que a “teatralização” invade o trabalho, enfraquecendo a proposta original.

Quando a personagem vem ao microfone e conta sua história, assume que está fazendo stand up, o espetáculo cresce devido ao domínio que Grazi tem dessa técnica. Já nas tentativas de mostrar o mundo inventivo de Lulu, o trabalho sai de foco, abusa de alguns clichês infantis, além de infantilizar a personagem. Quando se opta por apenas falar sua experiência, dizer o seu mundo, o riso aparece e a força original da proposta acontece. Um exemplo desse acontecimento teatral é a cena em que a personagem revela porque fugiu de casa. Não há teatrinho, há apenas a fala da personagem muito bem interpretada por Grazi.

A atriz propõe alguns jogos cênicos com a plateia, com a amiga invisível Rebeca, com Simone, uma boneca sem pernas e sem braço, e Rodrigo, um urso de pelúcia. A presença física dos objetos nas cenas, sem um tratamento capaz de seduzir o olhar livre da criança, enfraquece um pouco todo o universo que poderia ser imaginado pelo espectador, seja ele criança ou não. A contaminação da linguagem teatral dita convencional e do teatro de animação com a linguagem do stand up não acontece se traduz nas teatralidades propostas. Rebeca, por exemplo, necessita pulsar na cena, precisa fazer sua invisibilidade crível para que o espectador também possa jogar com a sua ausência-presença.

Lulu Não Mora Mais Aqui precisa assumir sua faceta stand up ou reformular a dramaturgia de modo que a manipulação dos objetos ganhe sentido na cena e no jogo com a atriz e a plateia. E o diretor Daniel Olivetto tem todo o material à sua disposição: uma grande atriz e uma costura inteligente em que vozes de crianças imaginam o mundo adulto e vozes de adulto sonham com o retorno à infância. É preciso dizer que estamos diante de uma proposta que traz, em si, um tom poético, delicado e foge do stand up que não raro sobrevivem de piadas racistas, homofóbicas e enxertadas de toda sorte de preconceito. Contudo, fica evidente a necessidade de organizar as suas várias camadas dramatúrgicas para que possamos viver e sonhar o mundo caótico de Lulu.

Em relação aos depoimentos das crianças e adultos, que costuram a dramaturgia textual criada por Grazi, talvez se obtivesse uma carga poética maior se fossem entrevistadas crianças e adultos de vários extratos sociais. Já que todos partem praticamente do mesmo universo, as falas, em muitos momentos, se tornam repetitivas. Ainda assim, Lulu Não Mora Mais Aqui, feita a garimpagem necessária, abre uma nova janela para o teatro feito para crianças em Santa Catarina. E como precisamos dessa nova janela!  

FOTOS DE CRISTIANO PRIM

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