Passarópolis da Cia. Carona, de Blumenau

PASSARÓPOLIS

 POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

O personagem Evélpido, da peça As Aves, de Aristófanes, fala sobre Atenas: “O problema é a corrupção dos seus habitantes. Os atenienses vivem empoleirados em processos judiciais. E os burocratas e os delatores profissionais? E os cidadãos que ganham três óbolos por dia para participar das assembleias?”. Dois milênios e meio se passaram e as denúncias de Aristófanes continuam atualíssimas. Tão atual que a Cia. Carona, de Blumenau, se apropriou do texto original do dramaturgo para a montagem de Passarópolis, que foi apresentada no sábado, dia 24 de março, na Maratona Cultural de Florianópolis.

A Cia Carona vem dividindo suas montagens em duas estéticas aparentemente distintas, mas que estão em permanente contaminação. Espetáculos como A Parte Doente e Os Camaradas levam até as últimas consequências a discussão sobre a condição do homem perdido em si mesmo, agarrado aos seus desesperos e buscas existenciais. Espetáculo como O Homem ajuda o Homem e Passarópolis, embora não deixem de discutir a condição do homem em sua essência, evidenciam o comprometimento político e o engajamento do grupo nas denúncias sobre toda sorte de autoritarismo e corrupção que jogam milhares e milhares de pessoas ao abandono, à fome, à miséria, isto é, a margem da margem.

A comédia de Aristófanes ganha contornos tragicômicos na releitura da Cia Carona. O texto é assinada pelo dramaturgo Gregory Haertel, que soube contextualizar a sátira social e política de Aristófanes aos nossos dias. A partir de um casal de artistas de rua, que promete mostrar um pássaro com poderes de transformar a existência das pessoas, a cena se desenrola e o público começa a sofrer a contaminação que o espetáculo propõe.

A releitura de Gregory Haertel e a direção de Pépe Sedrez caminham o tempo todo no fio da navalha, entre a denúncia e o panfletário, entre a surpresa e o clichê. O fato é que, apesar dos riscos, em nenhum momento a peça sai machucada pela superficialidade e nem o espectador é tratado como um imbecil, ou, pior, doutrinado politicamente. O que foi dito por Aristófanes continua precisando ser dito cada vez mais. Gregory e Pépe sabem disso e contam com um elenco preparado, capaz de dominar a rua e todos os improvisos que o ambiente exige.

O grupo fez um intercâmbio na Argentina com a Périplo Compañia Teatral. E, no Brasil, dialogou com atores do LUME Teatro, com objetivo de preparar os atores para a rua, espaço cênico que a Cia. Carona não estava habituada a atuar. A pesquisa resultou em um espetáculo contundente, criativo, irônico e tristemente trágico.

Os atores Fábio Hostert, James Beck, Léo Kufner, Sabrina Marthendal e Sabrina Moura conduzem os espectadores rua afora numa caminhada coletiva rumo a Passarópolis, que é uma espécie de terra prometida. Como é sabido, desde a expulsão do paraíso, o homem anseia voltar para lá, deseja encontrar novamente o espaço onde injustiças, guerras, violências não se perpetuem no poder. É essa esperança que move os personagens, e com eles o público. Todos nós, muitas vezes, nos movimentamos em busca de um futuro transcendente, de um futuro que se alcançará por um portal, ou no caso da peça, pelos sinais dados pelo pássaro comprado. A manipulação dessa esperança, ou desse medo humano, é cada vez mais forte, tanto pelas religiões quanto pelos meios de comunicação e publicitários, todos movidos por interesses financeiros. Na peça, tudo é vendável: pássaro, guarda-chuva e um lugar próximo de Zeus.

Walter Benjamin pensava o capitalismo como religião, um fenômeno parasitário que se firma sobre o culto ao consumo, ao descartável, ao homem como mercadoria. A denúncia desse sistema move Passarópolis. No final, se revela que qualquer lugar pode ser a terra prometida, que qualquer lugar é Passarópolis, desde que as pessoas lutem por isso, queiram isso acima de seus privilégios pessoais. Tudo passa por uma tomada de decisão que vai além do indivíduo: passa por valorizar o bem comum acima do individual, como reforça um dos personagens durante a caminhada.

A força que a peça ganha na montagem da Cia. Carona é o fato de não ceder ao discurso fácil, nem a uma vitória do bem sobre o mal. Passarópolis demonstra que a falta de ética, a corrupção, as mentiras dos líderes políticos e do capitalismo têm ramificações extensas e vidas profícuas. Na caminhada pelas ruas de Florianópolis, as cenas vão se unindo à cidade de tal forma que o espetáculo se faz orgânico ao mecanismo caótico da pólis contemporânea, tal qual o fez Aristófanes com sua Atenas corrupta e hipócrita.

A peça transita pela cidade com poeticidade e ludicidade, metaforizando a própria urbe, sem incorrer no erro, bastante comum, de “reforçar” a fala com gestos ou imagens. A direção precisa de Pépe Sedrez e as atuações contundentes dos atores permitem que o público reflita, e principalmente, saia instigado pelas ideias milenares de Aristófanes, tão atuais para os dias de hoje. Ao final, os atores saem de cena como chegam, isto é, se esvaindo pela cidade, deixando a cidade perplexa de si mesma e o público órfão de sua própria fábula.

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