SUA INCELENÇA, RICARDO III

SUA INCELENÇA, RICARDO III

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

 Um das peças trazidas à Florianópolis pela Maratona Cultural foi a instigante Sua Incelença, Ricardo III, do grupo potiguar “Clowns de Shakespeare”. Criado em 1993, o grupo faz um trabalho de pesquisa teatral envolvendo música, teatro popular, técnicas de clown, além das releituras surpreendentes de clássicos shakespeareanos. Esse conjunto de ações, executadas de maneira criativa, fazem do grupo uma das principais vozes teatrais fora do eixo Rio-São Paulo. O diretor, Gabriel Villela, ao lado de Márcio Abreu, Enrique Diaz, Antonio Araújo, Rodolfo Garcia Vázquez, Nelson Baskerville forma um dos mais inventivos grupos de diretores da atual cena brasileira.

            O espetáculo Sua Incelença, Ricardo III é uma ousadia estética criada pelo grupo sob a batuta precisa e perfeita de Gabriel Villela. Feito para a rua, a peça se utiliza do universo do picadeiro, dos palhaços mambembes, das carroças típicas dos espetáculos andantes e de toda uma estética que une o quente sertão nordestino ao, digamos, gélido sertão inglês do período elisabetano. A união também se estabelece musicalmente, pois a trilha passeia por clássicos populares do nordeste e clássicos contemporâneos do rock inglês como Queen e Supertramp. O que poderia se tornar uma salada de referências vazias, desconectadas, ganha uma contundência inédita nas mãos de Villela e dos Clowns.

            A sonoplastia é materializada pelo grupo unindo os cantos e as falas ao som de tambor, sanfona, flauta e teclado e está de tal modo entranhada à ação dos personagens que o som passa a ser corpo criando aquela dramaturgia total de que tanto fala Eugenio Barba. O cenário e o figurino são carregados de uma multiplicidade de signos que são capazes de levar o espectador, em um piscar de olhos, para civilizações primitivas africanas, para o nordeste brasileiro, para a Europa medieval ou qualquer território do imaginário humano.  Tudo no espetáculo propõe uma profanação lúdica de Shakespeare. Assim, o personagem Ricardo III, que manda assassinar o irmão, os sobrinhos e o ministro metaforiza as traições, cobiças, atrocidades universais.

            Giorgio Agambem diz que profanar “devolve ao uso aquilo que o sagrado havia separado e petrificado”. O pensador italiano também diz que “a passagem do sagrado ao profano pode acontecer por meio de um uso (ou melhor, de um reuso) totalmente incongruente do sagrado”, uma das possibilidades de ocorrer essa passagem é o jogo.

Na língua portuguesa usamos os termos diferentes para jogar e atuar, algo que em francês e inglês não acontece, pois esses idiomas mantiveram os conceitos na mesma palavra: play e jouer. Se o jogo é um campo de profanação e a profanação “desativa os dispositivos de poder e devolve ao uso comum os espaços que ele havia confiscado”, como quer Agambem, o que temos em Sua Incelença, Ricardo III, é uma jogada personalíssima e corajosa de profanação. Como é sabido, Shakespeare é um cânone absoluto, em certo sentido até intocável, como se fosse, texto e autor, sagrados.

O jogo-profanação da montagem é reforçado pelo constante uso de máscaras. Para a professora Elizabeth Lopes “a possibilidade de a máscara mudar de expressão é o resultado de trabalho do escultor e do ator. Uma máscara ingênua pode assumir feições demoníacas, dependendo do ângulo em que é vista.” E o grupo explora como ninguém as inúmeras possibilidades do uso das máscaras. Em cena temos um repertório infindo de técnicas teatrais, todas em constante contaminação: a manipulação de objetos e de boneco, por exemplo, alcança o ápice entre o cômico e trágico. As cenas em que os atores manipulam cocos secos que representam rostos humanos e a coco verde com canudinhos, representando os sobrinhos de Ricardo III, elevam o jogo-profanação pela linguagem em seu grau máximo.  Há que ser registrar que o grupo se utiliza desde a menor máscara do mundo, que é o nariz do clown, às inúmeras variações da mesma, sempre dialogando com os novos ritmos que o espetáculo exige.

O trabalho dos Clowns de Shakespeare e de Gabriel Villela foi de profanar essa “sacralidade” em volta de Shakespeare. Porém, não é qualquer profanação calcada em ideias sem consistência, ou na vontade de polemizar, bem típica de certos realizadores teatrais. Gabriel Villela sabe que ao propor uma releitura com essa envergadura de uma tragédia como Ricardo III, o diretor precisa ter muita segurança, não apenas em seu trabalho, mas no trabalho dos atores que vão embarcar na aventura.

A trupe do Rio Grande do Norte assume o leme e vence, com precisão, e surpreendente equilíbrio de interpretações, todos os desafios de Villela: cantar, dizer o texto gramaticalmente correto num tom trágico e grandiloquente, sobretudo os monólogos comuns em Shakespeare, alternar para o humor popular típico do nordeste, cantar de novo, mudar de personagem, ser irônico, triste, clown, expor o ódio e a vaidade humana  diante do poder, expor de forma sarcástica a banalidade da violência, ser ridículo, grotesco e poético ao mesmo tempo diante da sucessão de mortes capitaneadas por Ricardo III na sua ascensão ao trono.

Camille Carvalho, Dudu Galvão, César Ferrario, Joel Monteiro, Marco França, Paula Queiroz, Renata Kaiser e Nara Kelly são os atores e as atrizes em cena, desempenhando mais de quinze personagens na intricada trama shakespeareana. São atores em pleno domínio técnico e artístico de seus corpos, de suas vozes, de seus personagens. Sua Incelença, Ricardo III foi aplaudido por minutos na abertura da Maratona Cultural porque é uma obra que ilumina a plateia com sua teatralidade total.

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4 respostas para “SUA INCELENÇA, RICARDO III

  • Neusa

    FANTÁSTICO!!! É isto tudo e muito mais…ver um Shakespeare assim vale a pena, pois, tinha uma linguagem acessível ao público, uma música,uma cor, uma atuação…um tudo, este é o teatro que eu quero e acredito.Os caretas de plantão tem que rever os seus conceitos, foi o melhor da Maratona.

  • Fernando Yamamoto

    Caros Marco e Rubens, que felicidade em ler as suas palavras sobre o nosso trabalho. Ficamos extremamente lisonjeados e felizes, é esse tipo de retorno que nos faz ter certeza que todo o esforço vale a pena. Em nome de todo o grupo, deixo nosso muito obrigado pelo feedback. Em tempo, se for possível, troquem o nome da Titina Medeiros pelo da Nara Kelly, que estava estreando a substituição naquele dia em Floripa, e acabamos não tendo tempo para atualizar a informação para a produção da Maratona. Abraços!

  • Revista Osíris (Marco Vasques / Rubens da Cunha)

    Fernando, tudo bem, tracaremos sim. No mais o trabalho de vocês é demais mesmo. Forte abraço.

  • Jose Anselmo Duarte

    Jamais me imaginei vibrar com shakespeare, não por sua obra sim por sua época, a sacada dos crowns de shakespere é imperdível. Estou tentando recordar o nome da música da apresentação.

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