Espetáculo O CANO faz a abertura do FITAFLORIPA

ESTREIA SEM POESIA NO FITA

 Texto publicado no jornal Notícias do Dia [25/06/2012]

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

A tentativa de transformar a matéria amorfa em um ato poético e de fazer com que o espectador mergulhe no sonho de vivificar a carnação a partir da ausência/morte é o grande desafio do teatro de animação. Isto é, a este tipo de teatro cabe buscar e construir a condição anímica do objeto. Assim, o jogo teatral se estabelece. As metáforas são construídas e o espectador, via de regra, reinventa sua relação poética com a fabulação a partir do objeto manipulado. O silêncio, a fala, o ritmo, a música, a matéria e o homem, quando unidos no palco, necessitam de uma orquestração precisa, perfeita e orgânica.

O cano, espetáculo que abriu o 6º Fitafloripa, com produção da companhia “Circo Udi Grudi”, de Brasília, está no repertório da companhia desde 1998. É de estranhar que um espetáculo com tanto tempo de estrada ainda padeça de equívocos primários e amadores. Com três atores em cena, o espetáculo é uma colagem de cenas desconexas. O que evidencia que a direção de Leo Skyes não soube exercer seu poder de corte e não conhece o princípio básico da comédia: a concisão. É flagrante no trabalho a falta de um labor nas cenas e a inexistência de uma dramaturgia mínima, que faça com que os três excelentes atores possam desfrutar de sua arte.

As piadas e gags se repetem à exaustão. A falta do tempo de comédia foi esgarçada ao máximo na apresentação da primeira noite do Festival Internacional de Teatro de Animação e nem o evidente talento cômico dos atores conseguiu manter o ritmo do espetáculo. O cano começa prometendo alguma diversão. Ri-se um pouco. Em seguida começa aquele incômodo de mexer-se na cadeira, aquela insistente vontade de que tudo ande, entre no ritmo, seja mais ágil e menos barulhento. Existe uma infantilização dos quadros, algo que remete àquelas infantis cenas criadas pelos Trapalhões nos tempos áureos do grupo.

O cano é um espetáculo com algumas boas ideias, alguns momentos em que a música é mais surpreendente, quando os instrumentos feitos de cano dizem o porquê vieram à cena, porém, aos poucos, tudo vai se tornando pesado, a leveza esboçada no começo se esvai e o que temos são três atores mostrando seus dotes musicais, nem tão musicais assim, num longo quadro onde uma música de Villa Lobos é executada entre goteiras.

Na última cena todo o senso cômico saiu do palco para dar lugar a uma pretensa pirotecnia poética com tons sombrios, medievais, dando ao final uma estranhíssima, e nada poética, escuridade. Há, em O cano, um apagamento dos atores, que navegam numa sucessão de quadros imprecisos, desconexos e numa manipulação suja, amorfa em que não se consegue a precisão tão inerente à arte da animação. Existe uma indefinição no uso da linguagem, já que os híbridos gramelô, fala, mímica e o gesto teatral são usados de maneira aleatória e confusa. O cano já esteve em Florianópolis, no Teatro Álvaro de Carvalho, o que nos faz perguntar qual o sentido de se abrir o Festival Internacional de Teatro Animado com um trabalho sem poeticidade alguma e já visto pelo público da cidade.

FOTOS: MARCO VASQUES

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2 respostas para “Espetáculo O CANO faz a abertura do FITAFLORIPA

  • Max Reinert

    Então…. bem polêmicas essas colocações sobre o o espetáculo. Concordo, em partes… vamos a elas.

    A infantilização presente na atuação dos atores realmente incomoda um pouco. Uma visão estranha sobre a técnica clownesca e/ou talvez sobre o teatro feito para crianças (era isso, não?) parece interferir no resultado final do trabalho.

    A cena final realmente parece um enxerto meio “ué, de onde veio isso?”!!! Não existe nada na dramaturgia que aponte para aquele final.

    Em contrapartida, não concordo com o que vc fala sobre a dramaturgia. Não vejo o espetáculo como uma colagem de cenas desconexas. Consigo perceber uma linha que estrutura a sequência mostrada ao público. Existe sim um jogo de linhas que tensionam a atenção do espectador.

    O problema talvez seja pensar que haja um conceito (ainda hoje em dia) que determina o que é uma “peça bem escrita”. Que haja uma “forma” especifica que nós, os dramaturgos, tenhamos que nos “encaixar” para criar um espetáculo “correto”. Não há!!!

    Aliás, por mais que se possa perceber certas irregularidades no trabalho, é possível afirmar que ele funciona perfeitamente com o público. Dessa forma (e mal comparando com a sua outra crítica aqui) podemos nos perguntar o que realmente faz com que um espetáculo funcione.

    • Revista Osíris (Marco Vasques / Rubens da Cunha)

      Max, depois do FITA, responderemos a cada uma das suas indagações. Veja que jamais usamos o termo dramaturgia como algo limpo, linear ou que indique uma estética da limpeza. Tem que haver dramaturgia até numa dramaturgia que está negando a dramaturgia. Bem, mas o seguinte, estamos na correria. Uma crítica por dia até segunda para o jornal. Então depois leremos novamente seu cometário, e faremos, como sempre, respostas pontuais para cada ponto observado. É para isso que estamos aqui, para discutir, argumentar, trocar. Abraços.

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