O livro Teatro de Máscaras, o saber e o sabor

Livro Teatro de Máscaras discute

 os múltiplos usos da máscara no teatro

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

            Pessoa, personagem, máscara: persona. A máscara, esse objeto ancestral, tão intimamente ligado ao teatro, é o tema do livro o Teatro de Máscara, reunião de nove ensaios sobre a presença da máscara no teatro. A curadoria e a organização é assinada por Valmor Níni Beltrame e Milton de Andrade. Aqui já somos obrigados a dizer que os responsáveis pela edição foram precisos, sensíveis e erigiram uma obra, que seguramente, passa, a partir deste momento, a ser uma referência obrigatória para quem quiser entender, discutir e escrever sobre a máscara no teatro. A qualidade dos ensaios somado ao fato de termos escassa bibliografia sobre o assunto no Brasil dedicada ao tema, faz com que o livro o Teatro de Máscara nasça destinado a se tornar um clássico.

Os nove ensaios são bastante elucidativos e abrangem da história da máscara no teatro ao uso das máscaras no teatro contemporâneo associado aos recursos tecnológicos. Um ponto comum nos ensaios é a presença da máscara como objeto de culto, de jogo, um objeto muitas vezes  mítico. Algo que exige respeito absoluto de quem usa. Narrando suas experiências sobre o uso das máscaras, a pedagoga e professora da FAAP Elizabeth Lopes leva a sério a presença da magia no uso da máscara: “trabalhar com máscara na formação do ator implica ter consciência de se estar lidando com o mundo da magia, com o poder da máscara sobre a identidade do portador.” O professor Felisberto Costa, da USP, já diz no ensaio Máscara: corpo. Artifício “Qualquer que seja a máscara – e mesmo as estruturas portáveis – ela requer a experiência do jogo”. E Felisberto segue discorrendo sobre as concepções antropológicas da máscara e seu uso no teatro no Brasil, nos Estados Unidos e Europa.

O leitor encontrará especificações sobre máscara neutra, máscara média, máscara expressiva e, até, reflexões sobre o que se chama a menor máscara do mundo, que é o nariz do palhaço. O livro faz um percurso que parte da máscara mortuária e chega ao uso contemporâneo. Elucida como Copeau e Lecoq, por exemplo, usaram a máscara para evidenciar o corpo do ator, para mostrar ao ator que ele deve estar inteiro na cena. O Teatro de Máscara traz também as especificidades de cada material, os inúmeros modos de usos, feitura e toda a tradição passada de geração a geração deste objeto que transita entre a metonímia e a metáfora.

             O potencial mágico e mítico da máscara perpassa todos os ensaios sem, em momento algum, deixar de estabelecer uma relação com as contribuições que seu uso dá ao desenvolvimento técnico do ator.  A máscara para o teatro não é apenas um objeto sobre o rosto do ator, é mais: trata-se de um outro rosto, uma outra face que passa a controlar todo o corpo do ator, e, também, exerce fascínio sobre o olhar da plateia. A máscara é um fascínio, ou como diz Heloíza Cardoso em seu ensaio: Ator – escultor de personagens, “toda máscara é transposição de uma ideia. Ela pode apresentar o caráter de um personagem ou tipo que também recebe esse nome “Máscara” no conjunto de sua gestualidade, movimentos e ritmos precisos”.

O importante texto de Leon Chancerel, traduzido pelo professor José Ronaldo Faleiro, reflete sobre manifestações favoráveis e contrárias ao uso da máscara com evidente defesa e comprovação de como ela contribuiu para a construção do processo de um novo ator proposto por Chancerel.  Coube a Marisa Naspolini a tradução do estudo feito pela diretora da Escola Experimental do Ator, a italiana Claudia Contin, que aprofunda aspectos da composição material, psíquica e funcional da máscara tanto no Ocidente e no Oriente.  O estudo de Claudia envolve os diversos materiais com os quais são feitas as máscaras, partindo desses materiais para uma viagem reveladora das relações entre os atores e suas máscaras, sejam atores profissionais sejam homens do povo que tem por função construir as máscaras para os cerimoniais religiosos. Com uma grande quantidade de exemplos, Contin nos revela e nos desvela o universo tocante das máscaras, sobretudo as, sempre presentes, máscaras da Commedia dell’Arte.

            O ensaio A máscara do Clown e a subjetividade do ator de Mariane Consentino – uma das fundadoras da Traço Cia. de Teatro e diretora de um dos melhores espetáculos feitos em Santa Catarina,  As três Irmãs – narra sua experiência com aquela que é considerada a menor máscara do mundo: o nariz vermelho do clown. Muito bem embasada teoricamente, Mariane nos apresenta a força quase que “desmascarada” do clown, esse personagem que “não vive em um tempo e espaço ficcional”, mas “relaciona-se diretamente com o ambiente e com o público; seus olhos estão abertos para o mundo, para a realidade que o cerca e é com isso que ele joga”.

            Paulo Balardim não deixa de fazer um breve percurso histórico sobre o ator e a máscara, contudo joga seu olhar para as apropriações, na pós-modernidade, com a tecnologia, as mídias como atesta sua análise do Blue Man Group, os “homens de azul” que fazem comerciais para uma empresa telefônica com os “corpos mascarados.”

 Assim, dos rituais presentes nas manifestações teatrais populares, os folguedos, (assunto do ensaio As máscaras nas manifestações teatrais brasileiras de Tácito Borralho), às experiências místicas dos mascareiros balinezes, presentes no ensaio Madeira, couro, cores e carne: histórias entre Commedia dell’Arte e máscaras do mundo de Contin, o leitor vai se ajustando às variações antropomórficas, simbólicas, ritualísticas e técnicas que compõem o que podemos chamar de um tratado da história das máscaras.

Por tudo isso Teatro de Máscara é um livro orgânica, em que cada artigo complementa o outro. Os organizadores Valmor Níni Beltrame e Milton de Andrade conseguiram dar unidade a um conjunto de nove escrituras distintas e nos apresentam uma obra necessária e que se equilibra entre o saber e o sabor, referimos-nos, claro, à concepção de sabor e saber pronunciada por Barthes e sua obra A aula.

 

 

 

 

 

 

 

 

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