O Festival Internacional de Teatro de Animação e o encontro com a poesia

                                               POESIA E TEATRALIDADE NO FITA

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

                                                               Texto publicado no jornal Notícias do Dia [26/06/2012]

            Pode-se dizer que o 6º Festival de Internacional de Teatro de Animação começou, realmente, com Las tribulaciones de Virginia. O espetáculo espanhol da Companhia Hermanos Oligor é primoroso em aliar a simplicidade de sua história à complexidade de sua execução. Ao usar o texto como subtexto para atingir a teatralidade em estado puro, a poesia pulsa em cada ação, imagens, respiro e gesto. Em cena, Jomi Oligor transita entre diversas técnicas de animação, que vão do teatro de sombras à manipulação crua dos objetos. Não há limite entre a ação cênica, a fantasia, o sonho, a invenção, o real e ficcional. Jomi manipula tanto os objetos, as emoções do espectador e a si próprio com a precisão de quem conhece sua ciência.

            A Companhia Hermanos Oligor surgiu quando os irmãos Jomi e Senen Oligor se trancaram num porão em Valência, na Espanha, para “retirar-se” das atribulações amorosas e financeiras da vida real. Como um retorno a uma infância mítica, os irmãos construíram um mundo em que diversas traquitanas servem para contar a história de Virginia e Valentin, dois bailarinos que se apaixonam, para depois enfrentar a dor de ver o amor acabar, derruir-se na rotina, na indiferença.

            Essa é a história dentro da história. Taírov, o diretor russo que negou subjugar sua arte ao regime socialista, disse que “em cena, tudo deve ser concebido de modo a ajudar o ator no livre desenvolvimento de sua personalidade, envolvê-lo numa atmosfera cênica propícia”. Jomi consegue transformar toda a parafernália criativa, invenção e memória afetiva de sua própria vida, em ambiente propício para uma atuação terna, sublime e nevrálgica.

            O cenário, um porão de inventores, se constitui na metáfora do aprisionamento e do desejo de fazer da impotência uma potência de vida.  O ator/manipulador abusa do recurso da metalinguagem.  A sua própria solidão em ver o público chegar e depois partir, o seu  vazio estrangeiro, a sua busca de um amor,  e de um sentido para a vida faz uma curvatura que propõe, como saída, a rebeldia e retorno à infância.

            O trabalho técnico e logístico de Las tribulaciones de Virginia é grandioso, justamente porque toda a quantidade assustadora de fios, objetos, luzes, traquitanas simplesmente desaparecem na profunda organicidade da peça. Com um espetáculo intimista, feito para apenas 50 espectadores por apresentação, Jomi Oligor praticamente sussurra o tempo todo, propondo ao público uma intimidade triste, solitária e melancólica. No entanto também nos leva ao riso e propõe, a partir de uma estética das sobras, das nadezas, das coisas abandonadas no mundo, um mergulho em nossos próprios sonhos, e, mais que isso, pede que olhemos para os dias, ainda que infelizes, com a candura de um poema que bate à porta. Com   Las tribulaciones de Virginia o Festival Internacional de Teatro de Animação se reencontra com a poesia e com a teatralidade total, sublime!

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