ACORDA, ZÉ! A COMADRE ESTÁ DE PÉ!

O JOGO E A RECEPÇÃO CÊNICA

 Texto publicado no jornal Notícias do Dia [27/06/2012]

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

             Muito já se escreveu sobre os elementos essenciais que compõem o jogo cênico e a experiência estética que  ele propicia. São livros, artigos, dissertações e teses que buscam entender a relação de um espetáculo teatral com o espectador. Em praticamente todos os teóricos vamos encontrar um ponto quase unânime, isto é, a defesa de que os dois elementos indispensáveis para que o ato teatral aconteça, ainda que se tenha opositores de tal pensamento, é a presença do ator e de um público que receba a experiência estética proposta.

            O alemão Hans Robert Jauss em sua Estética da Recepção fundamenta que a experiência estética emancipadora, que ultrapasse o mero gostar ou não gostar, obedece a três movimentos que se entrelaçam: a poiesis, a aistheses e a katharsis. Marcel Duchamp já disse que “gosto é um hábito: a repetição de uma coisa que já foi aceita.” Ele fala isso para tentar explicitar ao público que o bom gosto e o mau gosto é uma questão de hábito, não de estética. E quando o jogo não acontece? A quem atribuir a culpa? O senso comum sempre tende a culpar o ator, o diretor, ou seja, há uma tendência a depreciar o objeto estético experimentado quando não se alcança ou não se permite ser tocado por ele.

            Então, o que dizer de um espetáculo teatral que tenha uma iluminação poética, atores com gestos precisos que tenham pleno domínio do corpo, do ritmo, da voz e dos sons? Um trabalho que possua uma dramaturgia simples, mas sedimentada no complexo mundo do cordel, do trava língua, da poesia do repente, da embolada, da Commedia dell’Arte? Por que um público, que tem uma obra de arte depurada à sua frente, permanece impávido, frio e não compra o jogo cênico?

            Algo assim aconteceu com a peça Acorda Zé! A Comadre está de Pé, na apresentação de terça-feira, dia 25.  O Grupo Teatral Moitará, do Rio de Janeiro, trouxe um espetáculo, no dizer de Bárbara Heliodora, “encantador, de grande qualidade e de sabor tão rico o variado quanto as cores de seus figurinos”, no entanto, tal riqueza, tal variação não chegou à plateia. Os atores, sob a direção precisa de Venício Fonseca, receberam da plateia, em boa parte do tempo, apenas silêncio. Cenas divertidas, irônicas, engraçadas, poéticas aconteciam e no público quase nenhuma reação. Houve apenas algum esboço de riso, quando o humor no palco se tornava mais óbvio e sexualizado (o que denota muito sobre o público presente).

            O Grupo Moitará tem 24 anos de estrada, de pesquisa continuada sobre o ator e pensando sempre em espetáculos com uma linguagem própria. A julgar pelo Acorda Zé! A Comadre está de Pé, pode-se dizer que conseguiu, mas enfrentou em Florianópolis algo que não há pesquisa ou preparação que consiga vencer: a tão temida indiferença da plateia.       Apesar de ser ruim ver um espetáculo prejudicado assim, mesmo nisso, o teatro revela sua força e beleza. O silêncio do público diante das situações divertidas virou metalinguagem para o personagem Zé que, percebendo a frieza do público, brinca “mas que silêncio descomunal.”

 

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3 respostas para “ACORDA, ZÉ! A COMADRE ESTÁ DE PÉ!

  • Luiza Lorenz

    hehehe…Enfim, há públicos e públicos em Florianópolis..algumas vezes me surpreendo!! espetáculo ruim palmas comedidas e quando é bom, mesmo sendo mais complexo o público percebe e ovaciona..mas também não me surpreende o seu relato! público de festival de animação costuma ser bem variado!! muita gente gosta mesmo é de apelação: buceta! ahahahahahahah A carne podre, a putrefação: óooooooooooooooooooooohhhhhhhhhhhh…enfim, falta a cultura dos museus, da literatura, da própria ida ao teatro! agora, gostaria de ter ido pra ver o que enfim não funcionou com a platéia!

  • Max Reinert

    Infelizmente esse espetáculo não teve problemas somente em Floripa. Eles estiveram fazendo uma tourné pelo SESC e as reações também não foram das melhores.

    Talvez valesse a pena o grupo repensar uma certa linearidade que se instala durante a apresentação. Precisão e rigorosidade é ótimo… mas organicidade também é sentida pela platéia, principalmente quando falta.

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