No toques mis manos e Tropeço, espetáculos feitos a mãos

No toques mis manos e Tropeço, espetáculos feitos a mãos

 Texto publicado no jonal Notícias do Dia [28/06/2012]

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

            A tradição milenar do teatro de sombras chinesas teve, no 6º Fita, uma produção espanhola. Valeria Guglietti Cia de Sombras trouxe o singelo No toquen mis manos, e encantou o público no teatro de Sesc Prainha, nesta última terça-feira. O espetáculo estreou em 2005 e desde lá vem percorrendo o mundo e ganhando prêmios, inclusive na China, a pátria mãe da estética escolhida por Valeria.

 No toquen mis manos é uma desses acontecimentos acima das fronteiras do idioma. Há apenas uma apresentação inicial falada e depois uma sucessão de cenas perfeitamente identificáveis por todos. E é justamente aí que está a força dessa peça: a universalidade. Valéria, que criou, dirigiu e protagoniza o espetáculo, coloca com perfeição na parede/tela, aquilo que alguma vez na vida tentamos fazer, afinal, quem nunca brincou com a sombra das mãos fazendo um cachorro, um jacaré, um cisne?

            Esse tipo de brincadeira está tão entranhada na infância humana, que podemos até chamá-la de “natural”. O que Valéria faz com os adultos é levá-los de novo à  infância, levá-los àquele tempo em que fantasia e realidade eram uma coisa só. Já para as crianças, Valeria mostra como uma de suas brincadeiras pode se tornar arte, teatro e imagem-poesia.  O diálogo se efetua ainda mais preciso porque Valeria não se esconde. A manipulação dos objetos e das mãos é presenciada pelo público, que entre seus movimentos e as sombras na parede se maravilha. Ficamos divididos entre olhar as mãos que raramente se tocam e a vida projetada à frente.

            No toquen mis manos perpassa não apenas as clássicas imagens de animais e rostos, mas referências a ícones do terror como o vampiro e a bruxa. Há também uma surpreendente aparição do ET, clássico personagem do cinema moderno, e uma fina ironia com os “machos” lutadores de boxe, que após toda violência da luta se tocam como se fossem amantes.  Valéria se parece com aquela irmã mais velha a ensinar que com uma luz, uma parede e sombras, podemos criar o mundo, fabular mundos.

            Já no Teatro da Igrejinha, na UFSC, utilizando-se da manipulação de objetos e da mímica, a Cia Tato Criação Cênica, de Curitiba, apresentou Tropeço. Com uma dramaturgia bastante simples, o espetáculo joga o espectador à outra ponta da vida que é a velhice. Duas velhas, condenadas a viverem juntas, buscam nas pequenas coisas (comer, fumar, beber, dançar, por exemplo) trapacear todas as mazelas advindas da solidão e da velhice.

            Tropeço é uma preciosidade expressiva. A pesquisa do grupo navega nitidamente por uma dramaturgia do corpo, pois as personagens são criadas a partir das mãos. O vigor expressivo alcançado por Katiane Negrão e Dico Ferreira vai desenhando as carências, as solidões, as alegrias e agruras destas personagens. Iluminadas apenas a luz de velas cada cena nos remete a alguns quadros de Goya, Portinari e Schiele, por sua perfeição plástica e evidente carga dramática. Conduzindo o público do riso às limitações da velhice  o espetáculo culmina com morte de uma das senhorinhas. Peter Brook tem razão ao dizer que “teatro é vida”. Tropeço é este teatro que é vida.

FOTO 1: espetáculo Tropeço.

FOTO2: espetáculo No toques mis manos 

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