Festival Internacional de Teatro de Animação: um convite à reflexão

Termina hoje o Festival Intencional de Teatro de Animação

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Chegamos ao final de mais um Festival Internacional de Teatro de Animação, que ainda conta, neste sábado, com sete apresentações na capital catarinense. Durante uma semana, o evento movimentou a cidade de Florianópolis e se fez presente em Blumenau, Itajaí, Jaraguá do Sul, Joinville, São José, Lages, Concórdia, Chapecó, Laguna, Tubarão e Criciúma. Antes de tudo se faz necessário reconhecer que um evento deste porte possibilita a troca de estéticas/ideias, amplia o olhar – tanto do espectador quanto dos produtores teatrais das cidades em que acontece -, provoca o debate, forma público, gera emprego, estimula o setor turístico e, principalmente, traz vida aos palcos dos teatros de Santa Catarina. No entanto, cabem algumas reflexões que têm por objetivo devolver ao próprio festival as questões que ele nos suscitou.

Que festival o FITA quer ser? Um festival com uma programação imensa, distribuída em várias cidades, ou um festival conciso na quantidade e preciso na qualidade? A pergunta vem porque o que temos visto nas últimas edições é uma escolha pelo primeiro caminho: diversos espetáculos, diversas cidades e uma evidente queda na qualidade artística, além de alguns espetáculos com estéticas indecisas, que por sinal já circularam pela cidade. Não exigimos que todos eles sejam inéditos, mas no mínimo dignos de serem assistidos mais de uma vez. Outro questionamento: que festival o FITA não quer ser ou se tornar?

É pela importância indiscutível do evento que pensamos em colocar algumas indagações em discussão. Qual o modelo de curadoria o FITA adota? Porque o que se viu nesta edição foi um desnível considerável entre alguns espetáculos. Obviamente, é da premissa dos festivais apresentarem trabalhos díspares, porém é preciso ter critérios estéticos mínimos para que se diminua ao máximo as diferenças.

Um espetáculo primário como Tres Histórias Tres, com toda aquela carga de moralismo, maniqueísmo e amadorismo, não pode participar de um festival da com esta envergadura. Qual o motivo para um espetáculo desses atravessar o Atlântico, sendo que em nossa cidade temos 10 espetáculos infinitamente melhores? Pensa-se: Como um espetáculo como O cano, com todos os problemas já apontados por nós, faz a abertura de um festival internacional? Por que trazer da Itália um espetáculo “textocêntrico”, colegial, com dramaturgia convencional, didático e que só muito forçosamente se pode colocar na linguagem de Teatro de Animação? Por qual motivo se priorizou a Espanha, trazendo espetáculos como Tres Histórias Tres e Bag Lady? Apenas uma observação mais atenta na produção dos nossos vizinhos latino-americanos evitaria percalços como esses dois espetáculos? Por que todos que eram internacionais vieram da Europa? Por falar em Bag Lady, como alguém da organização não percebeu que a peça era inadequada para o palco do Teatro da Ubro?

Outras perguntas também surgem: qual o sentido de trazer uma máquina imensa, muito bem feita por sinal, mas que marca presença física só pelo caráter exótico e pela confecção engenhosa? Qual o sentido de tantas apresentações se o público é agendado, buscado, isto é, não é um público espontâneo? Quais as implicações disso? Essas pessoas querem estar no teatro? Que teatro elas procuram? Que teatro deve ser apresentado a elas? Por que espetáculos que não são de Teatro de Animação são selecionados? 

Muitas outras questões poderíamos fazer. No entanto, o importante, em nosso entendimento, é que se faça uma reflexão profunda sobre estes e outros pontos. Porque, se por um lado, os festivais são importantes e salutares, por outro acabam produzindo vícios intermináveis. Sabe-se de grupos teatrais que se especializaram em fazer espetáculos que se adequam à estética dos festivais. Este é um ponto que precisa ser estudado, indagando. Fica o convite à reflexão. Façamos a reflexão e esperemos pelo próximo Festival Internacional de Teatro de Animação.

Ao inquirir os organizadores e sua equipe estamos indagando a nós mesmos e terminamos com as palavras de Denis Guénoun, autor do livro O teatro é necessário?: “O teatro disponível não é necessariamente aquele que a vida pede – certas necessidadespermanecem insatisfeitas. Inquietude de vida e de morte. Em caso de necessidade, se o teatro falta, nos falta, e se a carência persiste, algo corre o risco de morrer. Nós não morremos, claro que não. Encontram-se substitutos. Mas algo em nós pode morrer: o quê?”

FOTO 1: Espetáculo italiano QUE VIVA ANINTA

FOTO2: TRES HISTÓRIAS TRES

 

 

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