Bartledy e o fracasso da cena

 BARTLEBY E O FRACASSO DA CENA

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

            Parece que enterraram uma cabeça de padre embaixo do palco do teatro do SESC Prainha, porque o ano de 2012 não tem sido marcado pela habitual qualidade que o coloca como uma das instituições mais eficazes na promoção cultural. A cada peça assistida vem a pergunta: como pode, tendo braços espalhados pelo Brasil inteiro e conhecendo grande parte da produção cênica do território nacional, escolher, ao menos em Santa Catarina, espetáculos tão problemáticos e frouxos em suas proposições? Bartleby, que passou por Florianópolis e Joinville, é mais uma montagem que poderia, sem nenhum prejuízo ao espectador, passar bem longe da nossa terra. Vamos a ela.

Bartleby, o escrivão, é um desses personagens criados no século XIX que conseguiu manter permanentemente a sua marca, a sua inquietação, quase que inalterada, desde que o texto foi publicado. Ao seu lado podemos colocar Madame Bovary, Julien Sorel e Rodion Romanovitch Raskolnikov como exemplo de personagens que foram capazes de se tornar matéria de estudo de diversas ciências humanas ao longo do século XX e que continuarão sendo estudados no século XXI. Em certo sentido, são personagens que conseguem até suplantar a obra na qual estão escritos. Em 1853, Herman Melville publicou o conto Bartleby, o escrivão, que trouxe à baila um personagem cuja profissão também deu à literatura alguns nomes proeminentes. Na Rússia, Gogol criava o seu Akaki Akakievitch; na França, Flaubert apresentava seus Bouvard e Pécuchet; um pouco mais tarde, aqui no Brasil, Lima Barreto estreava na literatura com o seu escrivão Isaías Caminha. Assim, a literatura está marcada por esse tipo de personagem cujos afazeres fascinavam os escritores.

            A história de Melville pode ser resumida em poucas linhas: um proeminente advogadoem Nova Iorque precisa contratar os serviços de mais um escrivão. Respondendo ao anúncio, surge no escritório, Bartleby: “estou a ver a sua figura, pálida e asseada, que inspirava piedade, mas respeitável, incuravelmente desamparada”, diz o narrador que é também o personagem do advogado contratante. Bartleby é contratado. Por um tempo, executa as ordens sem reclamar, porém, ao ser solicitado para fazer coisas além de escrever, responde com um indiferente “preferiria que não”. Aos poucos, ele vai se mudando para o escritório, vai deixando de fazer tudo, negando-se a qualquer ação. O narrador, entre fascinado e perturbado com tal gesto, tenta diversas artimanhas para que ele seja um funcionário “normal”. Nada dá certo, e como é praxe nesses casos, o final é trágico.

            Bartleby se tornou objeto de estudo de alguns dos principais pensadores contemporâneos, justamente por sua frase mais famosa – I would prefer not to, que tem duas outras variações: I prefer not to e I prefer not. Derrida diz que Bartleby é uma figura da morte e que representa também o segredo da literatura. Deleuze diz que ele não é um doente em sua contínua negação de tudo, mas sim o médico: “mesmo catatônico e anoréxico, Bartleby não é o doente, mas o médico de uma América doente, o Medicineman, o novo Cristo ou o irmão de todos nós”. Por outro lado, o filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu um profundo estudo sobre Bartleby, chamado Bartleby, escrita da potência, em que, com a erudição que lhe é peculiar, afirma que ele é um “escriba que cessou de escrever, ele é figura extrema do nada de onde procede toda a criação e, ao mesmo tempo, a mais implacável reivindicação deste nada como pura, absoluta potência”. Esses são apenas três exemplos rápidos dos inúmeros estudos feitos sobre um texto de não mais que 50 páginas. Diante disso, qualquer trabalho que se faça tendo Bartleby como matéria-prima, ou fonte inspiradora, exige do artista um leque considerável de leitura e de entendimento da profundidade desse texto.

            Recentemente, circulou por Santa Catarina a adaptação realizada pelo Núcleo Caixa Preta da Cooperativa Paulista de Teatro, sob a direção de Joaquim Goulart e Daniela Carmona, com a atuação de Cácia Goulart e Rodrigo Gaion. O grupo usa a adaptação para o teatro feita em 1989 pelo dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra. Essa adaptaçãro foi traduzida para o espetáculo por Vadim Nikitin.

            O que dizer dessa montagem? A pergunta que se faz, novamente, é: como tanta gente envolvida com um espetáculo pode ler tão mal, tanto o texto original quanto a adaptação de Sinisterra? Novamente, percebemos as mesmas escolhas pela superficialidade, pelo caminho mais fácil, tanto de atuação quanto de dramaturgia. O que dizer de uma iluminação que opta pela obviedade sempre e que, ao final, com a morte de Bartleby, insiste em jogar signo sobre signo, terminando o espetáculo com luzes vermelhas? O que dizer de uma partitura cênica óbvia e primária, em que até a passagem do tempo, tão importante para o desenvolvimento da ação, se torna algo literal? O personagem de Melville torna-se uma figura irritante, caricata, desprovida daquela força aterradora da qual falam os três filósofos citados acima. Apesar do esforço da atriz que o interpreta, tudo se esvai na série ininterrupta de erros que perpassa toda a produção.

            O equívoco é justamente não prestar atenção nas nuances da frase principal I would prefer not to. Deleuze no ensaio Bartleby, ou a fórmula, faz toda uma reflexão sobre essas variações, que vão do futuro do pretérito, um condicional bem educado, incerto, ainda “copiando” a fala de seus interlocutores, a um mais decisivo I prefer not. Agamben também nota essa variação e afirma: “se Bartleby renuncia ao condicional, é só porque lhe interessa eliminar todo o vestígio do verbo querer até o seu uso modal”.

Não tivemos acesso ao texto de Sinisterra, mas a tradução de Nikitin elimina essa nuance. O personagem apenas pronuncia um “eu prefiro não”. A repetição pode funcionar uma ou duas vezes, mas logo a grande força transgressora do personagem, a sua negação completa, torna-se moeda de troca para o riso fácil do público. Novamente a falta de leitura impera. Bastava, além de ler o conto, ler o primeiro parágrafo do ensaio de Deleuze: “é um texto violentamente cômico, e o cômico sempre é literal. E como uma novela de Kleist, de Dostoiévski, de Kafka ou Beckett, com os quais forma uma linhagem subterrânea e prestigiosa. Só quer dizer aquilo que diz, literalmente. E o que ele diz e repete é PREFERIRIA NÃO, I would prefer not to. É a fórmula de sua glória, e cada leitor apaixonado a repete por seu turno. Um homem magro e lívido pronunciou a fórmula que enlouquece todo o mundo”.

Assim, esse é o cômico mais difícil de ser colocado no palco: aquele que diz só o que diz, que não quer parecer inteligente ou, pior de tudo, engraçado. A peça opta pelo cômico, mas sem que os atores sejam bons atores cômicos, principalmente Rodrigo Gaion, histriônico, forçado, numa daquelas atuações gritadas bem em voga em programas televisivos de humor. Para agravar o quadro, a direção de Goulart ainda reforça a superficialidade, fazendo com que o ator execute uma série de cenas óbvias, facilmente antevistas. Pronto, a direção e a atuação de Gaion levaram água abaixo, ou coxia adentro, já que o ator sai de cena dezenas de vezes, com a possibilidade de enlouquecer todo o mundo.

Bartleby é fratura exposta, não o riso fácil apresentado. Ele antecipa a cegueira branca de um Saramago a anunciar o mundo corroído por todos os lados. É uma espécie, às avessas, do personagem principal de O Rinoceronte, de Eugenio Ionesco, porque resiste pela não ação, pelo silêncio, pela negação. A montagem que passou por Santa Catarina, com dizeres eufóricos no cartaz de sucesso de crítica e de indicações para o Prêmio Shell, é mais uma prova de que Denis Guénoun está correto quando afirma que a crise do teatro está estabelecida. Aliás, tentamos encontrar as críticas sobre o espetáculo para entender o que exatamente a crítica referendava no trabalho, e nada encontramos de significativo.  Para nós uma meia conchinha, do Campeche ou da Barra da Lagoa, já está de bom tamanho para o apresentado no palco do SESC Prainha.

FOTOS DE MARCO VASQUES

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Uma resposta para “Bartledy e o fracasso da cena

  • Luiza Lorenz

    Impressões: O que fica claro para mim com esta encenação é que ainda que a personagem de Bartleby e sua situação paradoxal possua todos os ingredientes literários terríficos e sublimes (dos desvios de alma) que podem servir tão bem ao teatro, de absurdo, de fantástico, de intangível, o que vemos em cena é o oposto da libertação poética que nos possibilita tão paradigmático personagem/situação. Vemos um achatamento de linguagem, unidirecional e maniqueísta, presente em todos os elementos da encenação: luz, figurino, partitura corporal, música, cenário engessado. Pra mim, particularmente, vou ao teatro para ver um ponto de vista, opinião.. O artista se posiciona artisticamente, se compromete!!!!!!!!!!!!!!, corre riscos, mas seu posicionamento perante a sua arte deve estar ali!! Por isso o teatro de grupo é tão importante..é duro para o artista da cena construir um olhar sozinho..já que trabalha com seu próprio corpo! Daí que se posicionar artisticamente vai mais do que a escolha do texto que irá encenar..o texto foi o posicionamento de Melville!! O que vamos fazer com isso? Com Bartleby??? A resposta desse grupo em particular me pareceu engessada emparedada dentro do previsível, do cotidiano, retirando toda a provocação genuína que o texto já traz de saída, da perplexidade, da morte!! Nada ali sai da superfície, e nem o texto por si só segura o trágico, ou o cômico na cena..perde-se os contrastes, tudo fica plano e rotineiro! Sem memória, de fácil assimilação..como você disse, já prevemos tudo desde o início! Absolutamente normal quando a situação ali retratada é de provocação!! Me parece que muito assim é o teatro brasileiro: são poucos por aqui que parecem saber provocar,….Nelson Rodrigues que o diga!! Eita, frágil cultura do politicamente correto..as pessoas parecem preferir manter-se dentro do ordinário e do previsível..mesmo falando de Bartleby, mesmo falando de Shakespeare

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