A superficialidade de Quero ser Hamlet

ESPETÁCULO QUERO SER HAMLET E A SUPERFICIALIDADE DA PESQUISA

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

 

Recebemos o convite para assistir ao espetáculo Quero ser Hamlet. No release se falava sobre corpo, espaço, tempo e ação física. Até aí tudo bem, porque são conceitos mais que explorados no debate teórico acerca de teatro, que, a rigor, se fundamenta quase que irrestritamente à manipulação/presença do corpo num tempo, num espaço através de ações físicas e psicológicas. O complemento do texto é que chama atenção, pois diz que esses elementos são “inspirados nos fundamentos de autores como Jerzy Grotowski, Eugenio Barba, Peter Brook, Vsevolod Meyerhold, Antonin Artaud” e que “esta etapa de pesquisa resulta na criação do espetáculo Quero Ser Hamlet”. Na ficha técnica, mais uma surpresa – “Ideia original e textos: João Mario Monje Filho (Fragmentos de Hamlet de Shakespeare e Hamletmachine de Müller”).

            O que esperar dessas informações? O que ansiar de um projeto de pesquisa que tem 12 anos e que se baseia num quinteto de criadores-pensadores fundamentais para o teatro contemporâneo? Isso sem contar que o texto da peça advém de Shakespeare e de Heiner Müller. O primeiro dispensa apresentações; o segundo é um dos principais dramaturgos do século XX. Cada um desses sete nomes envolvidos na pesquisa da Urgando Teatro exige um cabedal gigantesco de leitura, de conhecimento teatral, de envolvimento com as experiências radicais propostas por eles. Além disso, o release diz: “inspirados nos fundamentos de autores como…”, ou seja, dá a entender que, além dos citados, há outros, talvez não colocados por modéstia dos envolvidos na peça.

É impossível escrever em poucas linhas a experiência de transe, do sacrifício, dos ensejos ritualísticos do teatro da crueldade, proposto por Artaud; ou sobre a pobreza teatral, também ritualística, de Jerzy Grotowski; ou da antropologia teatral de Eugenio Barba; ou do teatro sem nacionalidade de Peter Brook; ou da biomecânica de Meyerhold; ou sobre o teatro de Heiner Müller, tido por alguns estudiosos como um teatro ao mesmo tempo de continuação e de confronto com as ideias de Bertold Brecht, este, por sua vez, uma espécie de antípoda de Artaud. A impossibilidade se estende também a Shakespeare, ou melhor, a Hamlet e toda a sua influência nas artes, e em outras ciências humanas, há uns bons 500 anos.

            Diante da carga explosiva que o release é apresentado ao público, é de se imaginar que o acúmulo de tantas referências poderia antecipar algo genial ou extremamente desastroso. Fomos assistir ao resultado da pesquisa do Urgando Teatro. Era uma sexta-feira fria, chuvosa; havia na plateia não mais que 10 pessoas. No palco, o ator, autor e diretor da peça, João Mario Monge Filho, inicia a apresentação. Em poucos segundos, somos enveredados por um percurso intenso de constrangimento, de vergonha alheia, que durou meia hora. Parece pouco, mas não é. Na nossa cabeça ressoava apenas o que estava contido no release: os 12 anos de pesquisa, os nomes dos dramaturgos envolvidos e, principalmente, por que submeter o público a tal constrangimento?

Na verdade fica até difícil escolher qual nome foi mais difamado, mas podemos começar com a “ideia original” de João Mario, que mutilou tanto Shakespeare como Müller. O esquartejamento foi desordenado e completo, com requintes de crueldade – não a crueldade presente no teatro de Artaud, mas a pior crueldade existente, o abandono total da pesquisa e a falta completa de senso do ridículo. E o que é pior: João Mario transformou dois textos clássicos em um terceiro texto nada “original”, piegas e meloso. Para João, fica a indicação da leitura do poema “Se eu fosse Hamlet”, do poeta dinamarquês, Peter Pousen, para que ele possa entender como se procede uma apropriação e o que é a antropofagia total e inventiva.

A “ideia original” proposta e anunciada pelo Urgando Teatro cai por terra já na primeira frase do texto de Muller, “Eu fui Hamlet”, e mais adiante, quando o dramaturgo alemão faz com que um ACTOR-HAMLET diga “Eu não sou Hamlet. Já não represento nenhum papel”. Óbvia a relação com o célebre “ser ou não ser”. Enfim, temos insistido que não cabe ao teatro fazer literatura, mas usar da literatura como pretexto, subtexto para a cena. Por isso temos recalcitrado em análises de texto e subtexto, pois o que estamos vendo, com muita frequência, são leituras apressadas, literais e sem profundidade alguma de textos que precisam de releituras, de reaproximações e de difamações sublimes.

A atuação (e a direção) de João Mario Monge Filho passa longe de qualquer uma das ideias dos autores citados. Quero ser Hamlet é uma peça em que tudo falta: partitura vocal e corporal, iluminação, crueldade, entrega, ritmo, força dionisíaca, conhecimento das experiências radicais a que esses autores submeteram o teatro, respeito a essas ideias, respeito ao Teatro e aos espectadores. Definitivamente, não se pode espalhar por aí um release desses e ocupar um dos principais espaços teatrais da cidade para fazer algo que está abaixo do amadorismo. Algo que vem prenhe de pretensão, mas na hora de parir, o que nasce é apenas um rebento medíocre e constrangedor.

Que o teatro é a arte do risco, do abismo e dos experimentos, sabemos muito bem. No entanto, ao se evocar toda a tradição do teatro contemporâneo ocidental, exige-se que o que se apresente seja, no mínimo, um ato poético/teatral que tenha cuidado, organicidade e coerência interna na sua proposição. Saímos do teatro nos perguntando: como pode um ator não perceber que o próprio corpo está ausente de cada cena? Por que escolher dois textos clássicos para fazer um terceiro piegas, medíocre e novelístico? Por que João insistiu em dirigir, escrever e atuar sem dominar a linguagem dessas funções? Como um ator que não sabe mastigar as palavras se expõe tanto? Como alguém que tem à disposição dois textos tão importantes para a tradição da dramaturgia mundial produz um terceiro com tanta displicência? Nesse caso, não seria melhor, já que João procurava uma “ideia original”, produzir um texto autoral mesmo, já que não consegue fazer a apropriação, a deglutição antropofágica necessária de Shakespeare e Müller? E, por fim, como alguém consegue ler tão mal os textos, a cena e o mundo?

Denis Guénoun, ao falar sobre a representação/apropriação de textos clássicos, alerta: “os clássicos permitem que se exerça um olhar propriamente teatral, que se olhe exatamente aquilo que é o teatro, a direção da demonstração em cena. Porquesupõe-se que conhecemos o texto, a história, os papéis: o que é dado a ver é então exatamente o ator de sua apresentação, a teatralidade em si – a vinda do texto à cena, em sua transferência como que exposta, posta a nu”. Tudo o que não acontece em Quero ser Hamlet.

 

 

 

 

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11 respostas para “A superficialidade de Quero ser Hamlet

  • Tim Gerlach

    Assisti a peça e gostei, não gostei foi dessa crítica com ar de humilhação, “não se jogam pedras em árvores que não dão frutos “

    • Revista Osíris (Marco Vasques / Rubens da Cunha)

      Gerlach, você tem todo direito de não gostar de nossa crítica. Humilhação mesmo é soltar um release daqueles, falar de tantos gênios do teatro contemporâneo e apresentar aquele espetáculo escolar. Fizemos a análise a partir do que o próprio diretor/ator/autor disse de seu trabalho e do que vimos em cena. Ele não alcançou nem uma vírgula do que pensou em fazer. Apenas isso. Não temos por objetivo humilhar ninguém. Estamos aqui para debater, discutir, questionar, propor. Nada mais que isso. Nem árvores, nem pedras, nem frutos. Nada vimos. É isso. Abraço.

  • João Mario Monje Filjo

    Caros críticos de arte, em primeiro lugar, não se confundam ao receber qualquer mail informando a respeito de alguma apresentação como convite, tome isso como divulgação. É muito diferente usar outros meios para ir assistir a um espetáculo entrando sem pagar e achar que foi convidado.

    Segundo, (uma regra básica) não vão ao teatro esperando o que queiram ouvir ou assistir. Acho que e muita pretensão, não é? O teatro é um jogo, uma brincadeira na qual o público é parte quando esse está despojando de qualquer preconceito; e quem está na função de propor o que dizer e fazer nesse jogo é o teatrista, porque se o teatro fosse feito para os críticos, o teatro seria uma prostituta. Mas eu entendo que a visão critica de vocês e a sua postura frente às pessoas os condiciona demasiado.
    Agora tenho uma preguiça de continuar escrevendo, mas prometo que logo podemos seguir sobre esse debate escolar conceitual.

    Saudações

    J.M

    • Revista Osíris (Marco Vasques / Rubens da Cunha)

      Caro João,

      a) Nós respeitamos o teu trabalho, coisa que você não está fazendo com o nosso. Estás nos acusando de termos ganho cortesias para teu espetáculo? Geralmente, por sermos críticos da revista e do jornal Notícias do Dia, costumamos ganhar cortesia de imprensa; o Marco Vasques recebeu o convite sim para o espetáculo, no e-mail dele. Ligou para a Lilian, da Casa das Máquinas, e perguntou se tinha cortesia para imprensa. Ela disse que teria, se ela dissesse que não tinha pagaríamos, sem problemas; agora, embora seu espetáculo não mereça, se você quiser, podemos pagar para você ou deixar na Casa das Máquinas a quantia equivalente aos dois ingressos. Não nos fará falta!

      b) Nós vamos ao teatro para nos encontrarmos com a poesia. Tentamos fazer uma análise de seu trabalho, você tem todo direito de não gostar. No entando, em nenhum momento, tentamos denegrir sua imagem ou sua pessoa. Estamos tratando de um espetáculo, de uma suposta obra de arte que foi apresentada, e, como tal, está sujeita à análise;

      c) Nós não queremos que o teatro seja feito para críticos, seja feito para pessoas e críticos também são pessoas; sua preguiça mental parece atestar bem o tipo de trabalho que desenvolve. Não somos professores de ninguém. Não há nada de escolar aqui, estamos analisando um trabalho. Sua postura aqui demonstra sua capacidade poética e sua capacidade de discussão;

      d) Abraços do Marco e do Rubens. Avise-nos onde podemos deixar seu dinheiro. E depois é crítico quem prostitui o teatro? Tá bom!

    • Revista Osíris (Marco Vasques / Rubens da Cunha)

      f) Você diz: “Segundo, (uma regra básica) não vão ao teatro esperando o que queiram ouvir ou assistir. Acho que e muita pretensão, não é? O teatro é um jogo, uma brincadeira na qual o público é parte quando esse está despojando de qualquer preconceito; e quem está na função de propor o que dizer e fazer nesse jogo é o teatrista,”

      Como assim? recebemos um email em que você nos informa com o que e com quem você trabalharia na peça, e quer que a gente não espere nada? Além disso, foi justamente por não sermos preconceituosos e por sermos muito curiosos que fomos assistir a sua peça, fomos “jogar” com você a partir dos elementos, das pistas que você nos forneceu no release. O problema aqui é que você criou expectativas muito grandes que não foram cumpridas. O nosso texto aponta exatamente isso. Em vez de rebater as nossas posições prefere chamá-las de escolares. Enfim, insistimos na ideia de que prometer não é obrigado, agora, prometeu tem que cumprir…

      • Joao Mario Monje Filho

        Tenho preguiça de continuar nesse debate porque acredito que o teatro é feito na pratica por aqueles que experimentam no corpo a vivencia da cena, por isso prefiro gastar minha energia (esforço físico) em cena, ensaiando, vivendo o teatro na pratica, e o mais importante, encontrar com pessoas que estão a favor do teatro.

        Mas se o assunto se trata de conceitos, vamos a eles; a expressão chave de maior significado no release (já que a critica se centra nele) era: ideia principal = “sistema de treinamento atoral”(ou treinamento do ator) ideia secundaria = “inspirada em autores como bla,bla, bla…” a palavra inspirada eu usei como uma abstração, aspiração para minha pratica de ator, dessa maneira não se pode esperar ou entender o teatro igual ou copiado dos autores citados.

        Por tanto, a coerência desse trabalho está enfocada no ator, é dizer, no meu mundo pessoal e físico. O meu jogo proposto em cena vai nesse sentido, uma almofada, um lençol, um espaço vazio, uma poética de cena pobre, e o mais importante para esse jogo estava explicito na sinopse: (coisa que vocês nem se interessaram)

        “Em uma grande cidade, após a morte de seu pai, um rapaz não sai de seu quarto porque leva horas procurando conciliar o sono; recordando o pai entre sonhos, e curioso com o que sucede no quarto ao lado, o rapaz encontra a solução para sua noite de descanso em um possível encontro com o espírito de seu pai” (essa era a bola do jogo)

        Agora eu me pergunto, sendo críticos de arte, não sabiam que na sinopse está à ação principal de toda obra? Não sabiam que a sinopse concentra o significado global da obra? Porque vocês esperavam assistir Hamlet ou Hamletmachine sendo que na sinopse estava explicito as ações, o argumento e significado? Numa coisa vocês acertaram, eu mutilei os textos, ou melhor, eu usei Hamlet como pretexto para dizer o que tinha necessidade de falar, e achei pertinente usar como referencia Hamletmachine também, tudo isso com muito respeito a esses autores.

        E meus caros, realmente é fácil e conveniente fechar os olhos para aquilo que não se quer ver; e utilizar partes de um release para fazer uma critica desinformando as pessoas e esculachando os artistas. Como eu posso brincar no teatro com críticos que omitem a sinopse de um espetáculo?

        Se vocês leram o teatro pobre, como podem criticar a iluminação? Eu trabalho sozinho meus caros, eu sou produtor dessa peca também, quando há possibilidades de se fazer uma boa iluminação, se faz. Gostaria muito de poder ter uma iluminação melhor, mas as condições não sempre são favoráveis. Isso não é pobreza no teatro? Ou que vocês esperavam? Como podem alegar que não existe uma partitura corporal se a sequência de movimentos da segunda cena se repete na penúltima cena? (coreografia) isso é evidente (olha que não estou falando que meu espetáculo é bom ou ruim, o que eu quero afirmar é que existe uma estrutura coerentemente).

        Por outra parte, não confundam as pessoas meus caros críticos de arte, eu não usei nenhuma palavra ofensiva, não estou difamando nem humilhando nenhum de vocês, estou no direito de contestar a sua critica que me difamou, não pensem que falta de respeito e educação existe somente nas palavras de insulto.

        Saudações.

      • Revista Osíris (Marco Vasques / Rubens da Cunha)

        JOÃO
        a) Tenho preguiça de continuar nesse debate porque acredito que o teatro é feito na pratica por aqueles que experimentam no corpo a vivencia da cena, por isso prefiro gastar minha energia (esforço físico) em cena, ensaiando, vivendo o teatro na pratica, e o mais importante, encontrar com pessoas que estão a favor do teatro.

        RUBENS DA CUNHA E MARCO VASQUES
        a) Bom, presume-se, por sua fala, que nós estamos contra o teatro. Também acreditamos profundamente num teatro feito por aqueles que experimentam no corpo a vivência da cena, basta ler as diversas críticas que fizemos ressaltando isso como uma experiência positiva. Nós somos completamente a favor do teatro, tanto que estamos exercendo um dos papeis mais complexos, o de crítico, daquele que olha de fora, que não se exime de emitir opiniões, possibilidades, que levanta questões, ideias, premissas que foram ou não bem desenvolvidas na prática. Sempre houve no teatro catarinense um silêncio, diríamos, ditatorial em relação à crítica. É como se fosse um pecado, uma heresia, uma ofensa pessoal falar de qualquer espetáculo. Atores, produtores, diretores, dramaturgos perpetram seus trabalhos, espalham suas obras por aí e querem, no máximo, elogios. Qualquer contrariedade já entra no campo da ofensa pessoal, da infâmia. Enfim, a sua preguiça parece que também nos contaminou, pois é difícil continuar qualquer debate, discussão, tendo como premissa a ideia de que é impossível criticar negativamente qualquer obra, sem que isso caia no campo da ofensa. Você nos ofende quando diz que obtivemos ingressos através de “meios”. Coisa que já explicamos e a partir de sábado você pode pegar seus ingressos na CASA DAS MÁQUINAS que estarão lá. Estamos até pagando inteira, apesar de sermos estudantes.

        JOÃO
        b) Mas se o assunto se trata de conceitos, vamos a eles; a expressão chave de maior significado no release (já que a critica se centra nele) era: ideia principal = “sistema de treinamento atoral”(ou treinamento do ator) ideia secundaria = “inspirada em autores como bla,bla, bla…” a palavra inspirada eu usei como uma abstração, aspiração para minha pratica de ator, dessa maneira não se pode esperar ou entender o teatro igual ou copiado dos autores citados.

        RUBENS DA CUNHA E MARCO VASQUES
        b) O seu release direcionava o seu trabalho, e se o “inspirada em autores como bla, bla, bla” para você não tem importância, se nomes como Peter Brook, Artaud podem ser substituídos por um “bla, bla, bla”, já nos diz como você trabalha a fundamentação teórica do seu trabalho: como algo secundário. Não estávamos esperando um teatro igual ou copiado dos autores citados, mas os autores citados deveriam nortear o seu trabalho, e foi justamente isso que não vimos, agora sabemos que eles são uma ideia secundária, e que estavam no release apenas para dar um verniz ao seu sistema de treinamento atoral.

        JOÃO
        c) Por tanto, a coerência desse trabalho está enfocada no ator, é dizer, no meu mundo pessoal e físico. O meu jogo proposto em cena vai nesse sentido, uma almofada, um lençol, um espaço vazio, uma poética de cena pobre, e o mais importante para esse jogo estava explicito na sinopse: (coisa que vocês nem se interessaram)
        “Em uma grande cidade, após a morte de seu pai, um rapaz não sai de seu quarto porque leva horas procurando conciliar o sono; recordando o pai entre sonhos, e curioso com o que sucede no quarto ao lado, o rapaz encontra a solução para sua noite de descanso em um possível encontro com o espírito de seu pai” (essa era a bola do jogo)
        Agora eu me pergunto, sendo críticos de arte, não sabiam que na sinopse está à ação principal de toda obra?
        Não sabiam que a sinopse concentra o significado global da obra? Porque vocês esperavam assistir Hamlet ou Hamletmachine sendo que na sinopse estava explicito as ações, o argumento e significado?

        RUBENS DA CUNHA E MARCO VASQUES
        c) Sim, a sinopse contém a ação de toda a obra, no entanto o que isso revela? E a distância entre o escrito na sinopse e o realizado? A sinopse pode ser instigadora, profunda e o realizado não passar de uma experiência superficial, menor do que aquilo prometido na sinopse. Nós não esperávamos assistir Hamlet ou Hamletmachine, no entanto, insistimos: se você se apropria, ou se aproxima desse universo, necessariamente esse universo contaminará o seu trabalho, e contaminará o olhar do público mais atento, daquele que se prepara ante de ir ver a peça. A sinopse resume a “história” da peça, nós vimos isso, no entanto as suas escolhas estéticas, a sua atuação não nos pareceu condizente com todo o proposto na sinopse. Faltou entrega, faltou força, faltou vísceras, ou crueldade, pobreza, antropologias, etc, etc. Se o seu release fosse menos pretensioso e nos informasse apenas a sinopse, nós iríamos dar mais atenção a ela. No entanto, você o floreou com informações “secundárias”, o que para nós não é nada secundário. Esse é o ponto do conflito aqui: o secundário pra você é fundamental para nós. Parece que você subestima seu público, pensa que ele não fará associações, se deterá na sinopse e esquecerá o cabedal de referências que você mesmo propôs.

        JOÃO
        d) Numa coisa vocês acertaram, eu mutilei os textos, ou melhor, eu usei Hamlet como pretexto para dizer o que tinha necessidade de falar, e achei pertinente usar como referencia Hamletmachine também, tudo isso com muito respeito a esses autores.
        E meus caros, realmente é fácil e conveniente fechar os olhos para aquilo que não se quer ver; e utilizar partes de um release para fazer uma critica desinformando as pessoas e esculachando os artistas. Como eu posso brincar no teatro com críticos que omitem a sinopse de um espetáculo?

        RUBENS DA CUNHA E MARCO VASQUES
        d) Bom, então refaça o release, esqueça as referências teóricas, já que elas são secundárias, detenha-se naquilo que a sinopse revela. O que temos se nos detivermos na sinopse? O que vimos foi uma experiência teatral destituída de veemência, destituída daquela agressividade ritualística, talvez dionisíaca, que todo teatro tem que ter. A sua sinopse revela um mundo de perda, de ausências, de solidão, de conflitos internos diante da ausência paterna e também materna. No entanto, o resultado do seu espetáculo fica sempre na superfície desse conflito. O seu trabalho como ator não estabelece o corte, a ruptura, a ousadia, o enfrentamento físico e álmico necessário para dar conta da sinopse. Acreditamos que seja justamente porque você trabalha com as referências de forma secundária, na base da aspiração ou abstração. Não há entrega física real no seu trabalho, há sempre um medo permeando tudo, uma espécie de timidez, de “o que vão pensar”. O seu trabalho como ator carece da tristeza e da solidão que a sinopse revela, carece da capacidade de nos apresentar esse personagem como um ser envolto nas angústias da existência, perdido entre o mundo onírico e real, vitimado pela indiferença da mãe e pelo fantasma do pai. Poderíamos esquecer todas as referências que você colocou no release e nos determos exclusivamente na sinopse, ainda assim nossa crítica apontaria a falta de força, de contundência na sua montagem. As perspectivas de sua sinopse são muito boas, trabalhar com Hamlet e Hamletmachine traz uma intertextualidade interessante, no entanto, ao colocar isso em prática, ao trazer isso para o solo, para a caixa preta revelou-se uma fragilidade estrutural muito grande, seja na atuação esquemática, seja na concepção primária da peça. As experiências estéticas com apropriações estão aí. Basta ler os dois livros do Renato Cohen sobre o Performance e o real papel que um texto assumi na cena contemporânea. Ou mesmo a ruptura de hierarquias no teatro proposto por Kantor, mas bem, isso tudo para você dever ser secundário.

        JOÃO
        e) Se vocês leram o teatro pobre, como podem criticar a iluminação?
        Eu trabalho sozinho meus caros, eu sou produtor dessa peca também, quando há possibilidades de se fazer uma boa iluminação, se faz. Gostaria muito de poder ter uma iluminação melhor, mas as condições não sempre são favoráveis. Isso não é pobreza no teatro? Ou que vocês esperavam? Como podem alegar que não existe uma partitura corporal se a sequência de movimentos da segunda cena se repete na penúltima cena? (coreografia) isso é evidente (olha que não estou falando que meu espetáculo é bom ou ruim, o que eu quero afirmar é que existe uma estrutura coerentemente).

        RUBENS DA CUNHA E MARCO VASQUES
        e) Bom, o Teatro Pobre de Grotowski pode ser considerado um teatro rico, pois trabalha na essência, naquilo que constitui o cerne do teatro: ator e público. A iluminação foi criticada, não porque é pobre, mas porque é inadequada, não acrescenta em nada à peça, não traz a força, a violência poética, a contundência que tanto reclamamos a falta, e que a tua sinopse antevia. Fica naquele campo do constrangimento, da vergonha alheia, não porque lhe faltam os recursos necessários, mas porque você não consegue trabalhar criativamente com a ausência de recursos. Novamente, o problema aqui é que as ideias de Grotowski entram como abstração, aspiração, e não como realidade a ser encampada pelo teu trabalho de ator.Pode até haver uma estrutura coerente, mas você parou para analisar seus gestos? parou para analisar seus movimentos? Parou para analisar que você está sozinho em cena, com poucos elementos, que tudo o que você tem que dar ao espectador é seu corpo e o texto. Não um corpo cheio de pudor e falta de ritmo, um corpo que apenas não repita apenas as cenas, mas que tenha uma partitura corporal de entrega, de mergulho, de aprofundamento de cada gesto, muito menos um texto piegas, destituído de agudeza, de dor, de poesia. A impressão que tivemos é que você não acredita em seu personagem, que pode tratá-lo como algo superficial, como algo que não merece um cuidado profundo. A concepção de seu espetáculo é interessante, no entanto, o que você entrega para o público é muito menor do que aquilo que promete. Nossa crítica foi severa justamente nesse ponto: há no seu trabalho uma promessa não cumprida, o nosso trabalho foi de revelar isso. O que podemos dizer é o seguinte: você precisa radicalizar sua proposta, sair da zona de conforto e verdades onde está estabelecido e arriscar entrar no jogo real, seja aquele apontado pelas referências, para você secundárias, seja por sua própria criação. Agora, essa peça, como está estabelecida, vai sempre privar o público de uma experiência transformadora, inquiridora de novos parâmetros.

        JOÃO
        f)Por outra parte, não confundam as pessoas meus caros críticos de arte, eu não usei nenhuma palavra ofensiva, não estou difamando nem humilhando nenhum de vocês, estou no direito de contestar a sua critica que me difamou, não pensem que falta de respeito e educação existe somente nas palavras de insulto.
        Saudações.

        RUBENS DA CUNHA E MARCO VASQUES
        f)Você poderia contestar a nossa crítica respondendo as inúmeras questões que fizemos, como estamos respondendo as suas questões. No entanto, você preferiu ironizar o fato de entrarmos na sua peça com cortesias. Nós recebemos um e-mail sobre a sua peça, nos pareceu um convite para ir vê-la e ir ver a peça a partir do conhecimento desse e-mail nos dava o direito de fazer uma crítica ao trabalho. Não houve nenhuma difamação, houve apenas um olhar apontando as fragilidades do seu trabalho. Se para você, tais fragilidades não existem, basta nos dizer, a seu ver, no que estamos errados. Algo que você já fez em parte nessa resposta aqui, dizendo que nós deveríamos nos deter na sinopse e não em todo o conjunto de referências que você nos deu. Enfim, o problema é que se nos determos na sinopse vamos perceber que ela é melhor do que a realização. Ah! Haviámos esquecido que, para você, dizer isso vai entrar sempre no campo da difamação. Estamos fazendo o nosso trabalho partindo sempre de leitura, referência, argumentação. A sua sugestão de que nós somos prostitutos do teatro também é outra pérola. Se nós tivéssemos pago o seu ingresso algo mudaria? Aí sim poderíamos escrever uma crítica apontando suas fragilidades, mas como entramos com cortesia tínhamos que nos calar, né? Isso sim é corrupção, prostituição. E para terminar, é muito estranho que alguém que receba uma crítica não se dê ao trabalho de pensar o que está dito nela, porque você não refutou uma linha de nossa crítica e não respondeu a nenhum questionamento levantado, como já dissemos. Nós entendemos bem porque críticos como Edelço Mostaço e outros amigos que temos desistiram de escrever aqui. O lance é que todo mundo se defende pessoalmente. Nenhum crítico se estabelece… Lembramos também que não somos deuses. Este e o nosso duplo olhar sobre o seu trabalho… E A PARTIR DE SÁBADO VOCÊ PODE PEGAR O ENVELOPE, NA CASA DAS MÁQUINAS, COM O DINHEIRO DOS DOIS INGRESSOS. .

  • Luiza Lorenz

    Uma opiniao: Nao vi o espetáculo. O que gostaria de dizer, como atriz, é que, para mim, quanto menos objetos, quanto mais nú ou ,pobre´estiver a cena, mais sobrexigido fica o ator. Eu, como espectadora, prefiro nao ver atores sobrexigidos, prefiro ver atores que se utilizem de recursos outros que nao um palco nú, que manipulem objetos, que usem figurinos, porque saber manipula los, faze los objetos magicos que transformem a acao do ator, faz parte da criacao de toda dramaturgia da cena, e quando nos privamos de tais recursos, sintetizando tudo no espaco vazio, o trabalho de afetar e ser afetado, ainda mais num monologo, se transforma num trabalho bastante duro..é hercúlio!! e precisa se ter uma maturidade como ator bastante grande para logralo! Nao estou dizendo que o ator em questao nao o tenha! Me parece, pelo que foi analisado pela revista osiris, que essa falta de recurso prejudicou a performance do ator sobrexigindoo de uma tecnica que talvez nao logrou dar conta! Isso é bastante comum, já que ainda se opta muito por um teatro destituido de objetos e criacao poetica de espacos. Enfim, eu pessoalmente nao gosto mais de ver obras assim, nuas..ultimamente prefiro atores que saibam se favorecer na construcao dramaturgica da cena com objetos etc.

    • Joao Mario Monje Filho

      Agora sim parece que estamos estabelecendo um dialogo, isso é o que eu esperava de uma crítica.

      Meus caros, quando eu falei de outros meios que vocês usam para entrar grátis e acharem que foram convidados, me referia à atitude de vocês frente ao encontro que proporciona o teatro, na minha percepção, vocês se atribuem uma importância desnecessária e exagerada, eu acredito que a função do critico é muito importante e valiosa para o teatro, mas se a crítica não tem também uma autocritica, o critico carece de critério (Jorge Dubatti) http://200.21.104.25/artescenicas/downloads/artesescenicas4_3.pdf.

      Por outra parte, quando eu falo que a falta de respeito não está somente nas palavras de insulto, não estou falando do dinheiro das entradas, me refiro novamente a atitude de vocês que os levaram a fazer alguns comentários desnecessários que sem exagerar me humilharam. (eu senti assim) Não acredito que a crítica sirva somente para falar do positivo, mas tenho certeza que não é dessa forma que se fala do negativo, humanidade! mais humanidade e respeito e menos intelectualismo.

      Isso mesmo, vou refazer novamente minha release para não causar maus entendimentos e aplicar o que vocês me argumentaram agora com mais informacao sobre meu espetáculo nessa última argumentacao.

      Gostaria muito de poder agradecê-los da primeira vez, mas seria muita falsidade. Só agora posso dizer: obrigado

      • Revista Osíris (Marco Vasques / Rubens da Cunha)

        RUBENS DA CUNHA E MARCO VASQUES
        João, já dissemos tudo que tínhamos a dizer acerca do seu trabalho. A coisa é bem simples, aproveite o que quiser. Jogue fora o que não interessa. Não estamos no estado do “intelectualismo” a que você se refere e muito menos escrevemos nossa crítica para “humilhar” alguém. Poderíamos dizer que nos sentimos humilhados como espectador, mas não vamos chegar a tanto. Engraçado, você dá aquele monte de referência para o público, que na sua grande maioria é leigo, e diz que nós é quem precisamos deixar o intelectualismo? O suposto intelectualismo existente ali é reflexo do que você oferece e não consegue cumprir, este é o grande problema. Você, definitivamente, não tem senso algum de dialética. Deveria filmar seu espetáculo, embora esta não seja a linguagem do teatro, e depois sentar e assistir. Talvez assim você possa se distanciar de um trabalho em que faz tudo, DIRIGE, ATUA, ESCREVE num oroborismo narcista completo. E depois, nós é quem nos damos importância demais? Nós temos critérios, não tenha dúvida. Nós deixamos claros nossos critérios de análise desde o início. E não recue em relação à questão dos ingressos, pois o que está escrito está escrito. Até aqui respondemos a todas as suas questões, talvez seja interessante você pensar em todas as questões que levantamos na crítica. E COMO AFIRMAMOS: SEU DINHEIRO JÁ ESTÁ NA CASA DAS MÁQUINAS, faça bom proveito dele. Compre um bom livro, leia e pare de acusar quem lê de ser acometido por intelectualismo, porque isso, mais uma vez, depõe contra você, não a favor. No Brasil, o bom mesmo é ser burro, medíocre, idiota, preconceituoso, preguiçoso e não ler nada. Policarpo Quaresma já padeceu deste preconceito por ter uma biblioteca, não é estranho? Quando a abordagem crítica dos aspectos negativos? Abordamos da maneira que os aspectos negativos do espetáculo nos abordaram. Enfim, tudo que for dito daqui para frente é inócuo, ineficaz e redundância. E que o nosso amigo Jorge Dubatti lhe perdoe. Aliás, publicaremos, em breve, vasta entrevista com ele, mas por certo, por ser uma coisa de intelectual, não vais querer se envolver com esse tipo de “intelectualismo”.

  • Jackson Amorim

    Olá caros amigos, parabéns pelas críticas…
    Assisti o espetáculo e de fato vcs apontam o que realmente
    acontece na peça!!! O ator não tem entrega, e ficamos diante apenas de movimentos e pieguices, além de um texto mal articulado e sem a presença cênica ” tão importante para o teatro”…
    É uma pena, também me senti encomodado e revoltado com o que foi apresentado…Precisamos urgentemente de curadorias que se preocupem com o fazer teatral, pois ultimamente
    os espetáculos que tenho visto, não tem a poesia que preciso ver!!!

    Abraço a todos!!!

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