HASARD, o novo acerto do ERRO GRUPO

 

HASARD, LABIRINTO E VERTIGEM

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

            Hasard, azar, sorte avessa, escolha, destino, acaso, lance de dados, de cartas, de vozes, de cenas. Hasard, a nova peça do Erro Grupo, propõe um jogo. Quatro cenas simultâneas, o espectador é obrigado a jogar numa delas. As cenas eventualmente se encontram pelo caminho, para se encontrarem decisivamente no final, onde os quatro naipes do baralho teatral do Erro entram em disputa, um deles ganha e estabelece qual final o público vai assistir naquele dia. Toda a peça é calcada na ideia de que escolher é perder, de que há um outro acontecimento ao lado, mas que você não pode participar. Assim é o jogo e a vida: escolha e abandono.

            “Un coup de dés jamais n’abolira le hasard” diz o verso revolucionário de Mallarmé.   O acaso será sempre maior do que qualquer vontade de prever, conter, prender a vida. É com esse deslimite que as quatro cenas da peça trabalham. Se nas peças anteriores do grupo, como em Carga Viva, por exemplo, o hasard era algo que poderia acontecer, que estaria no entorno da cena sempre presentificado, no entanto, a multiplicidade das cenas e dos jogos não afetava de maneira substancial o todo cênico. Agora esse acontecimento, essa aura do acaso, do imprevisto, da sorte alia-se à técnica sempre acurada do Erro Grupo de colocar o espectador no limite do estar e ser a própria cena. A cidade passa a ser o teatro e o teatro, propriamente dito, uma cena dentro da cidade para que se possa olhar, a partir de uma fatia da realidade-invenção, o jogo diário dos habitantes da cidade-cena, da cidade-labirinto.

No capítulo “Do jogo ideal” do livro A Lógica do Sentido, Deleuze faz a anunciação que habita Hasard “Não basta opor um jogo ‘maior’ ao jogo menor do homem, nem um jogo divino a um jogo humano: é preciso imaginar outros princípios, aparentemente inaplicáveis, mas graças aos quais o jogo se torna puro.” e segue “Não há regras preexistentes, cada lance inventa suas regras, carrega consigo a própria regra.” Hasard  é jogo puro. Trabalhando num grau considerável de improviso, de resposta a resposta que o público participante dá, o que se vê são atores dominando a estética do grupo, com seus corpos jogados contra a parede, com suas intervenções físicas gritantes, às vezes assustadoras, às vezes poéticas, em outras cômicas e patéticas. Tudo na peça está interligado por um belo trabalho de logística que faz com que as cenas circulem, se encontrem, se desafiem, como se fossem acontecimentos diversos, imiscuídos no burburinho da cidade. Esse é outro ponto que diferencia o trabalho do Erro Grupo: imiscuir-se, adentrar-se na cidade, aproveitar o que a cidade tem para disso fazer cenário, percurso, dramaturgia. Porém, é sempre um trabalho sobre o paradoxo: a cidade tem a sua normalidade feita de anormalidades. Ao mesmo tempo em que o grupo se mimetiza ao ponto do desaparecimento, ele age como uma pústula no ritmo da cidade. Alguém jogado sobre a calçada, gritando impropérios ou pedindo migalhas é normal, a partir do momento em que o Errotraz isso à baila, o desconforto é gerado, os olhares que não se estranham com as anormalidades normais da cidade, estranham a diferença que o teatro do Erro lhes impõe. Trata-se de uma estética invasiva, perturbadora, demonstradora das hipocrisias que nos protegem. Ignoramos a violência a que são submetidos os desvalidos, a nudez dos abandonados, porém nos perturbamos com a nudez teatral, com a violência exasperada e crítica proposta pelo jogo do Erro grupo.

            Se o capitalismo é uma religião, como já avisou Walter Benjamin, a cidade pode ser vista como a sua liturgia, o seu altar, onde a hóstia-comércio é comprada por todos, porém, essa liturgia exige que seus consumidores nunca pertençam, nunca sejam, nunca estejam ou aconteçam, pois é essa negatividade, essa ausência, essa falta, que mantém a religião capitalista viva. E essa invisibilidade a que estamos submetidos está se tornando cada vez mais um dogma, algo que não pode ser questionado, algo entrando naquele campo terrível do “é natural”, “é assim mesmo”. (Lembremos sempre da voz lúcida de Brecht que dizia que nada deve parecer normal, nada deve parecer impossível de mudar.).

O Hasard do Erro Grupo é justamente jogar luz sobre esse dogma, mostrar o corpo da cidade a partir de seu cerne, mostrar que dentro da pústula da urbanidade pode haver outra pústula, mas essa com efeitos purgativos, curativos, capaz de, ao expor as entranhas da religião capitalista, causar alguma espécie nos embotados transeuntes. Hasard é lance de poesia. Poesia vista sob o conceito de Huizinga “Em qualquer civilização viva e florescente, sobretudo nas culturas arcaicas, a poesia desempenha uma função vital que é social e litúrgica ao mesmo tempo. Toda a poesia da antiguidade é simultaneamente ritual, divertimento, arte, invenção de enigmas, doutrina, persuasão, feitiçaria, adivinhação, profecia e competição.”

E se estamos numa sociedade, ainda que noutro conceito de selvageria, contudo selvagem em todos os seus aspectos, mais uma vez Hasard vem na voz do autor de Homo Ludens “Para o selvagem, com sua extremamente limitada capacidade de coordenação lógica, praticamente tudo é possível.” Em Hasard, tudo é possível. Ator vira público, público vira ator, diretor. A cidade é o confinamento da cena. A dramaturgia em Hasard é pretexto para explorar a cidade e suas entranhas. Com nítida influência acerca das concepções performáticas de Richard Schechner, do teatro proposto por Augusto Boal, pela filosofia de Deleuze e Huizinga, sobretudo nos livros aqui referidos, o Erro Grupo vai se destacando no cenário teatral catarinense por sua força purgativa, por sua coragem e por uma pesquisa que se, sob o olhar de muitos, pode aparentar um estética descuidada, para nós consiste no tratamento correto e uma estética suja, imunda que se confronta com toda imundícia do mundo globalizado, massificado e coisificado. Sim, o Erro Grupo, para conhecer a ciência da devolução recíproca, esfrega na cara dos passantes suas próprias vidas, suas próprias carnes amorfas no conformismo vigente.

É assim que os atores e as atrizes travam esta disputa de poder, disputa financeira de nenhum rendimento comercial. Seja no jogo de cartas, na busca exasperada de uma senha para se abrir um cofre, numa cena de roubo ou na saída de um homem do esgoto, enfim, a cruzada pelas ruas Deodoro, Trajano, Felipe Schmidt e Conselheiro Mafra deságuam no subsolo de uma sociedade acostumada à corrupção financeira, humana e social. Hasard, com dramaturgia de Luana Raiter e Pedro Bennaton (que assina a direção), escolhe o centro comercial da cidade para decretar a instauração de um mundo invadido por nadezas que se agigantam e nos engolem. Hasard é uma montagem corajosa, uma exceção nestes dias de estéticas comerciais, caricatas e medrosas. É um pedaço da cidade, que é toda a cidade.


FOTOS de ANA CAROLINA von HERTWIG

 

 

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