Companhia Brasileira de Teatro volta a Florianópolis com a peça Oxigênio

Em dezembro de 2011 fizemos uma crítica à peça Oxigênio da Companhia Brasileira de Teatro.  Como eles estão de volta em Florianópolis para uma apresentação no Palco Giratório, repostamos a crítica aqui.

O teatro essencial da Companhia Brasileira de Teatro

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

A Semana Ousada de Artes, evento promovido pela UFSC e pela UDESC, carrega no nome um adjetivo que pressupõe, obviamente, ousadia, não apenas na sua produção, algo sem dúvida louvável, mas na programação. Infelizmente a ousadia não se tem feito presente no vasto programa proposto. É mesmo de causar espanto que duas entidades que têm professores de todas as artes não pensem numa curadoria, digamos, mais ousada. Contudo, no que tange ao teatro, a única peça da programação capaz de assumir, sem nenhum problema, a qualificação de ousada foi “Oxigênio”, do russo Ivan Viripaev, encenada pela Companhia Brasileira de Teatro, sob a direção de Marcio Abreu.

Ele tem apenas trinta e seis anos, nasceu na Sibéria, que, para nós, educados pelo cinema norte americano, é uma espécie de inferno na terra. Ator, autor e diretor, cineasta premiado, Viripaev vem se firmando como um dos nomes mais inovadores, não apenas da Rússia, mas de toda a Europa. “Oxigênio” foi encenada pela primeira vez em 2003 e desde então já ganhou montagens em países como a França, a Inglaterra, a Alemanha e a Polônia. Desde 2007, coordena o projeto “Movimento Oxigênio” que visa buscar inovações teatrais, cinematográficas, literária.

No Brasil, a montagem ficou ao encargo de uma das melhores companhias de teatro da atualidade: A Companhia Brasileira de Teatro, que viu na peça de Viripaev muitos pontos em comum com as suas experiências teatrais. Trata-se de um teatro bastante textual, em que a palavra dita quase ininterruptamente ganha força pela repetição, pela musicalidade, pela mistura contumaz entre filosofia, jornalismo, humor seco e um certo lirismo niilista.

Partindo de um crime cometido no interior da Rússia, o texto se desdobra em dez quadros, sempre iniciados por uma passagem bíblica, entre elas alguns dos dez mandamentos, além da “releitura” que Jesus Cristo fez da lei antiga. Na máquina verbal de Viripaev, as leis cristãs são trituradas pela violência, pela mesquinharia, pelo vazio dos tempos atuais. O diretor aproveita também para questionar o próprio limite do teatro, ou da arte que “transforma a sociedade”. Em cena, fazendo múltiplos personagens e vozes, além de cantar e tocar instrumentos, estão Rodrigo Bolzan e Patrícia Kamis, acompanhados pelo músico Gabriel Shwartz.

Bolzan e Kamis são daquela estirpe de atores que imantam a ribalta e emanam energia na pura presença, na mera aparição. Há sempre um devir-desespero em seus movimentos, em suas vozes e em seus corpos. A crítica corrosiva do texto encontrou nos atores a carnação perfeita para a representação das cruezas de nosso tempo. A fragmentação do texto e da cena vão nos conduzindo para as ambivalências; passamos do desespero à ironia, da dor ao prazer, da tortura à poesia. Sobretudo, nos invade da sensação, cada vez maior, de andarmos perdidos em tempo que assassinar a pulsão de vida parece ser “essencial”.

Trata-se de um tipo de texto que exige dos atores uma energia vital, uma entrega considerável, não apenas corpórea, mas mental. O casal de protagonistas consegue oxigenar a plateia envolvendo-a no mundo caótico e sensacionalista proposto por Viripaev. A montagem brasileira extraiu dos atores performances surpreendentes, e contou com um cenário bastante imaginativo criado por Fernando Marés. Quase toda a peça se passa sobre uma rampa, que serve de cama, de picadeiro, de palco para um desfile. Ao fundo uma cortina que ora se abre, ora se fecha, onde os personagens tocam seus instrumentos, cantam, trocam de roupa. No final essa rampa é erguida, e sob ela um campo seco e espelhos que refletem aqueles corpos até então entregues à linguagem, à palavra buscadora de um sentido, corpos até então necessitados de oxigênio.

A dramaturgia textual de Viripaev é pessimista, mas não chega a ser aterradora. Vislumbra-se em seu teatro, não apenas a forte religiosidade que compõe a alma russa, mas também todo um olhar que tenta, mesmo que inutilmente, propor novos ângulos, novas respirações, novas saídas seja para a arte, para a religião, para a política. A obra de Viripaev, tanto no teatro quanto no cinema, dá mostras que o oxigênio do russo ainda vai durar muito. Temos é que respirar com ele.

A Companhia Brasileira de Teatro trouxe para Florianópolis um teatro essencial, físico e poético. Se Eugenio Barba fala da busca de uma dramaturgia total no seu livro Queimar a Casa, o espetáculo “Oxigênio” confirma que a dramaturgia total é possível na cena. Outra imagem que vem de Barba é a de um espetáculo que se desintegre ao final. A Companhia Brasileira de Teatro incendeia nossas vísceras e faz da saída do teatro para o teatro das ruas uma incineração constante da vida.

Em entrevista concedida a Paula Melech, em 2010, o diretor, ator e dramaturgo Marcio Abreu é indagado sobre como se localiza na cena teatral contemporânea, sendo enfático: “Eu não me localizo, apenas faço o meu trabalho. Mas certamente há os que me vinculam a um tipo de pensamento. Venho de uma larga experiência de teatro de grupo. Transito entre linguagens distintas, porém complementares. Meu trabalho dialoga muitas vezes com a literatura, o cinema, as artes visuais. A dramaturgia é um aspecto fundamental na minha pesquisa e é para onde se voltam minhas maiores inquietações artísticas.”

Marcio Abreu criou a Companhia Brasileira de Teatro em 2000 e vem produzindo um teatro de impacto, fragmentado, que forja uma tessitura híbrida, mas harmônica. As apropriações e os diálogos com as outras artes ampliam a força teatral que o diretor vem imprimindo nos últimos anos. “Oxigênio” nos joga na experiência de um teatro total, essencial e vivo de nossas agruras.

           

Anúncios

Uma resposta para “Companhia Brasileira de Teatro volta a Florianópolis com a peça Oxigênio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: