EVOCAÇÕES, poesia e ator de coragem

EVOCAÇÕES: poesia, teatro e coragem no palco

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

Partir da poesia escrita para a poesia da cena é, seguramente, um desafio gigantesco, tanto para atores quanto para diretores. A experiência tem nos provado que, na maioria das vezes, os grupos sucumbem e realizam espetáculos pífios, supérfluos e melosos. Não raro, ao traduzir um poeta à linguagem teatral, se cai no recitativo e no enjaulamento da palavra. São muitas as dificuldades a se vencer; as principais delas são construir uma dramaturgia para um conjunto de poemas, encontrar um ator que mergulhe no poema-palavra para incendiar o palco de poema-chama, reordenar os ritmos das palavras ao ritmo da cada cena e fazer com que o espectador saia do teatro vivo de teatro e de poesia.

Trazer para o palco uma obra poética complexa como a de Cruz e Sousa é um empreendimento, na mesma proporção, ousado e arriscado. Luiza Lorenz, sob a direção de Andrea Ojeda, está circulando em Santa Catarina com a peça Evocações, que, conforme o próprio nome diz, evoca um breve recorte na vasta produção do poeta. Um dos principais pontos a serem enfrentados por esse tipo de adaptação seria conseguir estabelecer uma dramaturgia que ultrapassasse o recital, a declamação pura e simples dos textos e estabelecer a criação de um hibridismo efetivo entre teatro e poesia, conforme já apontamos. Evocações é um espetáculo que é resultado de uma parceria da Cia. Aérea, de Florianópolis, com a Periplo Cia Teatral, da Argentina. Tendo todas essas questões muito bem aparadas e quase totalmente resolvidas, além da atuação luminar de Luiza Lorenz, possui uma dramaturgia que dá conta da grandeza da prosa poética de Cruz e Sousa, se situando no rol dos grandes trabalhos teatrais que advêm da poesia.

Cruz e Souza, como todos sabem, é simbolista; uma das experiências mais radicais proposta para o teatro foi justamente o teatro simbolista. Tratava-se de uma opção irrestrita pela palavra poética. Para os simbolistas mais ferrenhos, a encarnação da palavra no palco é algo que degrada a poesia. Um dos principais nomes do teatro simbolista, Pierre Quillard, dizia que “a palavra cria o cenário, assim como todo o resto”; já outro expoente do teatro simbolista, Maurice Maeterlink, dizia que “não é nos actos, mas nas palavras, que se encontra a beleza e a grandiosidade das belas e grandes tragédias”.

Outra radicalidade proposta pelos simbolistas no teatro é a busca por um ator essencial, um ator que abandonasse a cena caricata, o gesto inútil e a expressão vulgar. A busca de um ator que seja presença, não re-presença. Nesse ponto, a atriz Luiza Lorenz é precisa, essencial e não se debate em gestos inúteis. No entanto, a diretora Andrea Ojeda se afasta do radicalismo proposto pelos simbolistas e parte para uma montagem em que a atriz tem que se desdobrar em alguns arquétipos presentes no texto de Cruz e Sousa.

Assim, se presentificam em cena a loucura, a morte, a sensualidade, a arte, o pensamento político e existencial do poeta. Para que esses arquétipos e essas evocações aconteçam foi instituída entre eles uma espécie de narradora, algo clown, algo infantil, cuja fala e ação servem de costura entre as falas das evocações. Então aparece o artista, o excluído, o louco e o emparedado, permeados por uma narradora ora distanciada, ora presente.

Quando Luiza Lorenz encarna os quatro personagens, a encarnação é efetiva, intensa, a palavra reverbera na intensidade necessária, sobretudo os textos referentes à morte. Porém, quando a narradora entra em cena, há uma diminuição da força dramática que é prejudicada por um conflito que precisa ser logo resolvido: a voz da atriz é muitas vezes sobrepujada pela música, fazendo com que os espectadores, ao fundo do teatro, não compreendam o texto. Aqui cabe um registro, já que assistimos ao espetáculo em vários espaços: Evocações perde seu equilíbrio quando apresentado de forma distanciada, tradicional, porque sua natureza é intimista. Mais que levar a poesia para o palco é preciso levar o espectador para o palco, ou seja, aproximar o espetáculo do público e sussurrar o verbo em suas entranhas.

A escolha da direção foi a de fugir de uma declamação esteriotipada, dramática, ou “mariabethaniesca”, da poesia de Cruz e Sousa. O caminho encontrado foi, muitas vezes, sussurrar o discurso do poeta; no entanto, nesse ponto, Luiza Lorenz precisa aprimorar sua técnica vocal, ou seja, ter aquela capacidade de falar baixo, mas que todos possam entender. O texto possui um vocabulário difícil, algumas vezes estranho para os nossos ouvidos. Conflitar esse texto com a música, ou dizê-lo baixo demais, faz com que se percam algumas nuances bem importantes.

Evocações é um espetáculo que marca uma diferença considerável: traz para o palco um Cruz e Souza revolucionário, abolicionista, distante daquela imagem etérea e branca que tentaram impor a ele. O recorte que Andrea e Luiza fazem da obra estabelece a importância do poeta no cenário da arte brasileira. Para além de catarinense, negro, pobre, gênio, Cruz e Souza tinha na palavra o seu grande predicado. A sua relação com a palavra é que lhe permitiu expor as entranhas de sua situação pouco privilegiada no campo social.

A certa altura, numa das evocações, é dito: “Sou triste porque a vida é real e é ideal, é ideal e é real. As inverossimilhanças, as coincidências, os acasos, os pressentimentos, a fatalidade dos seres, os absurdos, as exceções dos fenômenos gerais, as correntes de atração simpática ou antipática, os espasmos ou estados patéticos, o contato, o choque, o encontro magnético e curioso das almas, o Indefinido das cousas, como que constituem o secreto lado ideal, fantástico, de sonho, da Vida.” É dessa tristeza e verdade que o espetáculo Evocações é feito.

Outro ponto que poderia ser discutido no trabalho é a necessidade de construir um percurso didático da vida do poeta. Parece-nos desnecessário, porque a força poética e cênica com que Luiza Lorenz nos apresenta a exclusão, a loucura, a vida de um artista acima de seu tempo e o emparedamento falam tudo o que se poderia dizer acerca da vida dele. As marcações didáticas acabam por expandir o trabalho e esgarçar a concentração poética, o magnetismo criado através da palavra, da ação, do cenário preciso e da interpretação fulgurante de Luiza.

Evocações é ato de coragem, enfretamento poético, palavra-chama. Ainda que tenha que fazer um e outro ajuste técnico, natural em qualquer trabalho em processo, já figura na galeria dos grandes espetáculos feitos em Santa Catariana porque nos joga, parafraseando o poeta, na acrobacia da dor. 

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6 respostas para “EVOCAÇÕES, poesia e ator de coragem

  • Luiza Lorenz

    Ótimo texto, meninos! Obrigada pelos olhos atentos!! Sim, tenho passado por certos desencontros e pouco fôlego na personagem narradora, que é, em verdade, onde precisaria trabalhar com mais vigor, mais potência, transitando-a com mais leveza, mesmo trabalhando com mais intensidade. Sobre a altura das músicas, nosso técnico, que errou feio na estreia em fpolis, já está dominando as intensidades, assim que situação contornada. Partitura vocal minha está variando muito conforme o espaço e o público. Em joinville abusei demais do texto sussurrado, e sei que prejudicou a compreensão de palavras já tão complexas de se ouvirem mesmo sendo gritadas! não foi uma boa opção naquela noite levar o texto de uma forma tão ‘intimista’..poderia sim ter variado e dado mais vigor! Foi uma certa inércia de romper um movimento que de certa forma estava funcionando!!
    Mas, a partir do apontado aquela noite mesmo no debate do festival, optei por uma voz mais potente em todo o trabalho. Sobre os textos de ligação, didáticos, acho que sim! Acho que nem são tão compreensíveis para quem não sabe nada sobre o poeta e se tornam desnecessários quando fala a sua obra! Assim que, neste momento agora, sem a direção presente, vou me ater em transitar a personagem narradora com uma dinâmica mais ousada e vinculada, que possa tornar menos desnecessário as informações biográficas!
    É um trabalho muito delicado, com um texto bastante denso. Nessa circulação pelo sesc, apresentei-o nos lugares mais inusitados, de clube abandonado, feira do livro, a grande teatro, em sala de aula!! E para isso, em cada apresentação, precisei adequar registros e energia pra dar conta de adolescentes, idosos, etc. etc.
    Acabou tudo isso sendo um grande aprendizado de como levar a voz do poeta para além de meu trabalho de atriz, como revelar a força que pode ter o trabalho, o espetáculo, tendo um domínio da estrutura e das escolhas das ‘pontes’ certas, para que no final, apareça Cruz e Sousa, e não, a atriz! Meu intento com esse trabalho, ainda muito a ser conquistado, é desaparecer e revelar, com isso, a força viva, trágica e pungente da obra-vida de Cruz e Sousa.

    • Revista Osíris (Marco Vasques / Rubens da Cunha)

      Obrigado Luiza pelo diálogo e por nos proporcionar momentos de poesia, poesia pura. Evocações é delicado como brisa carregada pelo vento. Beijo.

      • Alessandro Silveira

        O que me agrada em ver em espetáculos como este, é a criação de símbolos e mitos necessários para que além da história, a visão dos artistas envolvidos, acrescente algo novo e estimulante pra ser visto. É a visão artística da realidade ou a falta da mesma. Para que sejas “afetado” tem que entender a visão que foi passada, a proposição da obra e a visão do artista.
        A voz é parte deste contexto sendo o primeiro elemento a ser percebido pelo espectador.
        Sendo na verdade a tradução mecânica mais facilmente perceptível da proposta teatral. Nisto lamento discordar, mas o espetáculo é primoroso por se tratar de um espetáculo que possui grandes dificuldades de ser executado, ou seria somente uma declamação rebuscada cheio de trejeitos intelectualóides falsamente artísticos e pasteurizados.
        E ele excede a isso, de fato ele nos leva a uma viagem ao mundo de Cruz e Sousa nos embriaga em sua atmosfera agressiva, incompreendida e docemente poética, como nenhum outro poeta brasileiro foi capaz de fazer.
        De fato o espetáculo cumpre sua proposta, ou seja, a voz como instrumento de teatralidade cumpre seu papel e por uma lógica aritmética é evidentemente orgânica trabalhando ao encontro da teatralidade.
        Assisti a este espetáculo em Lages e em Florianópolis e foi aplaudido de pé pela platéia.

  • Jackson Amorim

    Assisti o espetáculo no cena 9 e o que me deixou distante do espetáculo foi a voz da atriz.
    Senti que a voz dela não estava orgânica, no sentido de me afetar enquanto espectador. Portanto saí do espetáculo me questionando, por que tal voz não me afeta? e por que o corpo algumas vezes não poetiza em ressonância, juntamente com essa voz?
    abraços!!!!

  • Luiza Lorenz

    Jackson,
    é a atriz falando! Sim, é uma possibilidade! talvez, certa facilidade de lidar com a voz, me sobressaia ao trabalho de atriz, que é voz ação!! Nem sempre estou encantada para fazer essa proeza poética. De qualquer forma, tentarei diminuir as peripécias vocais e me ‘abandonar’ mais na partitura da cena. Afinal, é esse o trabalho a ser alcançado.

  • Marcoliva Lives

    Gostei da crítica e fiquei ainda mais curioso por assistir o espetáculo.
    Dá-lhe Luiza Lorenz!!

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