manifesto TEATRO DENTRO

TEATRO DENTRO

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

1.

Somos contra todo ato que não seja ato poético. Tudo que estiver presente no palco tem que arrancar os olhos e as vísceras do espectador. Aturdir. Arrancar a carne flácida da poltrona. Desfazer os cabelos sebosos das madames de domingo. Abominamos todo clichê televisivo. Somos mais favoráveis à arte dita brega, porque nela não há verniz. Todo ato vital é um ato poético.

2.

Menos é mais. Menos igual a mais. Menos mais que mais. “Palco nu e verdadeiros atores”, dizia Jacques Copeau. Adeus aos sorrisos de moscas. Adeus às patricinhas e suas menstruações incolores nos tablados. Ao artista, o mesmo valor que o pedreiro. À merda, todos que se acham divinos, especiais. Trabalho, trabalho, trabalho. Um tijolo de cada vez. Um furo preenchido a cada etapa. Pela retomada de Picabia e Duchamp.

 3.

 Viva Jarry! Madre! Mearde! Merdre! Merde! Merda! Merda aos discípulos dos deuses acadêmicos. A arte está na vida! Algumas horas em qualquer boteco sujo se aprende mais que anos de disciplina escolar. Pela volta dos bandidos. Genet e Gregory Corso!

4.

Por um teatro que priorize a força do ritual, ainda que não seja ritual. Deus está morto, mas os deuses permanecem vivos porque são trazidos ao palco a cada peça. Por um teatro que não lhes feche o caminho. Pela união de Zagreu, Dioniso e Baco! Todos bêbados trepando com seus irmãos nos palcos.

5.

Por um teatro que seja carinho e estranheza, seja víbora e o coelho de David Lynch. Não carinho bobo, e sim carinho-soco. Pelo lirismo da série trágica. Recuperemos Flávio de Carvalho e Nietzsche.

6.

Em 23 de abril de 1908, August Strindberg escreveu: “deixe livre curso às paixões, grite, mas não ao ponto de ficar rouco, não desafie o inferno”. Cento e quatro anos depois é preciso, cada vez mais, desafiar o inferno, ainda que se tenha que enr(l)ouquecer.

7.

Nada justifica a falta de coragem. Se não aguenta, por que veio? Todo associativismo é ato político, não ato estético. Façamos do ato estético o único ato político possível.

8.

Nada personifica mais a covardia burguesa do que o “bonitinho”, o “bom gosto”, as madames e os políticos achando Plínio Marcos um dramaturgo de verdade. A canonização dos artistas transgressores, feita por quem odeia a transgressão, é um crime lesa-arte. A canalhice das canalhices está nessa covardia constante. Adeus às patricinhas na cena; se entrarem no palco, têm que entrar como as putas e as víboras entram na vida.

9.

Por um teatro real e inteligente. Longe de qualquer sombra hipster. Contra a pobreza da cena atual. Não usem a poesia para difamar a poesia. Só recorram à poesia quando forem atores-poetas. Sem isso o verbo apodrece.

10.

Nada de fazer política, sociologia ou caridade com arte. Que a violência estética seja grito e poder. Agressão ao mal e ao bom gosto. Arte não tem nada a ver com gosto. Gosto é costume de época. Pelo experimento, pelo abismo. Contra toda a pieguice imperante! Poesia é pulsão, não lágrimas extorquidas. Contra todo um público brega, burro que aplaude, de pé, tudo o que é lixo cênico. Somos pela vaia! Somos contra todo teatro social porque ele tem que ser substituído pela agressão estética, desconfortar, animalizar o espectador. Teatro é abismo e rocha! Teatro é violação. Violemos patricinhas, mauricinhos e madames. Violemos o aplauso vil e o choro meloso de novela das oito. Somos por um teatro de impacto, morte ao teatro dócil!

11.

Not I, no yo, pas je, non io, nein ich, não eu. Por um teatro sem o ego alimentador da aparência, das vaidades, dos contratos sociais. Por um teatro em que o ego seja exposto como carne nos açougues.

12. 

Crianças brincando, velhos jogando dominó, pessoas nos ônibus lotados, jovens dormindo nas calçadas, executivos engravatados sob o sol de 40º, os garis e as margaridas, os que se atracam, escusos, nos parques e banheiros, as secretárias que lembram o aniversários das esposas de seus chefes, aqueles que pescam em lugares poluídos, as garças que contrastam com o esgoto, o pedreiro do prédio cuja sala tem 150 m2, o motorista que não para, a cobradora que se lamenta de dor nas costas, o musculoso correndo, a tatuagem errada, o cachorro atropelado, a lista infinita das coisas acontecidas, em acontecimento e que acontecerão, tudo reverbera teatralidade. Por um teatro que capte o acontecimento para além do acontecimento.

13.

Que o teatro não seja de vez em quando, nem seja uma escolha, mas um enfrentamento, um ponto sem retorno. Assim como é a vida e a morte.

Anúncios

3 respostas para “manifesto TEATRO DENTRO

  • Carlos

    Que coisa extraordinária… pena que existe tão poucos artistas com a mesma visão… sobretudo os atores, que são uns recalcados, egocêntricos e vaidosos disfarçados de transgressores.

  • Eduardo Silveira

    Bonito e presunçoso, como eram os manifestos oswaldianos.

    “A canonização dos artistas transgressores, feita por quem odeia a transgressão, é um crime lesa-arte.”

    Apesar dos exageros (seria algo essencial aos manifestos?), válida e necessária rebelião, afinal, o que não falta é peça morna por aqui/aí/ali.

  • Reveraldo Joaquim

    Oi Marquito oi Rubens, achei bem legal o manifesto, uma aula que pode virar tese de doutorado. Antes de comentar esse vou esperar o segundo, que com certeza vocês falarão sobre políticas publicas de apoio financeiro ao teatro. Para que os artista possam ter tempo e dinheiro para mergulhar na pesquisa de uma montagem, chamando profissionais competentes para dar toda a condição de trabalho. Beijo pra vocês

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: