KASSANDRA é teatro sublime

KASSANDRA É TEATRO SUBLIME

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

Teatro total, teatro dentrofora. Voo dentro da asa, voo fora da asa. Poesia em estado corpóreo. Loucura. Coragem. Trabalho. Um teatro diferente, incomum em nossos dias, acontece no espetáculo Kassandra. Renato Turnes e Milena Moraes há muito vêm experimentando a busca de uma poesia, a busca de um teatro que muitos atores e diretores passam, muitas vezes, toda a vida sem experimentar, isto é, a conquista de uma obra precisa, de uma partitura perfeita, em todos os seus híbridos. Kassandra deixa de ser apenas desejo, mas a materialização efetiva de um teatro total. Atuação excelente, luminar. Direção precisa. Ritmo. Apropriação do outro. Violação. Sim. Kassandra é violação. Cenário, texto, luz, enfim, tudo é trabalhado e perpassado pela mão poética do diretor Renato Turnes e por Milena Moraes, uma atriz múltipla, dona do palco e do espectador.

Na Grécia, Cassandra é aquela a quem Apolo castigou com o dom da premonição que seria sempre desacreditada. Cassandra, a execrada, aquela a quem todos olham com desdém; Cassandra, a louca à margem, a coadjuvante na tragédia As troianas,de Eurípedes. Cassandra que grita: “Me verás chegar à mansão dos mortos depois de devastar o palácio dos autores de nossa ruína”. Cassandra, a exilada, a vidente, a salva, a amada, a torturada, a amante traída e escravizada. Cassandra: poço de contrários. Terrena, divina.

Cassandra reencarna em Kassandra, travesti, transexual, transgênero. Kassandra é descentrada, trágica também, aguda, conta a sua história num idioma que não lhe pertence. Nada pertence à Kassandra, nem seu corpo, nem seu show, nem seu passado. Kassandra é uma força da natureza; é como um furação destroçando as seguranças, as verdades, os limites de quem está em seu caminho. Se a Cassandra grega era trágica porque amaldiçoada pelo deus Apolo, a Kassandra de agora, saída das mãos do dramaturgo uruguaio Sergio Blanco, é trágica porque amaldiçoada pelo distanciamento que sua cabeça de mulher, presa num corpo de homem, causa nos ditos normais, nos ditos donos do que é correto.

Kassandra já esteve em vários lugares do mundo: Montevidéu, Córdoba, Atenas, e agora aporta em Florianópolis. Por aqui, ela ganha o corpo de Milena Moraes, a direção de Renato Turnes, o cenário do Bokarra Club. A Kassandra que aportou aqui vem plena de coragem, de ousadia, plena da dor e da poesia que a persegue desde sempre, tanto quando ela era Cassandra quanto agora, em que tomou para si a letra K, que tomou para si o inglês como língua, que traz os convidados, sobretudo as convidadas, a um cenário proibido, um cenário pouco frequentado pelos “da família”, pelos “dos bons costumes”.

Mas Kassandra, assim como Cassandra, sabe que nada é o que parece ser, nada se constitui no jogo da aparência, que aquele cenário é só aparentemente proibido, assim como ela é só aparentemente feliz. Por trás de cada “you know?, you are my friend now”, a tragédia se expõe pelo avesso. Kassandra é mistura, é um caldo inseparável entra alta e baixa cultura, entre o bom gosto dos clássicos e a breguice dos puteiros, que, por mais chiques e caros que sejam, carregam em cada espelho, em cada bebida com preços extorsivos, em cada pole dance, uma pedaço do erotismo perdido, da vida escusa, da noite desconhecida, daquilo que o “bom gosto” das pessoas sérias não admite.

Cada pedaço desse mundo é incorporado por Kassandra; ela camaleoa-se no espaço e leva o público junto; dá ao público presente a possibilidade de também ser como ela: perdida, híbrida, iludida e ilusionista em sua própria história. Kassandra mostra o outro lado da tragédia. Eurípedes iguala-se ao Abba, na voz de Kassandra: “The winner takes it all, the loser has to fall, It’s simple and it’s plain, why should I complain”.

A máscara grega da tragédia agora é a mascára do Pernalonga, o mais sádico dos desenhos animados. Ela, a que sofre, a que ama, a que se entrega porque não sabe fazer outra coisa, carrega para o palco o malcaratismo do Pernalonga. Seria uma defesa? Seria uma forma de se curar de tudo o que passou? Seria um fetiche colocar-se sensualmente sobre o palco carregando uma máscara de coelho? Cassandra encarnada em Kassandra encarnada em Milena Moraes mostra a máscara, o que está atrás da máscara, reverbera-se nos espelhos, reflete-se nos olhos fixos de seus espectadores.

Somos todos Kassandra; estamos todos imbuídos da força descomunal dessa profetisa perdida, sexual, infantil. Homemulhermulherhomem. O espetáculo Kassandra nos mostraque quando o teatro é encarado de frente, é agarrado com as unhas e dentes, é feito nos limites do gozo e do perigo, não há força maior. Milena Moraes, ao lado de Gláucia Grígolo, Sabrina Lermen, Luiza Lorenz, Grazi Meyer, forma um grupo de atrizes excelentes, chega à sua maturidade e nos viola profundamente com sua atuação, nos joga para fora e para dentro de nossos confortos e desconfortos, tudo muito bem orquestrado pela direção de Renato Turnes e pela assistência de direção de Vicente Concílio. Enfim, Kassandra é uma obra de arte completa, pássaro raro, canto e silêncio tatuado na lágrima, no riso; teatro sublime e desconcertante.

FOTOS: RENATO TURNES

Anúncios

3 respostas para “KASSANDRA é teatro sublime

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: