ANTI-NELSON e o elogio do rídiculo

 

Anti Nelson-Rodrigues, pelos grupos

(E)xperiência subterrânea, Dearaquecia e Teatroqueroda

POR CLAUDIA DRUCKER

 

Florianópolis assiste agora às montagens classificadas pelo edital da Funarte que incentivou montagens das peças de Nelson Rodrigues.  Companhias de todo o país puderam concorreram ao apoio para a encenação de cada uma das peças do autor.  Decerto, esta é a homenagem que mais condiz com Nelson Rodrigues no ano do seu centenário. Os grupos (E)xperiência subterrânea, Dearaquecia. e Teatroqueroda foram contemplados pelo edital “Nelson Brasil Rodrigues: 100 anos do Anjo pornográfico” para encenar Anti-Nelson Rodrigues.

Tanto Sábato Magaldi quanto Ruy Castro, os historiadores mais decisivos da obra rodrigueana, dedicam pouquíssimas páginas a esta peça, estreada em 1974. Consideram-na fruto da insistência de Neila Tavares (a Joice do elenco da estréia), e meritória por marcar o retorno de Nelson ao palco, depois de um silêncio de quase dez anos.  Afinal, Toda nudez será castigada fora a última estréia, em 1965.  Os quase dez anos de silêncio teatral foram preenchidos pela memorialística e pela controvérsia estética e política.   É verdade que a ação cede espaço à reflexão em voz alta em Anti-Nelson Rodrigues. A trama é simples, em comparação com outras peças. Não obstante, a montagem de qualquer uma das peças rodrigueanas é um evento mais do que bem-vindo, ainda mais quando significa um reconhecimento, em nível nacional, a um trabalho gestado perto de nós.

Gastão, pai de Oswaldinho, é um industrial rico que sente a proximidade da morte.  Tereza, sua mulher, só ama o filho mimado, marginal e interesseiro.  Oswaldinho despreza ambos: o pai, que não o ama e a mãe, que o sufoca no seu amor cego e alienado.  Gastão, ao fim, resolve parar de lutar contra o rancor de ambos e esbanjar sua fortuna, pois “dinheiro compra até amor verdadeiro”.  Salim Simão é o contraponto a Gastão. Ele ama e é amado: primeiro, pela mulher falecida, depois pela filha Joice.  Salim Simão existiu.  O “extrovertido ululante” era, nesses anos, um dos muitos citados por Nelson em suas memórias, junto a outros personagens, reais e inventados.  Dele diz, ao encontrá-lo, Oswaldinho, que não acreditava na sua existência: “eu pensava que o Salim Simão fosse personagem do Nelson Rodrigues”.  Ao que ele responde: “Muita gente me pergunta se eu existo mesmo”.  O Salim Simão teatral é uma tamanha projeção do próprio Nelson que ambos tomam o mesmo remédio para o coração e dizem coisas como: “sou uma múmia, com todos os achaques das múmias” –frase repetida várias vezes por Nelson nas suas colunas memorialísticas.  Pode-se dizer que ambos, Gastão e Salim, fazem com que a presença do próprio Nelson Rodrigues paire por sobre texto.  Isso é enfatizado, nesta montagem, pela exibição de um vídeo de entrevistas suas, entremeado à ação.  Diz Salim: “o sexo nunca fez um santo; o sexo só faz canalhas”.  A bondade de Salim não é cega, pois ele reconhece a canalhice masculina: antes de conhecer amor eterno, fez dezoito moças abortarem.  O cinismo de Gastão tampouco é total.  A percepção do fim desperta nele o anseio de ser carpido com um mínimo de sinceridade.

Os críticos debatem se o título corresponde ao texto ou não.  Provavelmente, o elemento mais inesperado, em se tratando de Nelson Rodrigues, é o desfecho. De resto, o texto é inconfundível, no sentido em que estão lá várias das frases proferidas durante o período em que Nelson migrou para o colunismo.  O autor se acostumara a falar na primeira pessoa.  O jornalismo de Nelson Rodrigues, a partir de 1967, ano em que começou a escrever suas memórias, primeiro no Correio da manhã e depois em O globo, passou a deixar bem claro o ponto de vista do autor.  Não houve acontecimento importante sobre o qual ele não se pronunciasse, ao mesmo tempo em que narrava a história da sua vida.  Esta mudança se reflete em Anti-Nelson Rodrigues.  As auto-referências estão em todo parte. Várias falas da peça já tinham sido proferidas nas memórias ou, pelo menos, são compatíveis com elas.

A ação dramática gira mesmo em torno da tentativa de sedução de Joice por Oswaldinho –frustrada, já que ela é Testemunha de Jeová.  Diga-se, de passagem, que Nelson Rodrigues viu na ascensão das novas denominações protestantes no Brasil um renascimento da fé cristã, em contraponto à excessiva politização da Igreja católica.  Lembremos que os evangélicos em 1974 anda não hostilizavam publicamente nem o catolicismo, nem as religiões afro-brasileiras, o que certamente teria decepcionado o dramaturgo.  Assim, Joice não é uma “fanática de Quintino”.  Sua altivez não é arrogante ou calculista. Sua resistência a Oswaldinho nasce da crença no amor.

A montagem do grupo catarinense-goiano é tecnicamente competente.  Em uma visão que já existia no tempo de Nelson Rodrigues, e da qual ele discordava, o texto e a ação não são suficientes: deve haver algo mais.  Nelson Rodrigues, que dizia discordar radicalmente de Aristóteles, neste ponto concorda com ele: o teatro é poesia em função da ação.  Por isso, Nelson abominava os “cacos”.  Os outros elementos têm a função de não atrapalhar.  Antes, o cenário e a iluminação eram o fator de distração.  Hoje, são a música e os recursos eletrônicos.  Esta montagem usa os dois últimos, mas não de um modo que chegue a obscurecer o texto.  Mas o que realmente me incomodou, mais que as alterações no texto original, foi o riso freqüente de quase todos os atores durante a encenação.  Há exceções. Felipe Ferro, interpretando Salim Simão, recusou a “extroversão ululante”, a carga patética plena do personagem, mas levou-o a sério.  Lara Matos empresta doçura a Joice. André Felipe, interpretando Gastão, fez um esforço, várias vezes recompensado, para transmitir toda solidão e decepção do velho, mas foi contagiado pelo clima de brincadeira (“Não toque a minha peruca!”).

Em Anti-Nelson Rodrigues, o autor coloca na boca de Salim Simão uma defesa apaixonada do ridículo e do patético: “Não tenho medo do ridículo. Só os imbecis têm medo do ridículo. Já reparou que toda grande dor é ridícula?”  A reivindicação do ridículo é Dostoievski puro: pensemos em O idiota e O sonho de um homem ridículoCrime e castigo é citado também, na repetição da famosa cena em que Raskólnikov se lança aos pés de Sônia.  Salim Simão tenta fazer ver à filha que Oswaldinho está tentando corromper os dois com ofertas de empregos e altos salários.  A tentação é poderosa, ele admite, mas Joice mostra-se inabalável na sua decisão de continuar a conviver profissional e honradamente com Oswaldinho.  Diante de tamanha fortaleza moral, Salim cai a seus pés, gritando: “Não é diante de ti que me ajoelhei, mas diante de todo o sofrimento.”  Ele se ergue, furioso: “Mas onde é que eu li isso, meu Deus!”.   Não haverá afinidade entre o texto e a montagem, enquanto o elogio do ridículo não for levado a sério.

FOTOS DE CRISTIANO PRIM

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