Duas vezes Nelson Rodrigues

 

O encenador André Carreira

mergulha no universo rodrigueano

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

CALADA ESTRANHA

O encenador e professor André Carreira apresentou nos palcos da cidade duas montagens baseadas em textos de Nelson Rodrigues: Anti-Nelson Rodrigues e Calada Estranha, esta última uma leitura de Senhora dos Afogados. Calada Estranha foi realizada por acadêmicos do curso de Teatro da Udesc, como resultado das disciplinas de Montagem Teatral I e II. O texto da montagem foi adaptado por Luiz Otten. Nelson Rodrigues escreveu Senhora dos Afogados em 1947 e se trata de uma releitura, ou apropriação, de outra releitura: a peça parafraseia Mourning Becomes Electra,de Eugene O’Neill, escrita em 1933, que por sua vez se inspirou em Oresteia,de Ésquilo.

A montagem de Carreira abre espaço para que os alunos experimentem atuações dentro do universo sempre polêmico de Nelson. Os dezessete atores em cena perpassam os segredos da família do Dr. Ildo, acusado de ter assassinado uma prostituta dezenove anos antes, a senhora dos afogados. O texto de Nelson expõe de forma crua muitos de seus arquétipos: o desejo reprimido e incestuoso, a velhice hipócrita, a tragédia amorosa, a apresentação impiedosa da casca de uma classe média sempre chafurdada na hipocrisia social e religiosa.

A experimentação de Carreira com seus alunos é evidente e visível, pois consegue equilibrar muito bem atores em formação, dando destaque àqueles que se sobressaem na criação desses tipos tão característicos. Adaptar Nelson Rodrigues é sempre um risco, seja porque os seus temas ainda são entradas nas vísceras humanas, seja porque diante de tanta coisa que já foi dita e feita com as obras do autor, a possibilidade de se cair numa caricatura, num jeito “estabelecido” de se montar Nelson é grande.

Apesar, ou talvez, justamente por ser uma experiência de formação, a montagem de Carreira, que ganhou o título de Calada Estranha, não incorre nesse risco, preferindo assumir outros, como erotizar certos comportamentos, fazer com que os atores e atrizes interajam com o público, dispor o cenário de tal forma que este mesmo público seja mais que um “assistinte”. O público é um vizinho, um participante, um entremeado àquele universo decadente.

Ao mesmo tempo em que se ressalta o caráter trágico daquelas vivências, se acentua o papel que o corpo, melhor dizendo, o corpo-erótico, o corpo-derrisão e o espetáculo vão revelando as potências de jovens atores que assumem a zona do risco. Contrariando a máxima do filósofo romeno Emil Cioran de que “a universidade é o espírito de luto”, o grupo de atores, conduzidos por Carreira, cientes de suas condições de experimentadores, fazem dessa zona fronteiriça, que é a localização de uma obra de arte no contexto universitário, a busca de um lugar que se distancia do mofo, do comum, do viciado modelo teatral que insiste em imperar nos palcos da cidade.

A montagem ainda traz um tratamento espacial e plástico muito bem cuidados e em constate diálogo na exposição da decadência social e familiar. Ao chão, por exemplo, são projetadas imagens, ora idílicas dos momentos familiares comuns a quase todo mortal. Elas criam uma espécie de subtexto, já que, nesse caso, carrega o símbolo da morte e da dissolução. Se existe, em Calada Estranha, uma evidente disparidade de atuação, por outro lado existe também um ato de coragem e beleza no enfrentamento da obra de Nelson Rodrigues.

ANTI-NELSON RODRIGUES

A outra montagem dirigida por André Carreira, dessa vez de cunho mais profissional, é uma das peças menos conhecidas e mais controversas de Nelson: Anti-Nelson Rodrigues. Escrita no começo da década de 1970, após um hiato de quase dez anos, a peça tem algumas estranhezas, a começar pelo título zombeteiro, chamado pelo autor de “charme irônico”, além de um final feliz, quase televisivo. Obviamente, ainda se mantém a língua afiada de Nelson, exposta, sobretudo, nos personagens secundários: o amargo Gastão, velho empresário solitário, e o jornalista reclamão Salim Simão, personagem que serve para Nelson Rodrigues trabalhar uma breve intratextualidade em algumas falas, tais como:

“OSWALDINHO – Aliás, mais dia menos dia, eu ia fazer-lhe esta visita. Eu pensava, é interessante, que o Salim Simão fosse mais um personagem do Nelson Rodrigues. E quando D. Joice me disse, eu quis duvidar. Não é possível”.

SALIM – Muita gente me pergunta se eu existo mesmo.”

A montagem – uma parceria entre os grupos “(E)xperiência Subterrânea” (grupo dirigido pelo próprio Carreira), “Dearaquecia” (formado por alunos da Udesc) e “Teatro que roda” (grupo goiano existente desde 2003) -, foi premiada pela Funarte no Prêmio Funarte Nelson Rodrigues: 100 anos do anjo pornográfico/2012. A parceria entre esses grupos resultou numa leitura bastante eficiente do texto rodrigueano. Com uma cenografia que poderia ser melhor explorada, o público novamente tem a sensação de estar na sala de visita dessa outra família descompassada.

Carreira também trouxe ao espetáculo dois elementos que aconteceram de forma díspar no espetáculo. O primeiro foi o uso de música ao vivo. A entrada do público era acompanhada por um belo tango e o ator Felipe Ferro fez algumas interferências com um cavaquinho. São entradas musicais discretas que não afetam o ritmo da peça e dão alguma leveza, alguma malemolência ao drama de Oswaldinho e Joice. Outro elemento é o uso de vídeo durante a montagem. Algumas cenas foram gravadas e projetadas, intercalando as cenas no palco e na tela. Porém, no vídeo não surgiram apenas as cenas gravadas, mas alguns trechos de uma entrevista dada por Nelson, em que ele expõe algumas de suas máximas sempre controversas, inclusive aquela em que diz que toda mulher gosta de apanhar, só as normais, pois as neuróticas reagem.

Essas inserções do autor, talvez para acompanhar o subtexto e o contexto histórico da peça, com seu título, suas autorreferências, seu universo autoparódico, não funcionam a contento, pois parecem inserções aleatórias, feitas quase de maneira didática, tentando fazer com que o público não esqueça a presença sempre marcante de Nelson Rodrigues. O efeito não resultou bom nessa experiência, justamente porque faltou ousadia no uso desse recurso. E, em muitos momentos, o encontro entre a imagem visual da cena física e as imagens projetadas não se hibridaram, o que fez com que o recurso gerasse uma redundância desnecessária. Há, tanto nas cenas-vídeos quanto na presença de Nelson Rodrigues falando, uma certa burocracia rítmica que poderia ser sanada, já que o ritmo da peça é bastante ágil, seja pela presença da música, seja pela marcação dos atores – várias vezes saindo da sala de estar em que o público é colocado para o palco. Outras vindo do palco para a condição de espectador de si mesmo, espectador de seu próprio drama.  Montar Nelson Rodrigues é sempre um risco, ainda mais uma peça como Anti-Nelson Rodrigues, com toda a sua carga de autoironia, que revela algum ressentimento do autor em relação ao teatro. Ironia que, talvez, seja fruto do alcance que obteve com peças como Toda Nudez será Castigada ou Vestido de Noiva.

André Carreira, que seguramente figura entre um dos melhores encenadores e pensadores do teatro feito em Santa Catarina, tem experiência suficiente para assumir esses riscos, além de estar aliado a dois grupos teatrais bastante competentes, mas nessa montagem não avançou tanto por algumas margens de tensão e força, como fizera na adaptação de Senhora dos Afogados. Talvez por isso alguns dos aspectos conservadores da montagem tenham aparecido bem mais do que suas inúmeras qualidades. Um espetáculo que começa com os atores na rua, que leva o espectador para dentro da cena, que coloca o ator na mesma condição do público, que tem uma concepção visual acurada necessita explorar mais os espaços que ocupa, posto que, na montagem apresentada no Teatro da UFSC, as cenas, em sua grande maioria, se voltam para o tradicional palco à italiana. As paredes laterais, cobertas por um imenso pano branco, infelizmente, serviram apenas de papel de parede. Ali há um campo a ser explorado com projeções de imagens, textos, frases, fragmentos. No entanto, tanto em Anti-Nelson Rodrigues como em Calada Estranha André Carreira reafirma sua condição de um grande construtor visual, de um excelente preparador de atores e de um encenador ciente das operações exigidas pelo ofício. Para concluir se faz necessário ressaltar as atuações destacadas das atrizes Lara Matos e Ana Luiza Fortes e dos atores Dionísio Bombinha e Felipe Ferro.

 

 

FOTO 1 – CALADA ESTRANHA – de ANDRÉ CARREIRA

FOTO 2 – ANTI-NELSON RODRIGUES – de CRISTIANO PRIM

 

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