À PROCURA DE NELSON RODRIGUES

 POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

Recentemente, a Universidade Federal de Santa Catarina promoveu uma semana cultural chamada “Quem faz 100 anos ou +”. Dentre as diversas atividades, houve uma mostra com peças de Nelson Rodrigues. O diretor Diego de Leon veio com sua trupe de Brasília para apresentar A falecida. No programa da peça já se percebe um certo ar pretensioso na insólita lista dos agradecimentos: Alexandre Dumas Filho, Andy Warhol, The Cure, Duran Duran, Jacques Derrida, Fernanda Montenegro, Enrique Diaz, entre outros. As fotos e a proposta do grupo denotam que a companhia vai arriscar-se num tipo de leitura de “desconstrução”, para usar um termo muito em voga, vindo de Derrida e que a maioria nem sequer sonha o real significado.

Outra montagem que desaguou por aqui, no mesmo evento, foi o monólogo Valsa n.6, também de Nelson Rodrigues, da MP Produção Culturadirigida por Dan Rosseto com Lígia Paula Machado tentando alcançar o drama existencial da personagem Sônia. Ela, a personagem, vive num transe existencial, combinando loucura, incesto, estupro, delírio, num fluxo de in/consciência vertiginoso. Tal qual a valsa homônima de Chopin, também conhecida como Valsa do Minuto, o fluxo e influxo contínuos fazem de Sônia uma menina de 15 anos, moradora dos duplos real/imaginário, vida/morte e pureza/impureza.

Pois bem: Diego de Leon e sua trupe confundiram desconstrução com destruição e destruíram, sem dó nem piedade, uma das peças mais amargas e dolorosas de Nelson. Numa mistura de samba, técnicas de distanciamento brechtianos, pseudolinguagem circense, humor caricato e televisivo, o drama de Zulmira foi sendo exposto como se fosse um brinquedo na mão de infantes sem responsabilidade. Uma pequena olhadela na versão para o cinema da peça A falecida, interpretada por Fernanda Montenegro, já evitaria, em muito, metade dos equívocos perpetuados por Diego de Leon. Por outro lado, Dan Rosseto perdeu-se por completo fazendo uma leitura literal de um texto cheio de sutilezas e agressões. A Valsa n.6da trupe de São Paulo, não conseguiu adentrar nas entrelinhas e subtextos propostos por Nelson. Para completar o desastre, a atriz Ligia Paula Machado se debateu no palco com se fosse uma viva desvairada. Passou longe a figura fantasmal que é a personagem Sônia. Tudo isso agregado a um trabalho vocal absurdamente incompreensível. Assim. Lígia, além de péssima atriz, se demonstrou uma fonoaudióloga inábil. Para que o leitor entenda melhor a comparação, faz-se necessário dizer que Ligia é fonoaudióloga diplomada.

Em relação à peça A falecida, a proposta de Nelson não é algo realista, ou naturalista, ou seja, o autor permite um afastamento da representação convencional, abrindo espaço para outras leituras longe do naturalismo, como se pode verificar nas marcações da cena inicial:

 “(Cena Vazia. Fundo de cortinas. Os personagens é que, por vezes, segundo a necessidade, trazem e levam cadeiras, mesinhas, travesseiros que são indicações sintéticas dos múltiplos ambientes. Luz móvel. Entra Zulmira, de guarda-chuva aberto. Teoricamente está desabando um aguaceiro na porta, também imaginário. Surge Madame Crisálida com um prato e o respectivo pano de enxugar. Miséria e desleixo. Atrás, de pé no chão, seu filho de 10 anos. Durante toda a cena, a criança permanece, bravamente, com o dedo no nariz. Zulmira tosse muito.)”

Obviamente, esse tipo de indicação abre margem à muita leitura, porém, por mais ousada que seja, toda leitura de uma peça, ainda mais de um autor com uma linguagem tão específica quanto Nelson, deve sempre manter a espinha dorsal intacta; não se deve trair o autor, melhor, esquecer aquilo que o torna um clássico: a força humana daqueles personagens. Um dos agradecidos no programa de A Falecida é o diretor Enrique Diaz. É possível perceber a influência de um dos nomes mais criativos da cena atual no trabalho de Diego de Leon, só que a diferença está em que Enrique consegue, apesar de todo experimentalismo de suas leituras, manter-se próximo, melhor, intrínseco ao cerne da peça que ele está adaptando. Uma de suas mais ousadas incursões foi A gaivota,de Tchekhov, na qual podiam se ver projeções, metalinguagem, até mesmo a presença de um helicóptero manuseado por controle remoto, e tudo era profundamente tchekhoviano. Essa é a questão que mais atrapalha essa montagem de A falecida: nada é rodrigueano, nada se aproxima do universo mítico e poético do autor. Parece que ainda não está claro para o diretor que para destruir, ou “desconstruir” algo, é preciso antes sabê-lo construir. Fica evidente que a trupe de Brasília não conseguiria montar a peça de forma séria, resolvendo, então, partir para o oba-oba estúpido da pasteurização, da falta de leitura, da ideia de que nem Nelson Rodrigues se levava a sério, porque eles teriam que fazê-lo? À parte o evidente talento de alguns atores, o que se viu foi um engodo em nome da experimentação e de uma suposta releitura.

Analisando as duas peças que passaram por Florianópolis é possível dizer que ambas exploram uma linguagem novelesca e perceptivelmente televisiva do pastelão para um público igualmente apascentado pela linguagem fácil da telinha. Não deu outra: em ambos os casos o público emocionado aplaudiu de pé. As estéticas propostas são distintas: enquanto Diego de Leon tenta reler, reconstruir A falecida, fazendo dela uma comédia rasteira, Dan Rosseto, em sua versão da Valsa n.6, cai na literalidade do texto sem perceber o caráter plural da personagem Sônia. A atriz Ligia Paula Machado atropela o texto engolindo letras, frases, palavras, parágrafos, textos e a personagem jogando tudo no fundo de um poço sem luz alguma.

Num meio em que todo mundo vive a reclamar a presença de mais financiamento público à arte teatral – somos totalmente favoráveis ao pleito -, devemos nos perguntar como peças tão primárias, insípidas e amadoras circulam pelo Brasil devidamente patrocinadas pelos editais da Funarte. Resta-nos o amargor de sairmos do teatro à procura do Nelson Rodrigues que não dançou nenhuma valsa e foi devidamente assassinado por falecidas cenas. O poder público deve, insistimos, ter editais de circulação, formação, produção, pesquisa, bolsa, intercâmbio e outros meios de financiar a arte teatral, no entanto, há que existir critérios mais consistentes na distribuição de tais recursos, já que, no campo das artes, existe muita moeda falsa. Se não admitimos que o dinheiro público seja mal usado na saúde, na educação, enfim, em todos os setores, porque admitimos tal feito no campo das artes?

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