Andréa Padilha e o humor ácido do espetáculo A garota da capa

fotos2013 336

Espetáculo A garota da capa

e o humor ácido de Andréa Padilha

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Os humanos se habituaram a naturalizar os costumes. Somos diariamente tão bombardeados por leis invisíveis que já nem questionamos mais nada. Tudo o que fazemos é aceitar e achar que as coisas são assim mesmo, de forma natural. Aquela minoria que comanda o sistema capitalista percebeu essa tendência humana e passou a nos impor, em forma de consumo, uma série de padrões: a magreza, a beleza, o tipo de roupa, o tipo de cabelo, a cor correta da pele, a cor que temos que nos vestir a cada estação.

Apesar de uma mudança nos últimos tempos, vinda com a permissão de que os homens também sejam vaidosos e consumam muito para manter a vaidade, as maiores vítimas dessa “naturalização” imposta pelo sistema capitalista foram e são as mulheres. Sobre elas recaem as “verdades naturais”, as “coisas naturais de mulher”, que as fazem belas e principalmente “mulheres de verdade”: a maquiagem, o salto alto, a bolsa sempre carregada de inúmeros objetos, os sapatos, a magreza, o combate perpétuo à celulite, as joias, as lojas de cosméticos, os salões de beleza, as unhas impecavelmente pintadas, as escovas progressivas, o cabelo liso e comprido, a depilação, os decotes, os guarda-roupas, as cirurgias plásticas, a insistência na juventude etc., etc., etc.     

Com tudo isso veio a visão “natural” de que as mulheres são mais consumistas, a visão “natural” de que elas são movidas pelos cartões de créditos, a visão de que comprar, ser magra, ser jovem é um impulso natural e não uma imposição muito bem articulada por aquela minoria que comanda o sistema em que estamos inseridos. Resumindo o rosário: o ficcional vira real por meio de um bombardeio diário em televisões, revistas, jornais, rádios, internet, cartazes e todas as parafernálias que vemos nas performances mirabolantes das publicidades e propagandas.

Entre todos esses meios, as revistas são das mais fortes e presentes no cotidiano das pessoas. Obviamente, uns bons 90% delas são direcionadas às mulheres. Elas são responsáveis por estabelecer o gosto, o padrão, a cor, o tipo de corpo, o tipo de comportamento que as mulheres “têm que ter”. A peça A garota da capa, que esteve em cartaz no dia 10 de janeiro no recém-inaugurado Teatro Dionísios, nos Ingleses, em Florianópolis, é uma bem articulada crítica a essa imposição. Criada pelo diretor inglês John Mowat e pela atriz Andréa Padilha, com iluminação de Jochen Pasternacki, adaptação musical de Nelson Padilha e Anderson Sauerbier, mostra o cotidiano de uma mulher solitária que pauta sua vida vazia inventando um mundo em que pode escolher amigos, amores, lugares, tudo de acordo com as revistas. Claro, o seu corpo também é pautado pelo tipo de corpo que lá se apresenta. Não apenas o seu corpo, mas o corpo do homem que a personagem deseja, o modelo de alimentação, as vestimentas, os lazeres, o prazer, enfim, os sonhos reais da personagem da peça A garota da capa são todo ficcionais, no entanto, tão reais e cruéis que Andréa Padilha só poderia mesmo transitar entre o humor negro e a tragicidade para compor sua personagem divertida e tristemente só em seus inventos pessoais.

Seguimos a saga de uma mulher anônima que se encanta com os atores famosos tornando-os seus amantes, que é amiga de mulheres lindas, que adentra as fotos de iates, convive com pessoas da alta classe, veste as melhores roupas e come as melhores comidas. Andréa Padilha concede à personagem aquele misto de tragédia e comédia que as pessoas patéticas possuem. É triste e engraçado vê-la desejando comer um bolo ao mesmo tempo em que olha para a magreza-tábua da modelo na capa da revista. Nesse momento ela olha para si mesma e percebe as duas impossibilidades: não pode comer e também não será loira e alta.

São esses embates que fazem da peça uma crítica bastante efetiva ao modelo comercial, econômico, cultural que estamos vivendo. A presença de Andréa Padilha no palco é luminosa, pois a atriz não tem medo do humor “autodepreciativo”, expõe suas “imperfeições físicas” (termos bem entre aspas mesmo, pois eles se remetem aos conceitos de perfeição física e autoapreciação  determinados pelo sistema que a peça critica) como poucas atrizes têm coragem de fazer.

O humor, que tange algumas vezes o absurdo, é a linguagem utilizada pelo diretor John Mowat para conseguir uma reflexão mais profunda do público sobre a naturalização de um sistema. A mulher sobre o palco é qualquer mulher que tem problemas ortopédicos por causa dos saltos, que se deita para que um vestido ou calça possa caber, que se entrega às fantasias de príncipe encantado, que acredita que ser mulher são essas coisas que estão nas revistas. Mas aquela mulher também são os homens que estão sendo cooptados para esse mundo. Em A garota da capa, o trabalho excelente da atriz Andréa Padilha é uma tentativa de parar esse fluxo “natural”, de permitir que as pessoas sejam o que verdadeiramente são, que tenham o corpo que tenham, que se encontrem com aquilo que a natureza realmente lhes deu e busquem uma realidade mais efetiva, mais carne e menos photoshop.

Com um cenário mínimo e funcional – uma mesinha, uma cadeira, uma arara para roupas e muita, muita revista de moda, beleza e culinária -, Andréa Padilha começa o espetáculo entre o público com várias sacolas de grife, e vai adentrando o palco para nos levar ao riso ritmado pelo sarcasmo e pela ironia sempre pontuada pelo lado trágico da personagem. No entanto, a leveza inerente aos grandes humoristas aparece e arrebata o público que ri de uma ficção cruel e pensa na vida palpável do dia a dia com suas “imperfeições”.

A garota da capa é um trabalho constituído por meio da imagem. Não há fala; o que vemos é uma dramaturgia ritmada pelo movimento, por alguns sons e pelas imagens. Trata-se de um desafio para qualquer ator. Andréa Padilha alcança o público com seu trabalho corporal expressivo, contudo, falta-lhe ainda uma melhor cadência no ritmo dramatúrgico para que seu humor negro seja mais visceral. Estamos diante de um espetáculo que tem um excelente trabalho de ator, dramaturgia inteligente e uma grande proposta na direção. A cadência rítmica a que nos referimos deverá ser alcançada à medida em que a peça for apresentada em nossos palcos.

O público pode assistir ou reassistir à peça nos dias 27 de Janeiro e 3 de Fevereiro, às 21h, no Teatro Álvaro de Carvalho. Depois de assisti-la, é só começar a fazer perguntas fatídicas a todo o sistema que nos impõe padrões de consumo: “Quem disse que tem que ser assim?”, “Quem disse que esse é o modelo correto?”, “Quem atestou tais coisas como verdades naturais?”, “Isto é mesmo isto?”, “Onde estão estas mulheres e estes homens no mundo palpável?”, “A quem interessa este modelo de beleza?”, “Quem se beneficia com a imposição dessa estética?”. O trabalho de Andréa Padilha e John Mowat nos concede essa liberdade. O que precisamos é usufruí-la cada vez mais. Numa proposta um pouco distanciada, mas bem próxima sob o ponto de vista crítico, citamos aqui o trabalho da fotógrafa paranaense Fernanda Magalhães, que em 2011 circulou pela Europa e pelo Brasil com a exposição “A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia”. Esse é outro trabalho que nos leva, saborosamente, às mesmas inquietações que Andréa Padilha trouxe com o espetáculo A garota da capa.

 fotos2013 326

FOTOS: MARCO VASQUES

Anúncios

Uma resposta para “Andréa Padilha e o humor ácido do espetáculo A garota da capa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: