UM DEUS DORMIU LÁ EM CASA

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UM DEUS DORMIU LÁ EM CASA

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Faz-se necessário, antes de tudo, esclarecer que os grupos teatrais Dromedário Loquaz e Teatro Armação contribuíram de forma decisiva para a solidificação do teatro feito em nosso estado. Qualquer pesquisador, estudante ou mero curioso que queira entender a historiografia do nosso teatro terá, inevitavelmente, que passar pela gênese desses dois grupos, que conseguiram ultrapassar as intempéries e já levaram ao naufrágio uma infinidade de coletivos cênicos.

Os dois grupos, o primeiro fundado em 1972 e o segundo criado em 1981, se uniram para montar Um Deus Dormiu lá em Casa, texto de Guilherme Figueiredo que obteve imenso sucesso com Paulo Autran e Tônia Carreiro nos papéis de Anfitrião e Alcmena. A peça constitui-se de numa comédia de erros ambientada em Atenas. O general Anfitrião e seu escravo, Sósia, partem para a batalha e deixam Alcmena e sua escrava, Tessala, em casa; no entanto, temendo a realização de uma profecia ― a de que um homem dormiria em sua casa ―, Anfitrião resolve abandonar a guerra e se disfarçar de deus para testar a fidelidade de sua esposa. Daí para frente segue-se aqueles disfarces e simulacros tão inerentes ao gênero.

Na montagem catarinense, a diretora Sulanger Bavaresco optou por reconstituir o ambiente cênico da distante Atenas e ela mesma fazer o papel da protagonista Alcmena com o ator Jaime Baú no papel de Anfitrião. Os papéis dos escravos ficaram por conta dos atores Regina Prates e Chico de Nez.

Claro que, primeiramente, fizemos algumas perguntas ao sair do teatro: qual o sentido de se montar um texto desses sem buscar um diálogo com as questões atuais? Como se comportam os homens ciumentos hoje que são capazes de abandonar o maior dever cívico, a guerra, para provar a fidelidade de sua mulher? 

Se a proposta era a de trazer ao palco, conforme os próprios grupos afirmam, “uma comédia prazerosa, onde o homem ri de si mesmo” e que discuta “ciúme, vaidade, divindades, sexo”, eles ficaram em algum lugar muito distante do que pretendiam. A comédia de Guilherme Figueiredo é uma das inúmeras releituras dramáticas feitas a partir da história cômica de Anfitrião. Uma das primeiras adaptações dessa história vem de Plauto.

Uma das modificações perpetradas por Figueiredo foi retirar de cena Júpiter e Mercúrio, fazendo com que o próprio Anfitrião e seu escravo se passassem pelos deuses. Obviamente, o público sabedor da farsa espera que os erros e confusões aconteçam. Guilherme estava falando com o público da década de 1940, época em que os papéis de homens e mulheres ainda eram substancialmente definidos. Ela, a dona de casa, que aguarda o marido, mas desejosa de outras aventuras. Ele, o guerreiro que sai de casa para a vida e deseja da esposa apenas fidelidade. Os escravos cumprem os papéis de subalternos que apenas espelham seus mestres. Estamos num terreno que há muito desmoronou; já não há mais demarcações tão firmes e esteriotipadas como as vistas na peça. Adaptá-la para os dias de hoje, sem levar em conta o subtexto sociológico e político que está no texto, é jogá-la apenas no campo do entretenimento mais rasteiro, que permitirá ao público rir com os seus preconceitos, e não rir de seus preconceitos.

Assim, essa montagem de Um Deus Dormiu lá em Casa não alcançou nem a leveza necessária a uma comédia de erros ― geralmente montada com objetivo principal do divertimento e, quando bem executada enlaça o público em suas peripécias ― e, muito menos, estabeleceu uma discussão acerca dos temas referidos. O que se viu no palco do Teatro Armação foi uma sucessão de clichês, atuações caricatas e muito próximas das que pululam nos programas de televisão: a ausência de ritmo, tão característico dessas montagens, um trabalho vocal exagerado, irritante, a utilização desnecessária de vozes em off e atuações arrastadas, ainda que apressadas.

A sedução do público é chave para que trabalhos com Um Deus Dormiu lá em Casa funcione. Sem a conquista do espectador, espetáculos com essa natureza rítmica tornam-se verdadeiros tormentos, não apenas para quem os assiste, mas igualmente desconfortáveis para os atores. Esse desconforto, esse incômodo fica visível ao se perceber que nenhum dos quatro atores em cena joga o olhar para o espectador. A comédia pede essa cumplicidade, esse jogo íntimo, essa troca de olhares. Há, também, na montagem, uma confusão entre ritmo e velocidade. A impressão que se tem é que os atores querem se livrar do texto como se quisessem se livrar da fabulação, do jogo cênico e do público.

A diretora Sulanger Bavaresco se mostrou bastante competente nos seus espetáculos anteriores, que demonstraram, além de uma linguagem forte, toda uma inquietação poética e filosófica pertinente aos dias de hoje. Porém, ao trazer uma comédia, perigosamente datada, não conseguiu retirar do texto talvez aquilo que ainda reste dele: a velha insegurança masculina em relação à fidelidade feminina. Ficando na superfície, tanto do texto quanto da encenação, esta peça não honra, nem o trabalho anterior de Sulanger, nem a trajetória dos grupos Dromedário Loquaz e Teatro Armação. Um Deus Dormiu lá em Casa, definitivamente, se torna um espetáculo primário e, mais uma vez, comprova que cada montagem é um mergulho no abismo à busca da luz, mas desta vez a luz não reverberou e Dioniso passou distante da cena.

 

 

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FOTOS: MARCO VASQUES

 

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Uma resposta para “UM DEUS DORMIU LÁ EM CASA

  • João Camilo

    Fui assistir a esta montagem, em uma temporada no Sesc de Floripa, Só me surpreende que o sesc não faça uma escolha de maior qualidade dentre as atrações que apresenta, pois o sesc já deveria exigir um padrão mínimo de qualidade. Como bem definiu o crítico acima, a montagem é ruim, arrastada, sem graça, antiga, chata..e são atores já de uma certa idade, e pelo currículo, já estão na estrada ha algum tempo, ou seja, já deveria-se saber que é ruim..o sesc deveria ter gente que possa reconhecer um mínimo de qualidade nas apresentações, para que a gente não fique com trauma de ira ao teatro. Obrigado.

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