URANO QUER MUDAR

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URANO QUER MUDAR

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

A recente montagem de Urano quer mudar, de Rogério Christofoletti, sob a direção de Brígida Miranda e com atuação de Margarida Baird e José Faleiro, causa um estranhamento diante dos elementos que a compõe. O jovem dramaturgo escreve sobre um casal de atores que está de mudança e encontra uma peça que nunca conseguiu montar: temos, então, o velho recurso da peça dentro da peça. Margarida Baird e José Faleiro, casal icônico do teatro catarinense, atuam como personagens e como se também estivessem falando de si. A direção de Brígida Miranda opta pelo intimismo, por uma atuação quase que improvisada dos atores e, como ponto positivo, retira da peça qualquer empostação teatral, ficando no campo da conversa, na qual o público se coloca como ouvinte privilegiado das histórias do casal de atores.

Se há uma coisa sobre a qual não se pode questionar em Urano quer mudar é a coerência de sua proposta. A simplicidade permeia o espetáculo, que na constituição de trama labiríntica formada por três casais (José-Margarida, Urano-Fenícia e José-Cherry) coloca o espectador num entrelugar, numa zona de articulação estranha. Há três níveis de interpretação que constituem as cenas. Os atores passam da leitura dramática ao ato de contar muito intimamente uma história e chegam ao que se costuma chamar de constituição de personagens próprios de uma dita dramaturgia convencional. Todo o espetáculo é urdido numa constante metalinguagem, na qual Faleiro e Baird vão se esgueirando pela narração, pela leitura dramática e pela atuação típica da tradição teatral que confecciona os chamados tipos. A memória é a maior metáfora. Afinal, somos muitos, embora aparentemente; tentamos selar a vida com a tal da identidade una.

            O estranhamento vem justamente da mistura constante entre passado e presente, entre biografia e ficção. Muitas das cenas falam mais diretamente àqueles que estão envolvidos com a produção de teatro. As ironias e as indiretas chegam mais claras aos que conhecem a trajetória dos atores. A força de Urano quer mudar está na simpatia com que os dois atores desempenham seus personagens. O que dá suporte à peça é a questão da memória: a que carregamos dentro, no nosso corpo, ou a que está nas coisas que carregamos conosco, mas que são externas – finitas também, frágeis sobretudo – e que podem ser abandonadas a cada mudança?

Ecléa Bosi, na introdução de seu livro “Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos”, ao falar sobre os depoimentos recolhidos, diz que “[…] se as lembranças às vezes afloram ou emergem, quase sempre são uma tarefa, uma paciente reconstituição. Há no sujeito plena consciência de que está realizando uma tarefa […]. Esta tarefa é um auto-aperfeiçoamento, uma reconquista”.

            Não podemos deixar de constatar, também, que o caminho percorrido pelo grupo oferece vários perigos. Urano quer mudar é um espetáculo que será melhor fruído pelo espectador habituado ao cenário teatral catarinense e que conheça, ainda que superficialmente, um pouco da trajetória do intelectual e professor Ronaldo Faleiro e da atriz Margarida Baird. Não apenas isso. Até a condição amorosa – Margarida e Faleiro são casados – é ponto importante para que a plateia se relacione com o espetáculo. Esse teatro que podemos posicionar na fronteira do confessional, que já nos rendeu peças brilhantes como “Luis Antonio – Gabriela”, dirigida por Nelson Baskerville, e “Cabaret Stravaganza”, encenada por Rodolfo Garcia Vázquez, tem seus riscos e expõe cruamente a vida dos atores. É preciso conquistar a vivência da memória. Mais do que isso, Urano quer mudar aposta na construção de memórias.

A peça de Christofoletti propõe justamente essa busca, essa tarefa que é executada pelo casal de atores. A memória é uma espécie de resgate, em que o fato realmente acontecido pode retornar travestido de invenção, de esquecimento, de pontos de vista, além de vir sempre como fragmento, pedaço, recorte dúbio. Urano quer mudar transita justamente sobre essa hesitação, esse entremeio, entre o que é real e o que é ficção, entre o que é a memória dos atores e o que é invenção. Talvez seja justamente isso que tenha nos causado tanta estranheza. Ela não nos dá um teatro que estamos acostumados a assistir, nem no sentido da transgressão, da ruptura, da ousadia estética, nem no sentido daquele teatro falho, superficial, torpemente amador a que o público é constantemente submetido.

Com um cenário simples, constituído de livros, algumas fotos, dois baús que vão ganhando significados distintos – pois ora são o depósito da memória, ora se transformam em caixão -, muito papel para embrulhar lembranças e esquecimentos, as cenas vão se imbricando entre ato de vida e ato de morte. Sim. Faz-se necessário dizer que Urano quer mudar trata claramente também do esquecimento, da morte e, claro, das pasteurizações que o teatro e arte vêm sofrendo. As ironias feitas com autores (Stanislavski e Coupeau, por exemplo), com a questão da autoridade, dos modos de representação que os atores experimentam perpassam esse ambiente simples criado pelo grupo.

            Urano quer mudar se coloca em outro lugar, muito por causa dos nomes envolvidos na sua produção, e estabelece com o espectador um pacto difícil, mas bastante instigante: o de que ali, naquela uma hora de encenação, o que vai ser visto são fragmentos de uma história longa, que se deu no teatro, mas não apenas nele, que atravessou e continua atravessando a vida. Somos convidados a escutar, ver, sentir as memórias aflorando. É uma experiência que causa comoção, seja pela identificação com a trajetória dos personagens, seja porque vem imbuída de uma força que desloca o olhar crítico sobre a peça como um objeto de arte.

Como já dissemos, a peça desloca o espectador a um campo outro, o que no nosso caso, causou a estranheza. Estávamos assistindo a uma peça de teatro, percebíamos certas falhas, certas incongruências estruturais, certos pontos que poderiam ser melhor desenvolvidos, mas ao mesmo tempo estávamos enlevados noutro plano, seduzidos pela exposição fictícia, real, inteira, fragmentada da memória de Margarida Baird e José Faleiro.

A professora e estudiosa da memória, Lina Bolzoni, diz que “[…] para que o espetáculo da memória se ponha em marcha e funcione é necessário que o olho da mente recorra às imagens de uma maneira lenta, ordenada e analítica”. Assim, a arte da memória requer uma visualização muito distanciada da nossa, uma visualização capaz de extrair da imagem todas as mensagens com as quais havia sido revestida. Essa peça, com todas as suas qualidades e defeitos, é justamente a memória se colocando em marcha, lentamente, e por requerer uma visualização tão distanciada do que estamos acostumados, causou-nos estranheza, um rescaldo de dúvidas e incertezas sobre o que estávamos vendo, ao mesmo tempo em que ficávamos surpresos por estarmos numa zona de fronteira, naquele espaço misterioso e essencial em que a arte da memória atua.

Estamos diante de uma potência teatral que precisa reordenar as forças e as energias que foram, tão afetivamente, ofertadas ao espectador. É preciso que se redimensione a estética do trabalho para que o espetáculo possa dialogar com qualquer público, para que ele não seja, notadamente, uma conversa íntima e afetiva feita para amigos. Talvez aí esteja o maior desafio de Brígida Miranda: encontrar no todo do espetáculo um ponto de equilíbrio que possa deslocar, também, o espectador alheio ao conjunto de referência que já expusemos.

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