PALAVRA DE ATOR – um teatro vivo

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 PALAVRA DE ATOR – um teatro vivo

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

O ator francês Maurice Durozier esteve em Florianópolis na semana passada para uma única apresentação de seu espetáculo Palavra de Ator, realizada no Teatro Álvaro de Carvalho. Como o próprio título da peça informa, o espetáculo trabalha os relatos, as experiências e as poeticidades da profissão ator, partindo de algumas indagações do ofício, tais como: O que vem a ser um ator? Como atingir o público com sua presença? O que acontece no ato cênico? Por que ser ator? O que é presença? Onde está o limite entre a vida e a arte? Quando se sabe que se é ator?

Durozier, que é membro há mais de 30 anos de uma das maiores companhias teatrais do mundo  –  o Théâtre du Soleil, da França  – , é de uma longa linhagem de gente completamente envolvida com o teatro, ou seja, um ator que tem muita palavra para dar ao espectador. A peça pode ser lida como uma palestra, uma conversa íntima, um monólogo e, também, como um programa de entrevistas, pois há a participação da atriz como filha do ator, Aline Borsari, como provocadora de alguns questionamentos sobre os quais Maurice Durozier discorre em um português bastante fluido.

            Além de algumas anedotas sobre o início da carreira, quando ele e alguns amigos tinham sonho e utopia na busca do “teatro total”, Maurice expõe as condições contraditórias do ator, isto é, um sujeito frágil e forte; alguém que precisa abandonar-se completamente para ser empossado pelo personagem; alguém que em ser chama, se consome após emanar a luz. Durozier acredita num ator “cavalo”, aquele que recebe o personagem depois de um trabalho exaustivo de preparação física, psicológica, artística, pois só assim é que se encontra a plenitude da função do ator. E ele consegue, com sua partitura cênica precisa, com uma interpretação vigorosa, seduzir os espectadores e se fazer cavalo selvagem dono da cena.

            A peça é um convite para que se entre na intimidade do ator Maurice Durozier e se discuta o que vem, enfim, a ser o trabalho do ator. Trata-se de um trabalho substancialmente metalinguístico e bastante direcionado às pessoas ligadas ao teatro, ou seja, a estudantes, professores, atores, críticos de teatro, que recebem uma aula sobre a técnica e a paixão pelo ofício. Quanto ao público em geral, este pode se divertir com a presença cênica e o carisma de Durozier e, sobretudo, aprender que ser ator ultrapassa a vaidade, o hobby, a fama eventual que se possa conquistar com essa profissão e os demais estigmas pasteurizados que vivem rondando as artes. Durozier concentra seu tema, obviamente, no ator de teatro e expõe durante quase duas horas todo um cabedal de referências que vão da filosofia e das espiritualidades orientais à necessidade que o ator tem de ser dirigido, testado, exposto em suas próprias contradições.

            Estruturalmente, Palavra de Ator poderia ser composto apenas como um monólogo de Durozier. A pretensão de estabelecer um diálogo, por assim dizer natural, com Aline Borsari nos parece desnecessário, pois, diferente de Durozier, Aline não consegue ser natural em cena. Seria a filha perguntando ao pai? Uma repórter a um ator? Enfim, sua atuação não se organiza de forma orgânica no todo do espetáculo. Durozier afirma que optou por utilizar a presença da figura de sua filha em cena, pois “para um ator, falar de seu ofício é pregar uma peça em si mesmo, porque é preciso atravessar contradições”, e para não se desviar, ele resolveu estabelecer esse diálogo no palco. Uma opção válida, mas que cenicamente resultou em uma única fragilidade do espetáculo. Falta à Aline o dom do questionamento, do interrogar e a partilha da presença em cena.

             No entanto, Palavra de Ator atinge o espectador muito intimamente e vem nos afirmar que simplicidade, algo distante dos palcos catarinenses, pode constituir a retomada de um teatro vivo, de um teatro íntimo que esteja distante das invencionices amorfas.  Palavra de Ator nos apresenta mais que um grande ator e sua trajetória.  Apresenta-nos um pouco da história do ator e teatro em forma de caligramas cênico-poéticos.

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Texto publicado no jornal Notícias do Dia [08/05/2013]

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