DELÍRIOS DE PAPEL – entre o excesso e a originalidade

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Delírios de Papel – entre o excesso e a originalidade

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

O 7.º Festival Internacional de Teatro de Animação começou com o espetáculo Delírios de Papel, da Companhia “La Llave Maestra”, que nasceu em 2010 com a junção de artistas chilenos e espanhóis. Especializada em espetáculos cuja linguagem cênica privilegia o corpo, o gesto e a manipulação de objetos, a companhia tem como busca uma linguagem que reflita sobre a vida de forma poética e lúdica.

Delirios de Papel é uma peça que discute temas importantes do contexto social. A infância, o amor, a morte, a famigerada tecnologia e o corpo humano estão em constante debate no espetáculo. No entanto, a direção de Alvaro Morales Lifschitz, infelizmente, cultiva alguns excessos desnecessários. O espetáculo começa com uma cena impactante, apresentando um cenário constituído por uma grande parede de papel, de onde brotam os delírios, num jogo de som, sopro e luz por meio do qual somos transportados, num primeiro momento, a um mundo sensorial onde impera o fantástico e o agônico. A manipulação do imenso papel termina numa retumbante vermelhidão de afogamentos. A morte e o abandono surgem, inicialmente, como metáfora principal. Aos poucos, por meio de cortes e recortes que os atores fazem no papel, os quadros vão surgindo, demonstrando criatividade, simplicidade, uma constante mescla entre a alegria e a tristeza, constituindo-se em vários esquetes cuja força tragicômica ora revela o lado patético, ora o lado grandioso e divertido do humano.

Um dos esquetes apresenta uma forte cena de suicídio que, infelizmente, tem sua força aterradora aliviada pelo uso exacerbado da música. Faltou ao trabalho uma aposta no silêncio, na força da imagem, sobretudo na segunda metade, parte na qual se apresenta o maior desequilíbrio. A direção de Lifschitz não soube editar, cortar ou mesmo suprimir uma longa e desnecessária cena em que os personagens enfrentam uma ventania. Desritmada e óbvia na sua solução, a cena toda desequilibra a força e a originalidade do que havia sido apresentado até ali, e também prejudica a divertida cena final, na qual o delírio de papel é um casamento muito divertido, que envolve toda a plateia.

Delírios de Papel possui excelentes atores-manipuladores, incrível poética visual, mas peca pelo excesso, pela necessidade de exibir a nítida qualidade técnica dos atores, por achar que a música seria necessária onde o silêncio seria melhor aparato para a cena, por não conseguir manter-se na mesma altura poética e estética com que começou. De qualquer forma, é um espetáculo que, apesar dos escorregões, apresenta uma força criativa original capaz de, em alguns quadros, atirar o espectador no espaço lúdico e lúgubre, que consiste em toda a atmosfera do trabalho.

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Texto publicado no jornal Notícias do Dia [25/06/2013]

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